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IME20211a faseQuestao 1MatemáticaBinômio de NewtonDificil
Determine a soma dos coeficientes de x3 na expansão de (1+x)4(2−x2)5.
A)−320
B)−288
C)−192
D)128
E)320
IME20211a faseQuestao 1PortuguêsInterpretação de texto (TIC)Media
Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo
jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar
da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões" aborda os
acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular
messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura
obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo
autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra
canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se
caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados,
para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa,
gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.
Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS
Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes — e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais — guerreiros de cujas mãos
caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista — se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território — orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias —, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
— e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. À
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; — enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.
CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2º ed. São Paulo: Editora Ciranda
Cultural, 2018. p. 181-186.
De acordo com o Texto 1, pode-se afirmar que a Guerra de Canudos foi:
A)um conflito armado entre exércitos profissionais que se enfrentaram em campo aberto.
B)uma guerra civil de soldados bem equipados e adaptados ao terreno.
C)um conflito armado assimétrico entre uma tropa de soldados e camponeses desarmados.
D)um combate contra habitantes da região semiárida por razões exclusivamente religiosas.
E)um conflito marcado pela audácia e pela simbiose do jagunço com as condições geográficas da região.
IME20211a faseQuestao 2MatemáticaOperações e otimizaçãoMedia
Considere que a=0, b=0 e (a+b)=0. Sabendo-se que ba+ab=3, determine o valor de 2(a+b)2a2+b2.
A)0,1
B)0,3
C)0,6
D)0,8
E)1,0
IME20211a faseQuestao 2PortuguêsInterpretação de texto (TIC)Media
Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo
jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar
da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões" aborda os
acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular
messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura
obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo
autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra
canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se
caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados,
para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa,
gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.
Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS
Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes — e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais — guerreiros de cujas mãos
caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista — se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território — orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias —, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
— e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. À
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; — enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.
CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2º ed. São Paulo: Editora Ciranda
Cultural, 2018. p. 181-186.
Considere os trechos do Texto 1 a seguir:
I. 'E ririam os sábios feldmarechais — guerreiros de cujas mãos caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista — se ouvissem a alguém que às caatingas pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens.' (linha 04 a 06).
II. 'E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...' (linha 31).
III. 'Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência, perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes — e formulam leis para a guerra, pondo em equação as batalhas...' (linha 01 a 04).
É correto afirmar que:
A)o período destacado em I demonstra que a caatinga é um agente tático mais relevante que a floresta.
B)a oração destacada em II afirma que o jagunço é um combatente de moral ilibada.
C)o período destacado em III afirma que a arrogância é inadequada para o exercício da ciência da guerra.
D)a oração destacada em I afirma que a floresta é um aliado indispensável dos jagunços no combate.
E)o período destacado em III afirma que a floresta é um obstáculo intransponível ao confronto bélico.
IME20211a faseQuestao 3PortuguêsInterpretação de texto (TIC)Media
Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo
jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar
da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões" aborda os
acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular
messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura
obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo
autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra
canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se
caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados,
para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa,
gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.
Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS
Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes — e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais — guerreiros de cujas mãos
caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista — se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território — orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias —, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
— e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. À
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; — enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.
CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2º ed. São Paulo: Editora Ciranda
Cultural, 2018. p. 181-186.
O Texto 1 intercala os processos dissertativo-argumentativo e descritivo-narrativo. Isso se confirma, respectivamente, pelas seguintes características:
A)o emprego de alusões históricas e expressão do ponto de vista do autor; economia de adjetivação.
B)utilização frequente de verbos conjugados no gerúndio; relações de anterioridade e posterioridade.
C)exposição de ideias e de informações sobre a guerra; emprego de individuações.
D)uso de aspectos do texto científico e artigo jornalístico; narrativa historiográfica.
E)preocupação com a plausibilidade e consistência teórica; necessidade de engendrar no leitor uma disposição de agir.
IME20211a faseQuestao 3MatemáticaPolinômios e identidadesDificil
Seja a função f(x)=2x4−8x3+4x−7. Considere uma reta qualquer que corta o gráfico dessa função em quatro pontos distintos: (x1,y1), (x2,y2), (x3,y3) e (x4,y4). O valor de 2x1+x2+x3+x4 é:
A)1
B)23
C)2
D)27
E)4
IME20211a faseQuestao 4PortuguêsSemânticaFacil
Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo
jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar
da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões" aborda os
acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular
messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura
obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo
autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra
canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se
caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados,
para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa,
gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.
Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS
Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes — e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais — guerreiros de cujas mãos
caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista — se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território — orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias —, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
— e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. À
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; — enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.
CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2º ed. São Paulo: Editora Ciranda
Cultural, 2018. p. 181-186.
'Ouve-se uma voz de comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...' (Texto 1, linhas 37 e 38).
O valor semântico do vocábulo 'estrugidoramente' no trecho acima se aproxima de:
Uma sequência é gerada pelo produto dos termos correspondentes de duas progressões aritméticas de números inteiros. Os três primeiros termos dessa sequência são 3053, 3840 e 4389. O sétimo termo da sequência é:
A)3035
B)4205
C)4398
D)4608
E)5063
IME20211a faseQuestao 5PortuguêsInterpretação de texto (TIC)Media
Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo
jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar
da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões" aborda os
acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular
messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura
obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo
autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra
canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se
caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados,
para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa,
gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.
Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS
Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes — e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais — guerreiros de cujas mãos
caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista — se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território — orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias —, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
— e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. À
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; — enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.
CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2º ed. São Paulo: Editora Ciranda
Cultural, 2018. p. 181-186.
No intuito de manifestar, no plano linguístico, a ideia de uma natureza integrada à lógica antagônica do conflito armado, o autor atribui às características da vegetação da caatinga ações de natureza própria do humano.
A alternativa que corresponde a um trecho do Texto 1 que ilustra esse procedimento estilístico é:
A)'Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes arrebata das mãos as armas' (linhas 48 a 49).
B)'Espalham-se, correm à toa, num labirinto de galhos' (linhas 54 e 55).
C)'Trançam-se, impenetráveis, ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias (...)' (linhas 15 e 16).
D)'(...) e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes' (linha 43).
E)'(...) orlando as fronteiras e quebrando o embate às invasões (...)' (linhas 07 e 08).
Seja a matriz M=[1−zzzˉ], onde z é o número complexo z=cos(34π)+isen(34π), zˉ o seu conjugado e os ângulos estão expressos em radianos. O determinante de M é:
A)2(cos(32π)+isen(32π))
B)2(cos(34π)+isen(34π))
C)2(cos(38π)−isen(38π))
D)cos(π)+isen(π)
E)cos(2π)+isen(2π)
IME20211a faseQuestao 6PortuguêsGramática e Norma CultaMedia
Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo
jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar
da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões" aborda os
acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular
messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura
obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo
autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra
canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se
caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados,
para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa,
gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.
Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS
Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes — e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais — guerreiros de cujas mãos
caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista — se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território — orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias —, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
— e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. À
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; — enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.
CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2º ed. São Paulo: Editora Ciranda
Cultural, 2018. p. 181-186.
Considere as assertivas a seguir:
I. '(...) se ouvissem a alguém que às caatingas pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens.' (Texto 1, linhas 05 e 06). Os conectivos em destaque 'se' e 'que' estabelecem a relação de causa e de comparação, respectivamente.
II. 'Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta' (Texto 1, linha 14). A locução em destaque exprime a ideia de condição.
III. 'As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma barreira flexível, mas impenetrável, de juremas.' (Texto 1, linhas 47 e 48). Os termos em destaque, ocorre o emprego de um pronome e de uma preposição, respectivamente.
Está(ão) correta(s) a(s) assertiva(s):
No Presarium Militares, você resolve essas questões com correção na hora, comentário e um painel que cruza a incidência com o seu desempenho — e monta sua lista de prioridade automaticamente.