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IME20201a faseQuestao 1MatemáticaTeoria dos números (divisores)Dificil
Seja U o conjunto dos 1000 primeiros números naturais maiores que zero. Considere que zeros à esquerda são omitidos. Seja A⊂U o conjunto de números cuja representação na base 10 tem o algarismo mais significativo igual a 1; e B⊂U o conjunto de números cuja representação na base 4 tem o algarismo mais significativo igual a 2. As cardinalidades de A−B e de B−A são, respectivamente:
Observação: cardinalidade de um conjunto finito é o número de elementos distintos desse conjunto.
A)46 e 277
B)45 e 275
C)44 e 275
D)45 e 277
E)46 e 275
IME20201a faseQuestao 1PortuguêsInterpretação de textoMedia
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1 — O ALIENISTA (Capítulo IV — UMA TEORIA NOVA), de Machado de Assis
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
2 Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
3 bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
4 para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
6 Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
7 em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
8 – Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
9 Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
11 insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
12 separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
13 ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
14 Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
16 lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
17 quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
18 recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
19 Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
21 – Estou muito contente, disse ele.
22 – Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
23 O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
24 – Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
26 Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
27 experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
28 uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
29 Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
31 cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
32 exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
33 perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
34 especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
36 pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
37 boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
38 coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
39 – A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
41 Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
42 a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
43 nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
44 Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
46 divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
47 da matriz; – ou por meio de matraca.
48 Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
49 dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
51 incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
52 eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
53 inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
54 que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
56 aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
57 matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
58 cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
59 absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
61 – Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
62 insinuação do boticário.
63 E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
64 era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
66 Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
67 – Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
68 extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
69 razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
71 O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
72 chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
73 colossal que não merecia princípio de execução.
74 – Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
76 transpor a cerca?
77 Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
78 em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
79 entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
81 teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
82 revolução.
———
O soneto XIII de Via-Láctea, coleção publicada em 1888 no livro Poesias, é o texto mais famoso da antologia, obra de estreia do poeta Olavo Bilac. O texto, cuidadosamente ritmado, suas rimas e a escolha da forma fixa revelam rigor formal e estilístico caros ao movimento parnasiano; o tema do poema, no entanto, entra em colisão com o tema da literatura típica do movimento, tal como concebido no continente europeu.
Texto 2 — Soneto XIII (Via-Láctea), de Olavo Bilac
1 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
2 Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
3 Que, para ouvi-las, muita vez desperto
4 E abro as janelas, pálido de espanto…
5 E conversamos toda a noite, enquanto
6 A Via-láctea, como um pálio aberto,
7 Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
8 Inda as procuro pelo céu deserto.
9 Direis agora: "Tresloucado amigo!
10 Que conversas com elas? Que sentido
11 Tem o que dizem, quando estão contigo?"
12 E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
13 Pois só quem ama pode ter ouvido
14 Capaz de ouvir e de entender estrelas.”
———
Quanto aos textos apresentados, assinale a afirmativa que apresenta uma incorreção.
A)Os dois textos lidam com a oposição sanidade versus loucura.
B)Os dois textos pertencem ao mesmo movimento literário.
C)O Texto 1 elabora uma crítica ácida ao cientificismo e, por extensão, à psiquiatria da época, enquanto o Texto 2, embora faça uma apologia à capacidade de amar que pode ser julgada insanidade mental, o faz de forma descompromissada em relação à ciência e ao cientificismo em voga na literatura do século XIX.
D)Uma leitura possível do Texto 1 é a análise da relação entre o poder estabelecido e o saber técnico-científico, enquanto que o Texto 2 pode ser lido como uma singela ode ao amor.
E)A forma fechada do Texto 2 é representativa de um ideal de perfeição formal; o Texto 1 se debruça sobre a questão da vaidade e da manipulação da verdade.
IME20201a faseQuestao 2MatemáticaTeoria dos números (divisores)Dificil
O menor número natural ímpar que possui o mesmo número de divisores que 1800 está no intervalo:
A)[1,16000]
B)[16001,17000]
C)[17001,18000]
D)[18001,19000]
E)[19001,∞)
IME20201a faseQuestao 2PortuguêsInterpretação de textoDificil
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1 — O ALIENISTA (Capítulo IV — UMA TEORIA NOVA), de Machado de Assis
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
2 Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
3 bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
4 para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
6 Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
7 em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
8 – Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
9 Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
11 insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
12 separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
13 ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
14 Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
16 lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
17 quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
18 recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
19 Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
21 – Estou muito contente, disse ele.
22 – Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
23 O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
24 – Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
26 Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
27 experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
28 uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
29 Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
31 cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
32 exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
33 perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
34 especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
36 pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
37 boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
38 coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
39 – A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
41 Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
42 a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
43 nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
44 Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
46 divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
47 da matriz; – ou por meio de matraca.
48 Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
49 dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
51 incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
52 eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
53 inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
54 que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
56 aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
57 matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
58 cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
59 absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
61 – Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
62 insinuação do boticário.
63 E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
64 era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
66 Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
67 – Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
68 extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
69 razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
71 O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
72 chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
73 colossal que não merecia princípio de execução.
74 – Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
76 transpor a cerca?
77 Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
78 em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
79 entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
81 teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
82 revolução.
———
O soneto XIII de Via-Láctea, coleção publicada em 1888 no livro Poesias, é o texto mais famoso da antologia, obra de estreia do poeta Olavo Bilac. O texto, cuidadosamente ritmado, suas rimas e a escolha da forma fixa revelam rigor formal e estilístico caros ao movimento parnasiano; o tema do poema, no entanto, entra em colisão com o tema da literatura típica do movimento, tal como concebido no continente europeu.
Texto 2 — Soneto XIII (Via-Láctea), de Olavo Bilac
1 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
2 Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
3 Que, para ouvi-las, muita vez desperto
4 E abro as janelas, pálido de espanto…
5 E conversamos toda a noite, enquanto
6 A Via-láctea, como um pálio aberto,
7 Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
8 Inda as procuro pelo céu deserto.
9 Direis agora: "Tresloucado amigo!
10 Que conversas com elas? Que sentido
11 Tem o que dizem, quando estão contigo?"
12 E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
13 Pois só quem ama pode ter ouvido
14 Capaz de ouvir e de entender estrelas.”
———
Sobre os Textos 1 e 2, analise as afirmações abaixo:
I. Os dois textos abordam tipos de estados alterados de consciência que se contrapõem à experiência da vida cotidiana.
II. Ambos os textos fazem uma apologia à loucura, segundo a qual a condição de insanidade pode revelar as mazelas morais da sociedade e da cultura.
III. Ambos estabelecem a apologia da razão compreendida como a faculdade superior do homem.
IV. Os dois textos realizam uma crítica ao cientificismo que considera a possibilidade de estabelecer uma linha de fronteira entre a sanidade e a loucura.
Em relação às afirmações, está(ão) correta(s):
Considere os conjuntos A={0,1,2,3,4} e B={1,2,3,4,5,6,7,8,9,10}. Seja F o conjunto de funções cujo domínio é A e cujo contradomínio é B. Escolhendo-se ao acaso uma função f de F, a probabilidade de f ser estritamente crescente ou ser injetora é:
A)0,00252
B)0,00462
C)0,25200
D)0,30240
E)0,55440
IME20201a faseQuestao 3PortuguêsInterpretação de textoMedia
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1 — O ALIENISTA (Capítulo IV — UMA TEORIA NOVA), de Machado de Assis
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
2 Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
3 bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
4 para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
6 Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
7 em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
8 – Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
9 Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
11 insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
12 separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
13 ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
14 Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
16 lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
17 quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
18 recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
19 Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
21 – Estou muito contente, disse ele.
22 – Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
23 O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
24 – Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
26 Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
27 experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
28 uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
29 Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
31 cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
32 exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
33 perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
34 especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
36 pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
37 boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
38 coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
39 – A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
41 Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
42 a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
43 nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
44 Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
46 divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
47 da matriz; – ou por meio de matraca.
48 Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
49 dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
51 incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
52 eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
53 inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
54 que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
56 aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
57 matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
58 cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
59 absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
61 – Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
62 insinuação do boticário.
63 E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
64 era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
66 Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
67 – Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
68 extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
69 razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
71 O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
72 chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
73 colossal que não merecia princípio de execução.
74 – Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
76 transpor a cerca?
77 Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
78 em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
79 entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
81 teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
82 revolução.
———
Segundo o Dicionário Houaiss, bacamarte é uma "antiga arma de fogo de cano largo e capa campânula". A escolha do nome da personagem central da trama do conto O Alienista antecipa
A)a pressa por diagnosticar, causando confusão entre ciência e cientificismo; verdade e vaidade.
B)a dissociação entre política, psiquiatria e poder que se revela no desenrolar do texto.
C)o fato de que, em medicina, a prevenção é mais importante que a intervenção posterior à doença.
D)a preocupação do médico com o bem-estar de seus pacientes.
E)a preocupação do médico em manter a população de Itaguaí em segurança e estado de felicidade, já que os loucos representam um perigo para a sociedade.
IME20201a faseQuestao 4MatemáticaLogaritmos e funçõesDificil
Sabe-se que S=x+y+z, onde x, y e z são soluções inteiras do sistema abaixo.
⎩⎨⎧x=232y2y=e2ln(x)log2y+logxz=x+3
O valor de S é:
A)84
B)168
C)234
D)512
E)600
IME20201a faseQuestao 4PortuguêsPontuaçãoDificil
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1 — O ALIENISTA (Capítulo IV — UMA TEORIA NOVA), de Machado de Assis
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
2 Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
3 bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
4 para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
6 Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
7 em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
8 – Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
9 Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
11 insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
12 separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
13 ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
14 Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
16 lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
17 quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
18 recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
19 Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
21 – Estou muito contente, disse ele.
22 – Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
23 O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
24 – Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
26 Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
27 experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
28 uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
29 Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
31 cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
32 exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
33 perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
34 especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
36 pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
37 boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
38 coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
39 – A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
41 Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
42 a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
43 nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
44 Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
46 divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
47 da matriz; – ou por meio de matraca.
48 Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
49 dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
51 incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
52 eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
53 inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
54 que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
56 aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
57 matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
58 cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
59 absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
61 – Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
62 insinuação do boticário.
63 E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
64 era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
66 Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
67 – Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
68 extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
69 razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
71 O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
72 chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
73 colossal que não merecia princípio de execução.
74 – Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
76 transpor a cerca?
77 Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
78 em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
79 entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
81 teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
82 revolução.
———
Considere o trecho das linhas 24 a 28 do Texto 1 ("– Trata-se de coisa mais alta [...] começo a suspeitar que é um continente.") e, à luz da gramática normativa, as seguintes afirmações:
I. O travessão utilizado em "– Trata-se de coisa mais alta [...]" especifica a mudança de interlocutor no diálogo.
II. As vírgulas empregadas em "A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora [...]" podem ser substituídas por travessões, sem prejuízo para a correção.
III. No trecho "[...] nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante.", as vírgulas são empregadas com a finalidade de isolar o termo de valor explicativo.
Em relação às afirmações, está(ão) correta(s):
Seja A={z∈C∣2≤∣z−3−4i∣≤3}, onde C é o conjunto dos números complexos. O valor do produto entre o simétrico do complexo de menor módulo do conjunto A e o conjugado do complexo de maior módulo do mesmo conjunto A é:
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1 — O ALIENISTA (Capítulo IV — UMA TEORIA NOVA), de Machado de Assis
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
2 Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
3 bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
4 para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
6 Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
7 em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
8 – Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
9 Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
11 insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
12 separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
13 ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
14 Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
16 lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
17 quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
18 recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
19 Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
21 – Estou muito contente, disse ele.
22 – Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
23 O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
24 – Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
26 Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
27 experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
28 uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
29 Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
31 cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
32 exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
33 perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
34 especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
36 pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
37 boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
38 coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
39 – A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
41 Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
42 a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
43 nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
44 Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
46 divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
47 da matriz; – ou por meio de matraca.
48 Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
49 dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
51 incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
52 eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
53 inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
54 que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
56 aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
57 matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
58 cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
59 absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
61 – Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
62 insinuação do boticário.
63 E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
64 era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
66 Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
67 – Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
68 extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
69 razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
71 O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
72 chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
73 colossal que não merecia princípio de execução.
74 – Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
76 transpor a cerca?
77 Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
78 em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
79 entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
81 teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
82 revolução.
———
No trecho das linhas 12 a 15 ("Assim se explicam os monólogos [...] vil, miserável."), o monólogo é um discurso que a personagem dirige a si mesma. Considerando esse uso anafórico, o vocábulo "te" (em "quem te mandou consentir na viagem de Cesária?") faz referência ao(à)
A)Dr. Bacamarte.
B)leitor.
C)boticário.
D)D. Evarista.
E)Vigário Lopes.
IME20201a faseQuestao 6MatemáticaPolinômios e identidadesMedia
Um polinômio P(x) de grau maior que 3, quando dividido por x−2, x−3 e x−5, deixa restos 2, 3 e 5, respectivamente. O resto da divisão de P(x) por (x−2)(x−3)(x−5) é:
A)1
B)x
C)30
D)x−1
E)x−30
IME20201a faseQuestao 6PortuguêsInterpretação de textoDificil
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1 — O ALIENISTA (Capítulo IV — UMA TEORIA NOVA), de Machado de Assis
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
2 Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
3 bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
4 para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
6 Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
7 em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
8 – Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
9 Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
11 insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
12 separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
13 ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
14 Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
16 lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
17 quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
18 recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
19 Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
21 – Estou muito contente, disse ele.
22 – Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
23 O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
24 – Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
26 Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
27 experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
28 uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
29 Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
31 cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
32 exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
33 perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
34 especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
36 pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
37 boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
38 coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
39 – A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
41 Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
42 a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
43 nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
44 Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
46 divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
47 da matriz; – ou por meio de matraca.
48 Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
49 dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
51 incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
52 eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
53 inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
54 que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
56 aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
57 matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
58 cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
59 absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
61 – Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
62 insinuação do boticário.
63 E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
64 era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
66 Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
67 – Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
68 extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
69 razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
71 O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
72 chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
73 colossal que não merecia princípio de execução.
74 – Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
76 transpor a cerca?
77 Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
78 em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
79 entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
81 teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
82 revolução.
———
No Texto 1, o alienista Simão Bacamarte é descrito como um estudioso que disfarça, sob a aparência de humildade diante dos desafios do saber científico, a convicção da superioridade do cientista em relação às outras pessoas. Assinale o trecho que condiz com essa afirmativa.
A)"Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes." (linhas 3 e 4)
B)"Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante." (linhas 24 a 26)
C)"Depois explicou compridamente a sua ideia." (linhas 29 e 30)
D)"– A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério." (linha 39)
E)"Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso, em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias entranhas." (linhas 77 a 79)
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