Semântica · IME

Semântica: questões do IME

29 questões de Semântica (Português) no IME (2010–2024). Treine de graça com correção e comentário.

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Questões de Semântica no IME

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IME20241a faseQuestao 4PortuguêsSemânticaMedia
Texto 1 — O REGRESSO DE MATIMATI (Mia Couto / Terra Sonâmbula) Mia Couto é o pseudônimo de António Emílio Leite, nascido em Moçambique em 1955. Em muitas obras, Mia Couto reinventa a língua portuguesa por meio de um poderoso léxico poético, sob a influência dos falares das várias regiões do País, criando um novo modelo de narrativa africana, imbuído às vezes de uma cosmovisão mítica. Terra Sonâmbula, seu primeiro romance, publicado em 1992, conta as peripécias e provações do menino Muidinga e do velho Tuahir, que, fugindo da guerra civil após a descolonização de Moçambique, acham abrigo em um ônibus abandonado em uma estrada. Muidinga aí encontra os cadernos de Kindzu, cujos relatos estão relacionados ao passado do menino e da vida comunitária de Moçambique. O título da obra faz referência à instabilidade do País e, portanto, à falta de repouso e de paz de uma terra que permanece "sonâmbula". O REGRESSO DE MATIMATI 1 Farida me dera um gosto novo de viver. Até ali me distraíra nesse estar contente sem nenhuma felicidade. Depois de Farida me tornei encontrável, em mim visível. Muitas vezes me avisei do perigo desse amor. Nenhum de nós podia esperar muito: como ela, eu era apenas passageiro esquecido da qual viagem. Mas Farida me mandava calar, dedo sorrindo sobre os lábios. Eu temia sua inocência: ela estava desamparada, sem ninguém a 5 quem recorrer. Eu sentia o mesmo, mas de uma outra maneira. Talvez porque não tivesse um filho, não tivesse ninguém. Minha única posse era o medo. Sim, foi para escapar do medo que saíra de minha pequena vila. Porque esse sentimento já totalmente me ocupava: eu passeava com o medo na rua, dormia com o medo em casa. Quem vive no medo precisa um mundo pequeno, um mundo que pode controlar. Nosso mundo, meu e de Farida, tinha agora o tamanho de um navio. Para mim, aquele era apenas um passageiro momento. Para Farida, 10 aquilo era o imutável cumprir de um destino. Minha companheira comentava quase nada as realidades da vida corrente. Fantasiática, tudo para ela ocorria no além-visto. Só uma vez beliscou o assunto da guerra. Inquiria-me como se habitasse um outro país: — Essa guerra algum dia há de acabar? Acenei que sim. Mas meu coração se pequenou, constreitinho. Farida queria conhecer mais: saber o motivo 15 da guerra, a razão daquele desfile de infinitos lutos. Lembrei as palavras de Surendra: tinha que haver guerra, tinha que haver morte. E tudo era para quê? Para autorizar o roubo. Porque hoje nenhuma riqueza podia nascer do trabalho. Só o saque dava acesso às propriedades. Era preciso haver morte para que as leis fossem esquecidas. Agora que a desordem era total, tudo estava autorizado. Os culpados seriam sempre os outros. — Pode acabar no país, Kindzu. Mas para nós, dentro de nós essa guerra nunca mais vai terminar. 20 Farida não voltou a falar da guerra. Parecia não ter força para enfrentar as matanças distantes. Simples- mente parasse aquela discórdia dentro de si, aquela angústia que lhe tirava o sossego. Era só essa pequenina paz que ela sonhava. Quando, por fim, me despedi, ela me pediu: — Lá, em Matimati, nunca fale de meu nome. Eles me odeiam. Já em meu concho, remando para terra, surgia clara a razão do meu retorno à costa. Eu procurava apagar o 25 fogo que devorava aquela mulher. Nem sequer era generosidade. Precisava salvar Farida porque ela me salvava da miséria de existir pouco. Havia, por fim, um alguém que não estava metido no mesmo lodo em que todos chafundávamos, alguém que mantinha a esperança, louca que fosse. Farida, ao menos, tinha uma ilha com um inviável farol, um barco que viria de lá onde habitam os anjonautas. Ao avistar a praia de Matimati, comprovei como são nossos olhos que fazem o belo. Meu estado de paixão 30 puxava um novo lustro àquela terra em ruínas. Aquelas visões, dias antes, já tinham estado em meus olhos. Porém, agora tudo me parecia mais cheio de cores, em assembleia de belezas. Desembarquei sem conhecer por onde começar a busca. Desta vez não havia tanta gente na praia. A multidão se tinha dispersado. Seria por consequência da ameaça das autoridades? Fui subindo por um caminhozito descalço, um trilho tão estreito que mesmo duas serpentes não podiam namorar. A vila era menor do que parecia, suas casas estavam mais 35 inteiras que as da minha terra. Havia, no entanto, excessivos refugiados. Dormiam nas ruas, nos passeios. Por todo lado, se viam corpos estendidos, esteirados ao sol. Eu circulava por ali, divagante, devagaroso. Como começar para chegar ao filho de Farida? Procurar Irmã Lúcia? Não, ela pouco adiantaria. O menino saíra da Missão rumo aos matos. O melhor seria encontrar tia Euzinha, ela saberia das pistas que Gaspar rumara. Mas, Euzinha: onde seria seu atual paradeiro? Estaria 40 entre aqueles deslocados da vila? Ou resistira no campo, na sua casinha-natal? Resolvi não resolver nada, deixar que a resposta acontecesse sozinha. Restava-me um tempo. Farida prometera não abandonar o barco antes que eu trouxesse novidades de seu filho. Mesmo que viesse gente para resgatar o navio, mesmo assim ela aguardaria por mim. Trocamos jura contra jura. COUTO, Mia. Terra Sonâmbula. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 103-105 (texto adaptado). ——— "Eu sentia o mesmo, mas de uma outra maneira." (linha 5), os termos destacados do texto 1 estabelecem um par de:
  1. A)homônimos.
  2. B)parônimos.
  3. C)heterônimos.
  4. D)sinônimos.
  5. E)antônimos.
IME20241a faseQuestao 19PortuguêsSemânticaMedia
Texto 2 — OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO (Carlos Drummond de Andrade) Carlos Drummond de Andrade foi poeta, contista e cronista da chamada segunda geração do modernismo brasileiro. Os temas das suas obras são variados e profundos, incluindo questões existenciais tais como o amor e o sentido da vida e da morte. O poema "Os ombros suportam o mundo" foi publicado em 1940. OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO 1 Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. 5 E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. Ficaste sozinho, a luz apagou-se, 10 mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. És todo certeza, já não sabes sofrer. E nada esperas de teus amigos. Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo 15 e ele não pesa mais que a mão de uma criança. As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Alguns, achando bárbaro o espetáculo, 20 prefeririam (os delicados) morrer. Chegou um tempo em que não adianta morrer. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação. ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do mundo. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 51. ——— Sobre o excerto do texto 2: "Chegou um tempo em que não adianta morrer. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação." (linhas 21 a 23) O valor semântico do vocábulo sublinhado "mistificação" se aproxima de:
  1. A)atenuação
  2. B)enganação
  3. C)romantização
  4. D)idealização
  5. E)eufemização
IME20231a faseQuestao 2PortuguêsSemânticaFacil
Texto 1 Erico Verissimo (1905 – 1975), nascido em Cruz Alta (RS), foi um dos escritores mais populares da chamada segunda fase modernista, que começou na década de 1930. Sua obra mais conhecida é o “Tempo e o Vento”, uma trilogia de romances, na qual ele narra a história de um clã familiar, os Terra Cambarás, de 1745 até 1945, tendo como contexto a formação da fronteira nacional na região sul. O espaço central desses romances é a cidade fictícia de Santa Fé, situada no noroeste do Rio Grande do Sul. O texto “O Sobrado”, que integra o romance “O Continente”, versa sobre o chefe do clã, Licurgo Cambará, que resiste em casa ao cerco dos inimigos pertencentes ao clã oposto, dos Amaral. Na obra, é abordado um episódio da Revolução Federalista (1893 – 1895), uma guerra civil entre dois grupos de ideias opostas: um que desejava aumentar os poderes do presidente da República e outro que desejava uma maior autonomia aos estados. O SOBRADO Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado. Era tanto o silêncio e tão leve o ar, que se alguém aguçasse o ouvido talvez pudesse até escutar o sereno na solidão. Agachado atrás dum muro, José Lírio preparava-se para a última corrida. Quantos passos dali até a igreja? Talvez uns dez ou doze, bem puxados. Recebera ordens para revezar o companheiro que estava de vigia no alto duma das torres da Matriz. “Tenente Liroca”, dissera-lhe o coronel, havia poucos minutos, “suba pro alto do campanário e fique de olho firme no quintal do Sobrado. Se alguém aparecer pra tirar água do poço, faça fogo sem piedade.” José Lírio olhava a rua. Dez passos até a igreja. Mas quantos passos até a morte? Talvez cinco... ou dois. Havia um atirador infernal na água-furtada do Sobrado, à espreita dos imprudentes que se aventurassem a cruzar a praça ou alguma rua a descoberto. Os segundos passavam. Era preciso cumprir a ordem. Liroca não queria que ninguém percebesse que ele hesitava, que era um covarde. Sim, covarde. Podia enganar os outros, mas não conseguia iludir-se a si mesmo. Estava metido naquela revolução porque era federalista e tinha vergonha na cara. Mas não se habituava nunca ao perigo. Sentira medo desde o primeiro dia, desde a primeira hora — um medo que lhe vinha de baixo, das tripas, e lhe subia pelo estômago até a goela, como uma geada, amolecendo-lhe as pernas, os braços, a vontade. Medo é doença; medo é febre. Engraçado. A noite estava fria mas o suor escorria-lhe pela cara barbuda e entrava-lhe na boca, com gosto de salmoura. O tiroteio cessara ao entardecer. Talvez a munição da gente do Sobrado tivesse acabado. Ele podia atravessar a rua devagarinho, assobiando e acendendo um cigarro. Seria até uma provocação bonita. Vamos, Liroca, honra o lenço encarnado. Mas qual! Lá estava aquela sensação fria de vazio e enjoo na boca do estômago, o minuano gelado nos miúdos. Donde lhe vinha tanto medo? Decerto do sangue da mãe, pois as gentes do lado paterno eram corajosas. O avô de Liroca fora um bravo em 35. O pai lhe morrera naquela mesma revolução, havia pouco mais dum ano tombara estripado numa carga de lança, mas lutando até o último momento. “Lírio é macho”, murmurou Liroca para si mesmo. “Lírio é macho.” Sempre que ia entrar num combate, repetia estas palavras: “Lírio é macho”. Levantou-se devagarinho, apertando a carabina com ambas as mãos. Sentia o corpo dorido, a garganta seca. Tornou a olhar para a igreja. Dez passos. Podia percorrê-los nuns cinco segundos, quando muito. Era só um upa e estava tudo terminado. Fez avançar cautelosamente a cabeça e, com a quina do muro a tocar-lhe o meio da testa e a ponta do nariz, fechou o olho direito e com o esquerdo ficou espiando o Sobrado que lá estava, do outro lado da praça, com sua fachada branca, a dupla fileira de janelas, a sacada de ferro e os altos muros de fortaleza. Havia no casarão algo de terrivelmente humano que fez o coração de José Lírio pulsar com mais força. Os federalistas tinham tomado a cidade havia quase uma semana, mas Licurgo Cambará, o intendente e chefe político republicano do município, encastelara-se em sua casa com toda a família e um grupo de correligionários, e de lá ainda oferecia resistência. Enquanto o Sobrado não capitulasse, os revolucionários não poderiam considerar-se senhores de Santa Fé, pois os atiradores da água-furtada praticamente dominavam a praça e as ruas em derredor. Por alguns instantes José Lírio ficou a mirar a fachada do casarão, e de repente a lembrança de que Maria Valéria estava lá dentro lhe varou o peito como um pontaço de lança. Soltou um suspiro fundo e entrecortado, que foi quase um soluço. De novo se encolheu atrás do muro e tornou a olhar para a igreja. Se conseguisse chegar a salvo até a parede lateral, ficaria fora do alcance do atirador do Sobrado, e poderia entrar no campanário pela porta da sacristia. Vamos, Liroca, só uma corrida. Que te pode acontecer? O homem te enxerga, faz pontaria, atira e acerta. Uma bala na cabeça. Pronto! Cais de cara no chão e está tudo liquidado. Acaba-se a agonia. Dizem que quando a bala entra no corpo da gente, no primeiro momento não dói. Depois é que vem a ardência, como se ela fosse de ferro em brasa. Mas quando o ferimento é mortal não se sente nada. O pior é arma branca. Vamos, Liroca. Dez passos. Cinco segundos. Lírio é macho, Lírio é macho. José Lírio continuava imóvel, olhando a rua. Ainda ontem um companheiro seu ousara atravessar aquele trecho à luz do dia, num momento em que o tiroteio cessara. Ia cantando e fanfarronando. Viu-se de repente na água-furtada do sobrado um clarão acompanhado dum estampido, e o homem tombou. O sangue começou a borbotar-lhe do peito e a empapar a terra. “Vamos, menino!” Quem falava agora nos pensamentos de Liroca era seu pai, o velho Maneco Lírio. Sua voz áspera como lixa vinha de longe, de um certo dia da infância em que Liroca faltara à escola e ao chegar a casa encontrara o pai atrás da porta com um rebenque na mão. “Agora tu me pagas, salafrário!” Liroca saíra a correr como um doido na direção do fundo do quintal. “Espera, poltrão!” E de repente o que o velho Maneco tinha nas mãos não era mais o chicote, e sim as próprias vísceras, que lhe escorriam moles e visguentas da ferida do ventre. “Vamos, covarde!” De súbito, como tomado dum demônio, Liroca ergueu-se, apertou a carabina contra o peito e deitou a correr na direção da igreja. Seus passos soaram fofos na terra. Deu cinco passadas e a meio caminho, sem olhar para o Sobrado, numa voz frenética de quem pede socorro, gritou: “Pica-paus do inferno! Sou homem!”. Continuou a correr e, ao chegar ao ponto morto atrás da parede lateral da igreja, rojou-se ao solo e ali ficou, arquejante, com o peito colado à terra, o coração a bater acelerado, e sentindo entrar-lhe na boca e nas narinas talos de grama úmida de sereno. “A la fresca!”, murmurou ele. “A la fresca!” Estava inteiro, estava salvo. Fechou os olhos e deixou-se quedar onde estava, babujando a terra com sua saliva grossa, a garganta a arder, e o corpo todo amolentado por uma fraqueza que lhe dava um trêmulo desejo de chorar. VERISSIMO, Erico. O tempo e o vento, parte I: O Continente. 4ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 17-19 (texto adaptado). O texto 1 utiliza do repertório linguístico-cultural do Rio Grande do Sul, cujo sentido pode ser inferido por pessoas de outras regiões do país a partir dos conhecimentos prévios do leitor e do contexto de uso da palavra. Em vista disso, identifique o vocábulo que pode substituir a palavra “upa” (linha 31), sem prejuízo do texto:
  1. A)átimo
  2. B)bala
  3. C)projetil
  4. D)salto
  5. E)treco
IME20231a faseQuestao 19PortuguêsSemânticaMedia
Texto 2 PENSAR A CIBERGUERRA A ideia de ciberguerra tem sido questionada por alguns estudiosos, tanto militares quanto civis. Para Thomas Rid, por exemplo, não houve até o momento qualquer ciberataque que possa enquadrar na clássica definição de Clausewitz1 para o “ato de guerra”. Para o pensador prussiano, basicamente se pode classificar como ato de guerra algo relacionado a ações violentas. Além disso, o ato de guerra é sempre “instrumental”, isto é, através da violência física ou da ameaça do uso da força é possível impelir o inimigo a realizar aquilo que o atacante deseja. E ainda não se deve esquecer uma terceira característica do ato de guerra: o ataque deve ser algum tipo de ideia-noção ou intenção de meta política. Um dos problemas apresentados aqui é pensar aquilo que se entende por “violência”. Nesse caso, conforme Jarno Limnéll, estamos lidando com um conceito ambíguo, que agrega mais do que causas físicas ou a morte. A ciberguerra compõe parte daquilo que alguns chamam de “guerra não convencional”. A ocorrência de um incidente envolvendo ataques à rede de um determinado país logo desperta comparações com a vasta filmografia sobre “revoltas de computadores”, sobre os indomáveis hackers. Mas, ao contrário, talvez fosse interessante diminuir os excessos sobre o assunto e trazê-lo cuidadosamente para o lugar da história. O texto “Cyberwar is coming!”, de John Arquilla e David Ronfeldt, foi um dos primeiros a apontar a singularidade de novos modos de conflito. Publicado pela Rand Corporation, agência reconhecida por subsidiar o Departamento de Defesa norte-americano, o trabalho da dupla repercutiu ao apresentar a necessidade de pensar as tecnologias da informação como aspecto central nas novas estratégias militares. Arquilla e Ronfeldt destacam a necessidade de conhecer o campo inimigo, revelam inspiração nos mongóis do século XIII, afirmam a importância de considerar a relação histórica entre mudanças tecnológicas e novas formulações para as doutrinas militares. Anos depois, a mesma dupla de pesquisadores publicaria outro trabalho, procurando delimitar aquilo a que chamaram de netwar, a guerra em rede. Para eles, esse modo de conflito ganharia preponderância, haja vista que, para levar adiante uma ciberguerra, seria necessária uma quantidade maior de recursos financeiros e um repertório menor de artefatos a serem utilizados. A netwar seria típica de conflitos de baixa intensidade, sendo perceptível com maior nitidez nas ações de grupos como o Hamas e os zapatistas. Provavelmente, a diferença mais visível entre os dois tipos de conflito, ciberguerra e guerra em rede, possa ser observada no fato de que o primeiro exige o uso de ambientes cibernéticos, enquanto o segundo não. Sendo assim, as ciberguerras apresentam um maior potencial para serem empreendidas por agentes estatais, embora isso não seja uma regra. Os formatos em torno da ciberguerra também evidenciam a necessidade do uso das redes de computadores para que os resultados esperados sejam atingidos. Nye Jr. chama a atenção para a força que os conflitos cibernéticos ganharam neste século. O fato de possibilitarem a participação de agentes não estatais e a inserção cada vez mais profunda dos computadores e softwares na vida cotidiana somente reforça a necessidade de considerarmos os influxos desse tipo de ação. Evidentemente, acompanhar a ideia de que existe ciberguerra envolve a compreensão das semelhanças e diferenças em relação ao que classicamente consideramos uma guerra. Numa guerra do tipo clássico, o aspecto físico exerce papel fundamental. Deve-se levar em conta o preparo de tropas fisicamente saudáveis, habilidosas no manejo de armamentos e com a possibilidade de movimentação em diferentes terrenos. Em tal modalidade de guerra, os combates tendem a cessar a partir da exaustão das tropas ou por seu desgaste. Por um lado, os governos dispõem de um quase monopólio do uso da força em larga escala, e os defensores precisam conhecer muito bem o terreno de movimentação. Além disso, é preciso considerar que um combate desse tipo requer consideráveis recursos de manutenção, mobilidade e investimentos financeiros. Afinal de contas, deslocar tropas do Atlântico Norte para o Pacífico ou da América do Sul para a África exige tempo e considerável gasto com combustíveis, entre outros. Toda essa situação ganha contornos diferentes na ciberguerra. Nela podem atuar diversos atores, estatais e não estatais, identificados e anônimos. A distância física é quase irrelevante, o ataque se sobrepõe à defesa, já que a rede mundial de computadores não foi pensada como algo a ser necessariamente defendido. Outra característica está no fato de que a parte maior, e oficialmente mais poderosa, tem capacidade limitada para desarmar ou destruir o inimigo, ocupar o território ou usar efetivamente estratégias de força contrária. Em 2014, por exemplo, nos confrontos entre a Rússia e a Ucrânia, o sistema de comunicações via telefone celular ucraniano foi atacado. A companhia Ukrtelecom teve suas instalações invadidas por homens armados que danificaram cabos de fibra ótica, comprometendo seriamente o fornecimento do serviço. Por outro lado, grupos de hackers ucranianos, a exemplo do Cyber-Berkut, atacaram as páginas russas. O site da agência de comunicação estatal Russia Today foi invadido e nele a palavra “russos” foi substituída por “nazistas”. Justamente por suas características, trata-se de um conflito que mais frequentemente se desenvolve nas sombras, com certa discrição. Se há cibercomandos, eles são anunciados sempre como unidades de função defensiva, não de ataque. Ao mesmo tempo, é importante pensar que as intervenções cibernéticas podem servir como ato de abertura de uma guerra mais convencional. Dito de outro modo, um ataque cibernético pode ser o primeiro passo em uma ação maior. LEÃO, Kari; SILVA, Francisco. Por que a guerra?: Das batalhas gregas à ciberguerra - uma história da violência entre os homens. 1ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018, p. 469-472 (texto adaptado). 1 Carl Von Clausewitz (1790 – 1831) – foi um experiente militar prussiano, especialista em estratégias de batalhas e considerado um grande teórico devido às suas definições amplamente difundidas sobre a guerra. Leia o excerto do texto 2: “A ideia de ciberguerra tem sido questionada por alguns estudiosos [...]. Para o pensador prussiano, basicamente se pode classificar como ato de guerra algo relacionado a ações violentas. Além disso, o ato de guerra é sempre “instrumental”, isto é, através da violência física ou da ameaça do uso da força é possível impelir o inimigo a realizar aquilo que o atacante deseja. E ainda não se deve esquecer uma terceira característica do ato de guerra: o ataque deve ser algum tipo de “ideia-noção” ou intenção de meta política.” (linhas 1 a 7) Os termos que poderiam substituir os vocábulos em negrito, respectivamente, sem perda significativa de sentido, são (clássica; instrumental; intenção):
  1. A)exemplar; operacional; interno.
  2. B)secular; operativo; vontade.
  3. C)admirável; processual; utopia.
  4. D)célebre; acessório; desígnio.
  5. E)elegante; básico; convicção.
IME20221a faseQuestao 9PortuguêsSemânticaMedia
Texto 2 — ODE TRIUNFAL (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos) 1 À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica 2 Tenho febre e escrevo. 3 Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, 4 Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos. 5 Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! 6 Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! 7 Em fúria fora e dentro de mim, 8 Por todos os meus nervos dissecados fora, 9 Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! 10 Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, 11 De vos ouvir demasiadamente de perto, 12 E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso 13 De expressão de todas as minhas sensações, 14 Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas! 15 Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical — 16 Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força — 17 Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro, 18 Porque o presente é todo o passado e todo o futuro 19 E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas 20 Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão, 21 E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta, 22 Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem, 23 Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes, 24 Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando, 25 Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma. 26 Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! 27 Ser completo como uma máquina! 28 Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo! 29 Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, 30 Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento 31 A todos os perfumes de óleos e calores e carvões 32 Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável! 33 Fraternidade com todas as dinâmicas! 34 Promíscua fúria de ser parte-agente 35 Do rodar férreo e cosmopolita 36 Dos comboios estrênuos, 37 Da faina transportadora-de-cargas dos navios, 38 Do giro lúbrico e lento dos guindastes, 39 Do tumulto disciplinado das fábricas, 40 E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão! 41 Horas europeias, produtoras, entaladas 42 Entre maquinismos e afazeres úteis! 43 Grandes cidades paradas nos cafés, 44 Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas 45 Onde se cristalizam e se precipitam 46 Os rumores e os gestos do Útil 47 E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo! 48 Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares! 49 Novos entusiasmos de estatura do Momento! ——— Assinale a alternativa em que a substituição da palavra "ciciante" (texto 2, linha 40) acarretaria uma inversão de sentido:
  1. A)tonitruante.
  2. B)sussurrante.
  3. C)sibilante.
  4. D)discordante.
  5. E)dissonante.
IME20221a faseQuestao 12PortuguêsSemânticaDificil
Texto 1 — ENGENHEIROS DA VITÓRIA (Paul Kennedy) 1 [...] Quando se fala na eficiência em conseguir equipamentos de combate e transferir combatentes de A para 2 B, os britânicos são campeões; certamente isso não foi por causa de alguma inteligência especial, mas pela 3 ampla experiência em organização e senso crítico depois de enfrentar chances adversas em 1940, juntamente 4 com a perspectiva de derrota. Aqui a necessidade foi a mãe da invenção. Eles tinham que defender suas cidades, 5 transportar tropas até o Egito, apoiar os gregos, proteger as fronteiras da Índia, trazer os Estados Unidos para a 6 guerra e depois levar aquele imenso potencial americano para a área da Europa. Era mais um problema a ser 7 resolvido. Como foi possível fazer com que 2 milhões de soldados americanos, depois de chegar às bases de 8 Clyde, fossem para bases no sul da Inglaterra preparando-se para o ataque à Normandia, quando a maior parte 9 das ferrovias britânicas estava ocupada em transportar vagões de carvão para as fábricas de ferro e aço que 10 não podiam parar de produzir? 11 Como se viu, uma organização composta por pessoas que cresceram decorando os horários da estrada de 12 ferro de Bradshaw como passatempo pode fazer isso, enquanto os altos comandantes consideravam que tudo 13 estava garantido porque confiavam na capacidade de seus administradores de nível médio. Churchill acreditava 14 que o melhor era não se preocupar demais com os problemas, pois tudo se resolveria, isto é, uma maneira havia 15 de ser encontrada, passo a passo. 16 Há uma outra forma de pensar sobre essa história de soluções de problemas, e ela vem de um exemplo 17 bem contemporâneo. Em novembro de 2011, enquanto o genial líder da Apple, Steve Jobs, recebia inúmeras 18 homenagens póstumas, um artigo intrigante foi publicado na revista New Yorker. Nele o autor, Malcom Gladwell, 19 argumentava que Jobs não era o inventor de uma máquina ou de uma ideia que mudou o mundo; poucos 20 seres o são (exceto talvez Leonardo da Vinci e Thomas Edison). 21 Na verdade, seu brilhantismo estava em 22 adotar invenções alheias que não deram certo, a partir das quais construía, modificava e fazia aperfeiçoamentos 23 constantes. Para usar uma linguagem atual, ele era um tweaker, e sua genialidade impulsionou como nunca o 24 aumento de eficiência dos produtos de sua companhia. 25 A história do sucesso de Steve Jobs, contudo, não era nova. A chegada da Revolução Industrial do século 26 XVIII na Grã-Bretanha – muito provavelmente a maior revolução para explicar a ascensão do Ocidente – ocorreu 27 porque o país possuía uma imensa coleção de tweakers em sua cultura que encorajaram o progresso [... ] 28 A história da evolução do tanque T-34 soviético, de um grande pedaço de metal mal projetado e fraco para 29 uma arma de guerra mortífera, segura e de grande mobilidade, não foi uma história contínua de tweaking? Não 30 foi esse também o caso do grande bombardeiro americano, o B-29, que no início estava tão mergulhado em 31 dificuldades que chegou a se propor seu cancelamento até que as equipes da Boeing resolveram os problemas? 32 E as miraculosas histórias do P-51 Mustang, dos tanques de Percy Hobart e de um poderoso sistema de radar 33 tão pequeno que poderia ser inserido no nariz de um avião patrulha de longa distância e virar a maré na Batalha 34 do Atlântico? Depois que se unem os diversos pedaços espalhados, tudo se encaixa. Mas todos esses projetos 35 exigiram tempo e apoio. 36 Na verdade, os administradores de grandes companhias mundiais provavelmente se surpreendam diante, 37 digamos, do planejamento e orquestração do almirante Ramsay nos cincos desembarques simultâneos no Dia 38 D e gostariam de poder realizar um décimo do que ele fez. 39 Em suma, a vitória em grandes guerras sempre requer organização superior, o que, por sua vez, exige 40 pessoas que possam dirigir essas organizações, não com um interesse apenas moderado, mas da maneira 41 mais competente possível e com estilo que permitirá às pessoas de fora propor ideias novas na busca da vitória. 42 Os chefes não podem fazer isso tudo sozinhos, por mais que sejam criativos e dotados de energia. É necessário 43 haver um sistema de apoio, uma cultura de encorajamento, feedbacks eficientes, uma capacidade de aprender 44 com os revezes, uma habilidade de fazer as coisas acontecerem. E tudo isto tem de ser feito de uma maneira 45 que seja melhor do que aquela do inimigo. É assim que as guerras são vencidas. [... ] 46 O mesmo reconhecimento merecem, por certo, os militares de nível médio que mudaram a Segunda Guerra 47 Mundial, transformando as agressões do Eixo em 1942 em avanços irreversíveis dos Aliados em 1943-44, e 48 finalmente destruindo a Alemanha e o Japão. É verdade, alguns desses indivíduos, armamentos e organizações 49 são reconhecidos, mas em geral de uma forma fragmentada e popularizada. É raro que esses fios isolados sejam 50 tecidos em conjunto para mostrar como os avanços afetaram as muitas campanhas, fazendo a balança pender 51 para o lado dos Aliados durante o conflito global. Mais raro ainda é a compreensão de como o trabalho desses 52 vários solucionadores de problemas também precisa ser incluído numa importante “cultura do encorajamento” 53 para garantir que simples declarações e intenções estratégicas de grandes líderes se tornem realidade e não 54 murchem nas tempestades da guerra. Se isso é o que acontece, então vivemos com uma grande lacuna em 55 nossa compreensão de como a Segunda Guerra Mundial foi vencida em seus anos cruciais. ——— Texto 2 — ODE TRIUNFAL (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos) 1 À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica 2 Tenho febre e escrevo. 3 Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, 4 Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos. 5 Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! 6 Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! 7 Em fúria fora e dentro de mim, 8 Por todos os meus nervos dissecados fora, 9 Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! 10 Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, 11 De vos ouvir demasiadamente de perto, 12 E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso 13 De expressão de todas as minhas sensações, 14 Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas! 15 Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical — 16 Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força — 17 Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro, 18 Porque o presente é todo o passado e todo o futuro 19 E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas 20 Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão, 21 E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta, 22 Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem, 23 Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes, 24 Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando, 25 Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma. 26 Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! 27 Ser completo como uma máquina! 28 Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo! 29 Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, 30 Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento 31 A todos os perfumes de óleos e calores e carvões 32 Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável! 33 Fraternidade com todas as dinâmicas! 34 Promíscua fúria de ser parte-agente 35 Do rodar férreo e cosmopolita 36 Dos comboios estrênuos, 37 Da faina transportadora-de-cargas dos navios, 38 Do giro lúbrico e lento dos guindastes, 39 Do tumulto disciplinado das fábricas, 40 E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão! 41 Horas europeias, produtoras, entaladas 42 Entre maquinismos e afazeres úteis! 43 Grandes cidades paradas nos cafés, 44 Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas 45 Onde se cristalizam e se precipitam 46 Os rumores e os gestos do Útil 47 E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo! 48 Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares! 49 Novos entusiasmos de estatura do Momento! ——— Leia: "[...] quando a maior parte das ferrovias britânicas estava ocupada em transportar vagões de carvão para as fábricas de ferro e aço [...]" (Texto 1, linhas 8 e 9). "Dos comboios estrênuos," (Texto 2, linha 36). Nos excertos dos Textos 1 e 2, o par de palavras destacadas estabelece, respectivamente, as relações semânticas de:
  1. A)hiperonímia / hiponímia.
  2. B)homonímia / paronímia.
  3. C)hiperonímia / hiperonímia.
  4. D)paronímia / homonímia.
  5. E)hiponímia / hiperonímia.
IME20211a faseQuestao 4PortuguêsSemânticaFacil
Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões" aborda os acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados, para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa, gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical. Texto 1 CAPÍTULO 3 A GUERRA DAS CAATINGAS Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência, perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes — e formulam leis para a guerra, pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais — guerreiros de cujas mãos caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista — se ouvissem a alguém que às caatingas pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado a sua importância para a defesa do território — orlando as fronteiras e quebrando o embate às invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias —, se tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente, aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais opostos valores. Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis, ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu. E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível... As caatingas não o escondem apenas, amparam-no. Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas, nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas, prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados. É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos... De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro... A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas, outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem. Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras. E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita, pela frente agora, irrompendo de toda a banda... Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas... Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores invisíveis batendo em cheio nas fileiras. A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz; — e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. À força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas. Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o antagonismo formidável da caatinga. As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando, adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos... Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras... Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; — enquanto em torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem inflexivelmente os projetis do adversário. De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu. As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos... (...) A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória. Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo um seio carinhoso e amigo. (...) A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado fazendo vacilar a marcha dos exércitos. CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2º ed. São Paulo: Editora Ciranda Cultural, 2018. p. 181-186. 'Ouve-se uma voz de comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...' (Texto 1, linhas 37 e 38). O valor semântico do vocábulo 'estrugidoramente' no trecho acima se aproxima de:
  1. A)violentamente.
  2. B)ruidosamente.
  3. C)velozmente.
  4. D)certeiramente.
  5. E)mortalmente.
IME20211a faseQuestao 20PortuguêsSemânticaMedia
Texto 2 ESTADOS DE VIOLÊNCIA A guerra, na longa história dos homens, terá tido seus atores e suas cenas, seus heróis e seus espaços, seus personagens e seus teatros. Diversidade incrível das fardas, dos costumes, enfeites, armaduras, equipamentos. Multiplicidade dos terrenos: barro espesso ou poeira asfixiante, brejos viscosos, desfiladeiros rochosos, prados gordurentos ou planícies sombrias, colinas acidentadas, montanhas dentadas, muros grossos das cidades fortificadas, portões e fossos profundos. Sem mesmo falar das táticas de combate, da evolução técnica das armas. Mas o que malgrado tudo ficaria e basearia a distinção entre guerras maiores e menores, grandes e pequenas, verdadeiras e degradadas, era essa forma pura de dois exércitos engajando forças representando entidades políticas identificáveis, afrontando-se em batalhas decisivas, terrestres ou marítimas, que os colocavam em contato com seu princípio de encerramento: vitória ou derrota. É ainda possível essa forma pura de guerra, depois que as grandes e principais potências dispõem da arma absoluta (o fogo nuclear), depois ainda que um só possui uma superioridade arrasadora das forças clássicas de destruição, tecnologias de reconhecimento, técnicas de fundição de precisão, depois enfim que as democracias desenvolveram uma cultura de negociação, de arbitragem em que o recurso à força nua é dado como inadequado, selvagem, contraproducente? Imagina-se que no futuro ainda grandes potências mobilizem o conjunto de suas forças vivas para se medirem? Na trama visível, dilacerada das grandes guerras contemporâneas, reconhecem-se apenas a paisagem cultural da guerra, as nervuras de sua representação dominante. Não se veem mais, e tanto melhor, colunas de soldados em centenas de milhares chegando ao futuro campo de batalha, dispondo-se em ordem para a batalha decisiva. Não se espera mais com um entusiasmo ansioso a sanção das armas: duração da batalha, data da vitória ou da derrota (...) Os estados de violência fazem aparecer uma multiplicidade de figuras novas: o terrorista, o chefe de facções, o mercenário, o soldado profissional, o engenheiro de informática, o responsável da segurança etc. Não exército disciplinado, mas redes dispersas, concorrentes, profissionais da violência. Mudanças ainda no nível do teatro dos conflitos. Para a guerra: uma planície, espaços largos, às vezes colinas ou rios, em todo caso campanhas (para não levar em conta aqui guerras de cerco). E depois vem o espetáculo desolador após a batalha: os inimigos como que abraçados na morte, corpos juncando o solo, fardas rasgadas, manchas de sangue. Um grande silêncio depois de tantos gritos e de vaias. O novo teatro é hoje a cidade. Não a cidade fortificada, em torno da qual se entrincheira, mas a cidade viva dos transeuntes. A dos espaços públicos: mercados, garagens, terraços de café, metrôs... A das ruas que francos atiradores isolados transformam em teatro de feira para divertimentos atrozes (...) Tempos e espaços, personagens e cadáveres. Aqui se trata apenas do regime de imagens de violência armada que se acha transformado. A aposta filosófica seria dizer que acontece outra coisa, e não a guerra, que se poderia chamar provisoriamente de “estados de violência”, porque eles se oporiam ao que os clássicos tinham definido como “estado de guerra” e também como “estado de natureza” (...) Diante da inquietante extravagância desses conflitos dificilmente identificáveis ou codificáveis nos quadros da análise estratégica clássica, ouve-se mesmo: o pior estaria por vir. É preciso dizer que a polemologia (estudo da guerra) não reconhece mais seus filhos: nem seus chefes responsáveis, nem seus soldados dóceis, nem seus heróis esplêndidos, nem seus mortos no campo de honra. Chega-se mesmo a se queixar. Neste ponto, contudo, a nostalgia é dificilmente suportável. Sobretudo para lastimar guerras que às vezes nem mesmo foram vividas pessoalmente. Estas boas velhas guerras, com bons velhos inimigos, fomentadas por Estados, alegando “razões”, deve-se recordar que foram também o instrumento das mais baixas ambições, das mais loucas pretensões, dos mais sórdidos cálculos? Que elas acarretaram sem falhar o sacrifício de milhões de homens que não pediam senão para viver, que elas esgotaram precocemente civilizações desenvolvidas, conduziram culturas prestigiosas ao suicídio? Resta, além de um pensamento nostálgico, compreender o que causa os estados atuais de violência. Então, antes que falar da “nova guerra”, de “guerra selvagem”, “guerra sem a guerra”, de “guerra sem fim”, de “guerra assimétrica”, de “guerra civil generalizada”, de “guerra ruiva”, é preciso elucidar, em lugar do jogo antigo da guerra e da paz, as estruturações destes estados de violência (...) Como a filosofia clássica tinha conceituado o estado de guerra e de natureza, seria preciso esboçar a análise filosófica dos estados de violência, como distribuição contemporânea das forças de destruição. GROS, Frédéric. Estados de violência: ensaio sobre o fim da guerra. Tradução de José Augusto da Silva. Aparecida, SP: Editora Ideias & Letras, 2009. p. 227-232 (texto adaptado). Considere os vocábulos do Texto 2 destacados no trecho a seguir: 'Os estados de violência fazem aparecer uma multiplicidade de figuras novas: o terrorista, o chefe de facções, o mercenário, o soldado profissional, o engenheiro de informática, o responsável da segurança etc. Não exército disciplinado, mas redes dispersas, concorrentes, profissionais da violência. Mudanças ainda no nível do teatro dos conflitos. Para a guerra: uma planície, espaços largos, às vezes colinas ou rios, em todo caso campanhas (para não levar em conta aqui guerras de cerco). E depois vem o espetáculo desolador após a batalha: os inimigos como que abraçados na morte, corpos juncando o solo, fardas rasgadas, manchas de sangue. Um grande silêncio depois de tantos gritos e de vaias. O novo teatro é hoje a cidade.' (linhas 22 a 30). A análise desses elementos em negrito nos mostra que o operador:
  1. A)'não' reforça a ideia de que as figuras novas incluem o exército disciplinado.
  2. B)'mas' coloca o exército disciplinado em oposição às redes dispersas da violência.
  3. C)'ainda' sugere a existência de outros aspectos relacionados aos estados de violência.
  4. D)'às vezes' introduz a ideia de oposição entre os antigos cenários da guerra.
  5. E)'hoje' estabelece a relação de similitude entre a guerra do passado e os estados de violência.
IME20201a faseQuestao 7PortuguêsSemânticaMedia
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se. Texto 1 — O ALIENISTA (Capítulo IV — UMA TEORIA NOVA), de Machado de Assis 1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão 2 Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as 3 bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco 4 para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e 5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos. 6 Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado 7 em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar. 8 – Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador. 9 Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da 10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto 11 insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram 12 separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe 13 ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária? 14 Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda; 15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o 16 lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros, 17 quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o 18 recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde. 19 Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada 20 de circunspeção até o pescoço. 21 – Estou muito contente, disse ele. 22 – Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula. 23 O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu: 24 – Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, 25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr. 26 Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma 27 experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora 28 uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente. 29 Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou 30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de 31 cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os 32 exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o 33 perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com 34 especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um 35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e 36 pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o 37 boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma 38 coisa, e até acrescentou sentenciosamente: 39 – A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério. 40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu. 41 Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas 42 a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um 43 nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”. 44 Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as 45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de 46 divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e 47 da matriz; – ou por meio de matraca. 48 Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais 49 dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão. 50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe 51 incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo 52 eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha 53 inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação 54 que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à 55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e 56 aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a 57 matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto 58 cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à 59 absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime 60 mereciam o desprezo do nosso século. 61 – Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à 62 insinuação do boticário. 63 E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que 64 era melhor começar pela execução. 65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele. 66 Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse: 67 – Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso 68 extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da 69 razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, 70 insânia e só insânia. 71 O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não 72 chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo 73 colossal que não merecia princípio de execução. 74 – Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão 75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que 76 transpor a cerca? 77 Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso, 78 em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias 79 entranhas. 80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a 81 teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma 82 revolução. ——— O vocábulo "comiseração" (Texto 1, linha 78) se aproxima semanticamente de
  1. A)brandura.
  2. B)entusiasmo.
  3. C)indulgência.
  4. D)indiferença.
  5. E)solidariedade.
IME20201a faseQuestao 19PortuguêsSemânticaFacil
O soneto XIII de Via-Láctea, coleção publicada em 1888 no livro Poesias, é o texto mais famoso da antologia, obra de estreia do poeta Olavo Bilac. O texto, cuidadosamente ritmado, suas rimas e a escolha da forma fixa revelam rigor formal e estilístico caros ao movimento parnasiano; o tema do poema, no entanto, entra em colisão com o tema da literatura típica do movimento, tal como concebido no continente europeu. Texto 2 — Soneto XIII (Via-Láctea), de Olavo Bilac 1 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo 2 Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto, 3 Que, para ouvi-las, muita vez desperto 4 E abro as janelas, pálido de espanto… 5 E conversamos toda a noite, enquanto 6 A Via-láctea, como um pálio aberto, 7 Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, 8 Inda as procuro pelo céu deserto. 9 Direis agora: "Tresloucado amigo! 10 Que conversas com elas? Que sentido 11 Tem o que dizem, quando estão contigo?" 12 E eu vos direi: "Amai para entendê-las! 13 Pois só quem ama pode ter ouvido 14 Capaz de ouvir e de entender estrelas.” ——— O vocábulo afim ao campo semântico da palavra "espanto", empregada em "E abro as janelas, pálido de espanto…" (Texto 2, verso 4), é
  1. A)desequilíbrio.
  2. B)tristeza.
  3. C)euforia.
  4. D)admiração.
  5. E)distração.
IME20191a faseQuestao 7PortuguêsSemânticaMedia
Leia o Texto 1 (poema de Cora Coralina), reproduzido na imagem, para responder à questão. O valor semântico do vocábulo “errado”, exaltado pela autora no texto 1 em “Amo e canto com ternura / todo o errado da minha terra.” (versos 29 e 30), não se aplica a
Imagens anexadas
  1. A)paisagem triste (verso 2).
  2. B)sandália velha (verso 7).
  3. C)velho cano (verso 12).
  4. D)Baile Sifilítico (verso 77).
  5. E)irmão vicentino (verso 98).
IME20191a faseQuestao 8PortuguêsSemânticaMedia
Leia o Texto 1 (poema de Cora Coralina), reproduzido na imagem, para responder à questão. O vocábulo estranho ao campo morfossemântico da palavra “hética” (texto 1, verso 58) é
Imagens anexadas
  1. A)magra.
  2. B)consumida.
  3. C)confinada.
  4. D)franzina.
  5. E)definhada.
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