Texto 1 — CANÇÃO DO EXPEDICIONÁRIO
1 Você sabe de onde eu venho?
2 Venho do morro, do Engenho,
3 Das selvas, dos cafezais,
4 Da boa terra do coco,
5 Da choupana onde um é pouco,
6 Dois é bom, três é demais,
7 Venho das praias sedosas,
8 Das montanhas alterosas,
9 Dos pampas, do seringal,
10 Das margens crespas dos rios,
11 Dos verdes mares bravios
12 Da minha terra natal.
13 Por mais terras que eu percorra,
14 Não permita Deus que eu morra
15 Sem que volte para lá;
16 Sem que leve por divisa
17 Esse "V" que simboliza
18 A vitória que virá:
19 Nossa vitória final,
20 Que é a mira do meu fuzil,
21 A ração do meu bornal,
22 A água do meu cantil,
23 As asas do meu ideal,
24 A glória do meu Brasil.
25 Eu venho da minha terra,
26 Da casa branca da serra
27 E do luar do meu sertão;
28 Venho da minha Maria
29 Cujo nome principia
30 Na palma da minha mão,
31 Braços mornos de Moema,
32 Lábios de mel de Iracema
33 Estendidos para mim.
34 Ó minha terra querida
35 Da Senhora Aparecida
36 E do Senhor do Bonfim!
37 Você sabe de onde eu venho?
38 É de uma Pátria que tenho
39 No bojo do meu violão;
40 Que de viver em meu peito
41 Foi até tomando jeito
42 De um enorme coração.
43 Deixei lá atrás meu terreno,
44 Meu limão, meu limoeiro,
45 Meu pé de jacarandá,
46 Minha casa pequenina
47 Lá no alto da colina,
48 Onde canta o sabiá.
49 Venho do além desse monte
50 Que ainda azula o horizonte,
51 Onde o nosso amor nasceu;
52 Do rancho que tinha ao lado
53 Um coqueiro que, coitado,
54 De saudade já morreu.
55 Venho do verde mais belo,
56 Do mais dourado amarelo,
57 Do azul mais cheio de luz,
58 Cheio de estrelas prateadas,
59 Que se ajoelham deslumbradas,
60 Fazendo o sinal da Cruz!
61 Por mais terras que eu percorra,
62 Não permita Deus que eu morra
63 Sem que volte para lá;
64 Sem que leve por divisa
65 Esse "V" que simboliza
66 A vitória que virá:
67 Nossa vitória final,
68 Que é a mira do meu fuzil,
69 A ração do meu bornal,
70 A água do meu cantil,
71 As asas do meu ideal,
72 A glória do meu Brasil.
(Guilherme de Almeida. Disponível em museuvirtualdafeb.eb.mil.br/cancao-expedicionario. Texto adaptado.)
———
A "Canção do Exílio" é considerada o poema-símbolo do Romantismo brasileiro, e algumas das características mais marcantes desse movimento. Tanto neste poema quanto na "Canção do Expedicionário" há referência à "terra natal": no entanto, as aspirações e as razões para o retorno à pátria de origem são distintas. Leia o excerto do texto seguinte:
"Não permita Deus que eu morra
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá."
("Canção do Exílio", de Gonçalves Dias)
e o excerto do texto 1 (linhas 14 a 24).
Marque a alternativa que melhor apresenta o par de motivações do eu lírico de cada poema, respectivamente, como:
A)Integração com a natureza / O triunfo bélico
B)Resgate das origens / Comemoração dos próprios feitos
C)Reencontro com a família / O triunfo bélico
D)Divulgação das belezas naturais / Reconhecimento das origens simples
E)Integração com a natureza / Reencontro com a mulher amada
Texto 1 — CANÇÃO DO EXPEDICIONÁRIO
1 Você sabe de onde eu venho?
2 Venho do morro, do Engenho,
3 Das selvas, dos cafezais,
4 Da boa terra do coco,
5 Da choupana onde um é pouco,
6 Dois é bom, três é demais,
7 Venho das praias sedosas,
8 Das montanhas alterosas,
9 Dos pampas, do seringal,
10 Das margens crespas dos rios,
11 Dos verdes mares bravios
12 Da minha terra natal.
13 Por mais terras que eu percorra,
14 Não permita Deus que eu morra
15 Sem que volte para lá;
16 Sem que leve por divisa
17 Esse "V" que simboliza
18 A vitória que virá:
19 Nossa vitória final,
20 Que é a mira do meu fuzil,
21 A ração do meu bornal,
22 A água do meu cantil,
23 As asas do meu ideal,
24 A glória do meu Brasil.
25 Eu venho da minha terra,
26 Da casa branca da serra
27 E do luar do meu sertão;
28 Venho da minha Maria
29 Cujo nome principia
30 Na palma da minha mão,
31 Braços mornos de Moema,
32 Lábios de mel de Iracema
33 Estendidos para mim.
34 Ó minha terra querida
35 Da Senhora Aparecida
36 E do Senhor do Bonfim!
37 Você sabe de onde eu venho?
38 É de uma Pátria que tenho
39 No bojo do meu violão;
40 Que de viver em meu peito
41 Foi até tomando jeito
42 De um enorme coração.
43 Deixei lá atrás meu terreno,
44 Meu limão, meu limoeiro,
45 Meu pé de jacarandá,
46 Minha casa pequenina
47 Lá no alto da colina,
48 Onde canta o sabiá.
49 Venho do além desse monte
50 Que ainda azula o horizonte,
51 Onde o nosso amor nasceu;
52 Do rancho que tinha ao lado
53 Um coqueiro que, coitado,
54 De saudade já morreu.
55 Venho do verde mais belo,
56 Do mais dourado amarelo,
57 Do azul mais cheio de luz,
58 Cheio de estrelas prateadas,
59 Que se ajoelham deslumbradas,
60 Fazendo o sinal da Cruz!
61 Por mais terras que eu percorra,
62 Não permita Deus que eu morra
63 Sem que volte para lá;
64 Sem que leve por divisa
65 Esse "V" que simboliza
66 A vitória que virá:
67 Nossa vitória final,
68 Que é a mira do meu fuzil,
69 A ração do meu bornal,
70 A água do meu cantil,
71 As asas do meu ideal,
72 A glória do meu Brasil.
(Guilherme de Almeida. Disponível em museuvirtualdafeb.eb.mil.br/cancao-expedicionario. Texto adaptado.)
———
"As relações intertextuais estabelecidas por copresença são aquelas em que é possível perceber, por meio de distintos níveis de evidência, a presença de fragmentos de textos previamente produzidos, os quais são encontrados em outros textos. (...) A referência diz respeito ao processo de remissão a outro texto sem, necessariamente, haver citação de um trecho. A remissão pode realizar-se, por exemplo, por meio da nomeação do autor do intertexto, do título da obra, de personagens de obras literárias etc." (CAVALCANTE, Mônica Magalhães. Os sentidos do texto.)
Quanto ao texto 1, considere as seguintes afirmações:
I. Inspirado na "Canção do Exílio", o texto 1 constrói uma paráfrase da obra de Gonçalves Dias, expoente da Primeira Geração do Romantismo, marcada por exaltar o sentimento patriótico e o ideal nacionalista.
II. No verso "Lábios de mel de Iracema" (linha 32), ocorre uma referência direta ao Romantismo Brasileiro que integrou a vertente indianista do movimento idealizando o indígena como símbolo da identidade nacional.
III. A presença de fragmentos como a clareza do propósito e a beleza idealizada da terra natal revela o objetivismo e o bucolismo explorados na "Canção do Expedicionário", traços marcantes do Romantismo.
Está(ão) CORRETA(S) apenas a(s) assertiva(s):
Texto 1 — O REGRESSO DE MATIMATI (Mia Couto / Terra Sonâmbula)
Mia Couto é o pseudônimo de António Emílio Leite, nascido em Moçambique em 1955. Em muitas obras, Mia Couto reinventa a língua portuguesa por meio de um poderoso léxico poético, sob a influência dos falares das várias regiões do País, criando um novo modelo de narrativa africana, imbuído às vezes de uma cosmovisão mítica. Terra Sonâmbula, seu primeiro romance, publicado em 1992, conta as peripécias e provações do menino Muidinga e do velho Tuahir, que, fugindo da guerra civil após a descolonização de Moçambique, acham abrigo em um ônibus abandonado em uma estrada. Muidinga aí encontra os cadernos de Kindzu, cujos relatos estão relacionados ao passado do menino e da vida comunitária de Moçambique. O título da obra faz referência à instabilidade do País e, portanto, à falta de repouso e de paz de uma terra que permanece "sonâmbula".
O REGRESSO DE MATIMATI
1 Farida me dera um gosto novo de viver. Até ali me distraíra nesse estar contente sem nenhuma felicidade.
Depois de Farida me tornei encontrável, em mim visível. Muitas vezes me avisei do perigo desse amor. Nenhum
de nós podia esperar muito: como ela, eu era apenas passageiro esquecido da qual viagem. Mas Farida me
mandava calar, dedo sorrindo sobre os lábios. Eu temia sua inocência: ela estava desamparada, sem ninguém a
5 quem recorrer. Eu sentia o mesmo, mas de uma outra maneira. Talvez porque não tivesse um filho, não tivesse
ninguém. Minha única posse era o medo. Sim, foi para escapar do medo que saíra de minha pequena vila.
Porque esse sentimento já totalmente me ocupava: eu passeava com o medo na rua, dormia com o medo em
casa. Quem vive no medo precisa um mundo pequeno, um mundo que pode controlar. Nosso mundo, meu e de
Farida, tinha agora o tamanho de um navio. Para mim, aquele era apenas um passageiro momento. Para Farida,
10 aquilo era o imutável cumprir de um destino.
Minha companheira comentava quase nada as realidades da vida corrente. Fantasiática, tudo para ela
ocorria no além-visto. Só uma vez beliscou o assunto da guerra. Inquiria-me como se habitasse um outro país:
— Essa guerra algum dia há de acabar?
Acenei que sim. Mas meu coração se pequenou, constreitinho. Farida queria conhecer mais: saber o motivo
15 da guerra, a razão daquele desfile de infinitos lutos. Lembrei as palavras de Surendra: tinha que haver guerra,
tinha que haver morte. E tudo era para quê? Para autorizar o roubo. Porque hoje nenhuma riqueza podia
nascer do trabalho. Só o saque dava acesso às propriedades. Era preciso haver morte para que as leis fossem
esquecidas. Agora que a desordem era total, tudo estava autorizado. Os culpados seriam sempre os outros.
— Pode acabar no país, Kindzu. Mas para nós, dentro de nós essa guerra nunca mais vai terminar.
20 Farida não voltou a falar da guerra. Parecia não ter força para enfrentar as matanças distantes. Simples-
mente parasse aquela discórdia dentro de si, aquela angústia que lhe tirava o sossego. Era só essa pequenina
paz que ela sonhava. Quando, por fim, me despedi, ela me pediu:
— Lá, em Matimati, nunca fale de meu nome. Eles me odeiam.
Já em meu concho, remando para terra, surgia clara a razão do meu retorno à costa. Eu procurava apagar o
25 fogo que devorava aquela mulher. Nem sequer era generosidade. Precisava salvar Farida porque ela me salvava
da miséria de existir pouco. Havia, por fim, um alguém que não estava metido no mesmo lodo em que todos
chafundávamos, alguém que mantinha a esperança, louca que fosse. Farida, ao menos, tinha uma ilha com um
inviável farol, um barco que viria de lá onde habitam os anjonautas.
Ao avistar a praia de Matimati, comprovei como são nossos olhos que fazem o belo. Meu estado de paixão
30 puxava um novo lustro àquela terra em ruínas. Aquelas visões, dias antes, já tinham estado em meus olhos.
Porém, agora tudo me parecia mais cheio de cores, em assembleia de belezas. Desembarquei sem conhecer
por onde começar a busca. Desta vez não havia tanta gente na praia. A multidão se tinha dispersado. Seria
por consequência da ameaça das autoridades? Fui subindo por um caminhozito descalço, um trilho tão estreito
que mesmo duas serpentes não podiam namorar. A vila era menor do que parecia, suas casas estavam mais
35 inteiras que as da minha terra. Havia, no entanto, excessivos refugiados. Dormiam nas ruas, nos passeios. Por
todo lado, se viam corpos estendidos, esteirados ao sol.
Eu circulava por ali, divagante, devagaroso. Como começar para chegar ao filho de Farida? Procurar Irmã
Lúcia? Não, ela pouco adiantaria. O menino saíra da Missão rumo aos matos. O melhor seria encontrar tia
Euzinha, ela saberia das pistas que Gaspar rumara. Mas, Euzinha: onde seria seu atual paradeiro? Estaria
40 entre aqueles deslocados da vila? Ou resistira no campo, na sua casinha-natal? Resolvi não resolver nada,
deixar que a resposta acontecesse sozinha. Restava-me um tempo. Farida prometera não abandonar o barco
antes que eu trouxesse novidades de seu filho. Mesmo que viesse gente para resgatar o navio, mesmo assim
ela aguardaria por mim. Trocamos jura contra jura.
COUTO, Mia. Terra Sonâmbula. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 103-105 (texto adaptado).
———
Texto 2 — OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO (Carlos Drummond de Andrade)
Carlos Drummond de Andrade foi poeta, contista e cronista da chamada segunda geração do modernismo brasileiro. Os temas das suas obras são variados e profundos, incluindo questões existenciais tais como o amor e o sentido da vida e da morte. O poema "Os ombros suportam o mundo" foi publicado em 1940.
OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO
1 Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
5 E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
10 mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
15 e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
20 prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do mundo. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 51.
———
Quanto ao texto 1 e 2 apresentados, considere as seguintes assertivas:
I. O texto 1 é modernista em razão do uso objetivo e conciso da linguagem, empregando diversos recursos conotativos, sob a influência da prosa neorrealista.
II. O texto 2 mostra um eu lírico marcado pela interrogação existencial e filosófica sobre as grandes questões de seu tempo, a par de estruturas métricas fundadas na tradição parnasiana.
III. O texto 1 provém de uma obra pujante ancorada na fábula e no mito moçambicano, transfigurando as realidades traumáticas da guerra por meio do realismo mágico.
Está(ão) correta(s) apenas a(s) assertiva(s):
Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo
jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar
da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões" aborda os
acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular
messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura
obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo
autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra
canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se
caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados,
para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa,
gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.
Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS
Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes — e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais — guerreiros de cujas mãos
caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista — se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território — orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias —, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
— e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. À
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; — enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.
CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2º ed. São Paulo: Editora Ciranda
Cultural, 2018. p. 181-186.
Considere as assertivas a seguir:
I. Na obra euclidiana, integram-se o esmero da linguagem, a idealização romântica do sertanejo e o propósito jornalístico de coberta do conflito.
II. Utilizando uma linguagem oriunda das ciências humanas, físicas e naturais, a obra retrata um 'Brasil profundo', desconhecido pela civilização do litoral, em suas misérias e grandezas.
III. Na obra, mesclam-se a fidelidade à apresentação física da sociedade e da cultura sertaneja, apesar do embaraço de uma visão determinista da Guerra de Canudos, em conformidade com o pensamento positivista da época.
Está(ão) correta(s) a(s) assertiva(s):
Texto 2 — O HOMEM: AS VIAGENS (Carlos Drummond de Andrade)
1 O homem, bicho da Terra tão pequeno
2 chateia-se na Terra
3 lugar de muita miséria e pouca diversão,
4 faz um foguete, uma cápsula, um módulo
5 toca para a Lua
6 desce cauteloso na Lua
7 pisa na Lua
8 planta bandeirola na Lua
9 experimenta a Lua
10 coloniza a Lua
11 civiliza a Lua
12 humaniza a Lua
13 Lua humanizada: tão igual à Terra.
14 O homem chateia-se na Lua.
15 Vamos para Marte – ordena a suas máquinas.
16 Elas obedecem, o homem desce em Marte
17 pisa em Marte
18 experimenta
19 coloniza
20 civiliza
21 humaniza Marte com engenho e arte.
22 Marte humanizado, que lugar quadrado.
23 Vamos a outra parte?
24 Claro – diz o engenho
25 sofisticado e dócil.
26 Vamos a Vênus.
27 O homem põe o pé em Vênus,
28 vê o visto – é isto?
29 idem
30 idem
31 idem.
32 O homem funde a cuca se não for a Júpiter
33 proclamar justiça junto com injustiça
34 repetir a fossa
35 repetir o inquieto
36 repetitório.
37 Outros planetas restam para outras colônias.
38 O espaço todo vira Terra-a-terra.
39 O homem chega ao Sol ou dá uma volta
40 só para tever?
41 Não-vê que ele inventa
42 roupa insiderável de viver no Sol.
43 Põe o pé e:
44 mas que chato é o Sol, falso touro
45 espanhol domado.
46 Restam outros sistemas fora
47 do solar a colonizar.
48 Ao acabarem todos
49 só resta ao homem
50 (estará equipado?)
51 a dificílima dangerosíssima viagem
52 de si a si mesmo:
53 pôr o pé no chão
54 do seu coração
55 experimentar
56 colonizar
57 civilizar
58 humanizar
59 o homem
60 descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
61 a perene, insuspeitada alegria
62 de con-viver.
———
Texto 3 — OS LUSÍADAS, Canto Primeiro (Luís de Camões)
1 As armas e os barões assinalados,
2 Que da ocidental praia Lusitana,
3 Por mares nunca de antes navegados,
4 Passaram ainda além da Taprobana,
5 Em perigos e guerras esforçados,
6 Mais do que prometia a força humana,
7 E entre gente remota edificaram
8 Novo Reino, que tanto sublimaram;
9 E também as memórias gloriosas
10 Daqueles Reis, que foram dilatando
11 A Fé, o Império, e as terras viciosas
12 De África e de Ásia andaram devastando;
13 E aqueles, que por obras valerosas
14 Se vão da lei da morte libertando;
15 Cantando espalharei por toda parte,
16 Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
17 Cessem do sábio Grego e do Troiano
18 As navegações grandes que fizeram;
19 Cale-se de Alexandro e de Trajano
20 A fama das vitórias que tiveram;
21 Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
22 A quem Neptuno e Marte obedeceram:
23 Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
24 Que outro valor mais alto se alevanta.
(…)
25 No mar tanta tormenta e tanto dano
26 Tantas vezes a morte apercebida
27 Na terra tanta guerra, tanto engano,
28 Tanta necessidade aborrecida
29 Onde pode acolher-se um fraco humano
30 Onde terá segura a curta vida,
31 Que não se arme e se indigne o céu sereno
32 Contra um bicho da terra tão pequeno?
———
A transtextualidade (intertextualidade) é o processo pelo qual o enunciador constrói seu texto mediante a incorporação ou transformação de outro texto; a alusão consiste em evocar um texto anterior para produzir um efeito de sentido legitimado por ele, sendo percebida apenas se o texto evocado faz parte da cultura do interlocutor. Atente para as seguintes assertivas na comparação dos Textos 2 e 3.
I. Há uma relação explícita entre o primeiro verso do poema de Drummond e o último verso do Canto I de Os Lusíadas, de Camões, apresentados nesta prova.
II. O verso camoniano “Tanta necessidade aborrecida” pode ser visto como um desencadeador da descrição drummondiana do tédio do homem face a suas conquistas que não o levam à resolução de problemas mais imediatos como a fome, a desigualdade e as injustiças, também evocadas por Camões nos versos iniciais da estrofe 106 de Os Lusíadas.
III. O texto brasileiro alude diretamente ao texto português no uso da expressão “engenho e arte”, recorrendo, inclusive, à mesma parceria rítmica (parte/arte).
IV. Enquanto em Camões a humanização reivindicada refere-se a uma europeização do espaço terrestre, no poema de Drummond a humanização é interplanetária, o que se verifica inclusive pelo uso da maiúscula na palavra Terra no primeiro verso de seu poema.
São marcas de alusão
Texto 2 — O HOMEM: AS VIAGENS (Carlos Drummond de Andrade)
1 O homem, bicho da Terra tão pequeno
2 chateia-se na Terra
3 lugar de muita miséria e pouca diversão,
4 faz um foguete, uma cápsula, um módulo
5 toca para a Lua
6 desce cauteloso na Lua
7 pisa na Lua
8 planta bandeirola na Lua
9 experimenta a Lua
10 coloniza a Lua
11 civiliza a Lua
12 humaniza a Lua
13 Lua humanizada: tão igual à Terra.
14 O homem chateia-se na Lua.
15 Vamos para Marte – ordena a suas máquinas.
16 Elas obedecem, o homem desce em Marte
17 pisa em Marte
18 experimenta
19 coloniza
20 civiliza
21 humaniza Marte com engenho e arte.
22 Marte humanizado, que lugar quadrado.
23 Vamos a outra parte?
24 Claro – diz o engenho
25 sofisticado e dócil.
26 Vamos a Vênus.
27 O homem põe o pé em Vênus,
28 vê o visto – é isto?
29 idem
30 idem
31 idem.
32 O homem funde a cuca se não for a Júpiter
33 proclamar justiça junto com injustiça
34 repetir a fossa
35 repetir o inquieto
36 repetitório.
37 Outros planetas restam para outras colônias.
38 O espaço todo vira Terra-a-terra.
39 O homem chega ao Sol ou dá uma volta
40 só para tever?
41 Não-vê que ele inventa
42 roupa insiderável de viver no Sol.
43 Põe o pé e:
44 mas que chato é o Sol, falso touro
45 espanhol domado.
46 Restam outros sistemas fora
47 do solar a colonizar.
48 Ao acabarem todos
49 só resta ao homem
50 (estará equipado?)
51 a dificílima dangerosíssima viagem
52 de si a si mesmo:
53 pôr o pé no chão
54 do seu coração
55 experimentar
56 colonizar
57 civilizar
58 humanizar
59 o homem
60 descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
61 a perene, insuspeitada alegria
62 de con-viver.
———
Texto 3 — OS LUSÍADAS, Canto Primeiro (Luís de Camões)
1 As armas e os barões assinalados,
2 Que da ocidental praia Lusitana,
3 Por mares nunca de antes navegados,
4 Passaram ainda além da Taprobana,
5 Em perigos e guerras esforçados,
6 Mais do que prometia a força humana,
7 E entre gente remota edificaram
8 Novo Reino, que tanto sublimaram;
9 E também as memórias gloriosas
10 Daqueles Reis, que foram dilatando
11 A Fé, o Império, e as terras viciosas
12 De África e de Ásia andaram devastando;
13 E aqueles, que por obras valerosas
14 Se vão da lei da morte libertando;
15 Cantando espalharei por toda parte,
16 Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
17 Cessem do sábio Grego e do Troiano
18 As navegações grandes que fizeram;
19 Cale-se de Alexandro e de Trajano
20 A fama das vitórias que tiveram;
21 Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
22 A quem Neptuno e Marte obedeceram:
23 Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
24 Que outro valor mais alto se alevanta.
(…)
25 No mar tanta tormenta e tanto dano
26 Tantas vezes a morte apercebida
27 Na terra tanta guerra, tanto engano,
28 Tanta necessidade aborrecida
29 Onde pode acolher-se um fraco humano
30 Onde terá segura a curta vida,
31 Que não se arme e se indigne o céu sereno
32 Contra um bicho da terra tão pequeno?
———
Leia atentamente as assertivas seguintes a propósito dos Textos 2 e 3:
I. Os versos “Cesse tudo o que a Musa antiga canta,/Que outro valor mais alto se alevanta.” reivindicam, para os portugueses, a glória de haver sobrepujado qualquer outra façanha humana, o que se confirma no próprio poema quando se afirma que mesmo os deuses Netuno e Marte obedeceram a esse povo ilustre.
II. Tanto os versos de Camões quanto os de Carlos Drummond de Andrade recorrem à mudança de tempo verbal, ressaltando a importância dessa escolha para melhor revelar as incertezas que assolam o homem em sua pequenez e insignificância diante dos mistérios de sua existência.
III. Os textos diferem completamente um do outro quanto à escolha do léxico e à sintaxe: enquanto o texto do poeta brasileiro abriga neologismos e gírias e usa construções sintáticas diretas e simples, o texto do poeta português apresenta vocabulário erudito e construções que invertem a ordem natural da sintaxe.
IV. É possível estabelecer uma comparação entre o verso drummondiano “roupa insiderável de viver no Sol” e o verso camoniano “mais do que prometia a força humana”: ambos constatam a forte presença dos “engenhos” que a capacidade inventiva do homem consegue elaborar.
São verdadeiras
Texto 4 — PSICOLOGIA DE UM VENCIDO
Augusto dos Anjos
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
Quanto ao poema de Augusto dos Anjos (texto 4), é coerente afirmar que
A)revela um "eu" conformado com seu destino ao traduzir um olhar depressivo sobre o homem reduzido às leis fisiológicas.
B)vai ao encontro do movimento parnasiano e da tendência geral de se pensar a poesia como a arte de dizer o sublime, o inefável.
C)reduz as possibilidades de polissemia exigidas pela arte literária ao trazer palavras consideradas "antipoéticas" como "carbono", "verme" e "epigênese".
D)resiste às classificações literárias de cunho didático por suas características formais e temáticas.
E)despreza completamente o cientificismo em voga no início do século XX.
No Presarium Militares, você resolve essas questões com correção na hora, comentário e um painel que cruza a incidência com o seu desempenho — e monta sua lista de prioridade automaticamente.