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IME20221a faseQuestao 1PortuguêsInterpretação de textoMediaTexto 1 — ENGENHEIROS DA VITÓRIA (Paul Kennedy)
1 [...] Quando se fala na eficiência em conseguir equipamentos de combate e transferir combatentes de A para
2 B, os britânicos são campeões; certamente isso não foi por causa de alguma inteligência especial, mas pela
3 ampla experiência em organização e senso crítico depois de enfrentar chances adversas em 1940, juntamente
4 com a perspectiva de derrota. Aqui a necessidade foi a mãe da invenção. Eles tinham que defender suas cidades,
5 transportar tropas até o Egito, apoiar os gregos, proteger as fronteiras da Índia, trazer os Estados Unidos para a
6 guerra e depois levar aquele imenso potencial americano para a área da Europa. Era mais um problema a ser
7 resolvido. Como foi possível fazer com que 2 milhões de soldados americanos, depois de chegar às bases de
8 Clyde, fossem para bases no sul da Inglaterra preparando-se para o ataque à Normandia, quando a maior parte
9 das ferrovias britânicas estava ocupada em transportar vagões de carvão para as fábricas de ferro e aço que
10 não podiam parar de produzir?
11 Como se viu, uma organização composta por pessoas que cresceram decorando os horários da estrada de
12 ferro de Bradshaw como passatempo pode fazer isso, enquanto os altos comandantes consideravam que tudo
13 estava garantido porque confiavam na capacidade de seus administradores de nível médio. Churchill acreditava
14 que o melhor era não se preocupar demais com os problemas, pois tudo se resolveria, isto é, uma maneira havia
15 de ser encontrada, passo a passo.
16 Há uma outra forma de pensar sobre essa história de soluções de problemas, e ela vem de um exemplo
17 bem contemporâneo. Em novembro de 2011, enquanto o genial líder da Apple, Steve Jobs, recebia inúmeras
18 homenagens póstumas, um artigo intrigante foi publicado na revista New Yorker. Nele o autor, Malcom Gladwell,
19 argumentava que Jobs não era o inventor de uma máquina ou de uma ideia que mudou o mundo; poucos
20 seres o são (exceto talvez Leonardo da Vinci e Thomas Edison).
21 Na verdade, seu brilhantismo estava em
22 adotar invenções alheias que não deram certo, a partir das quais construía, modificava e fazia aperfeiçoamentos
23 constantes. Para usar uma linguagem atual, ele era um tweaker, e sua genialidade impulsionou como nunca o
24 aumento de eficiência dos produtos de sua companhia.
25 A história do sucesso de Steve Jobs, contudo, não era nova. A chegada da Revolução Industrial do século
26 XVIII na Grã-Bretanha – muito provavelmente a maior revolução para explicar a ascensão do Ocidente – ocorreu
27 porque o país possuía uma imensa coleção de tweakers em sua cultura que encorajaram o progresso [... ]
28 A história da evolução do tanque T-34 soviético, de um grande pedaço de metal mal projetado e fraco para
29 uma arma de guerra mortífera, segura e de grande mobilidade, não foi uma história contínua de tweaking? Não
30 foi esse também o caso do grande bombardeiro americano, o B-29, que no início estava tão mergulhado em
31 dificuldades que chegou a se propor seu cancelamento até que as equipes da Boeing resolveram os problemas?
32 E as miraculosas histórias do P-51 Mustang, dos tanques de Percy Hobart e de um poderoso sistema de radar
33 tão pequeno que poderia ser inserido no nariz de um avião patrulha de longa distância e virar a maré na Batalha
34 do Atlântico? Depois que se unem os diversos pedaços espalhados, tudo se encaixa. Mas todos esses projetos
35 exigiram tempo e apoio.
36 Na verdade, os administradores de grandes companhias mundiais provavelmente se surpreendam diante,
37 digamos, do planejamento e orquestração do almirante Ramsay nos cincos desembarques simultâneos no Dia
38 D e gostariam de poder realizar um décimo do que ele fez.
39 Em suma, a vitória em grandes guerras sempre requer organização superior, o que, por sua vez, exige
40 pessoas que possam dirigir essas organizações, não com um interesse apenas moderado, mas da maneira
41 mais competente possível e com estilo que permitirá às pessoas de fora propor ideias novas na busca da vitória.
42 Os chefes não podem fazer isso tudo sozinhos, por mais que sejam criativos e dotados de energia. É necessário
43 haver um sistema de apoio, uma cultura de encorajamento, feedbacks eficientes, uma capacidade de aprender
44 com os revezes, uma habilidade de fazer as coisas acontecerem. E tudo isto tem de ser feito de uma maneira
45 que seja melhor do que aquela do inimigo. É assim que as guerras são vencidas. [... ]
46 O mesmo reconhecimento merecem, por certo, os militares de nível médio que mudaram a Segunda Guerra
47 Mundial, transformando as agressões do Eixo em 1942 em avanços irreversíveis dos Aliados em 1943-44, e
48 finalmente destruindo a Alemanha e o Japão. É verdade, alguns desses indivíduos, armamentos e organizações
49 são reconhecidos, mas em geral de uma forma fragmentada e popularizada. É raro que esses fios isolados sejam
50 tecidos em conjunto para mostrar como os avanços afetaram as muitas campanhas, fazendo a balança pender
51 para o lado dos Aliados durante o conflito global. Mais raro ainda é a compreensão de como o trabalho desses
52 vários solucionadores de problemas também precisa ser incluído numa importante “cultura do encorajamento”
53 para garantir que simples declarações e intenções estratégicas de grandes líderes se tornem realidade e não
54 murchem nas tempestades da guerra. Se isso é o que acontece, então vivemos com uma grande lacuna em
55 nossa compreensão de como a Segunda Guerra Mundial foi vencida em seus anos cruciais.
———
Com base no primeiro parágrafo do texto 1, o qual apresenta várias soluções de problemas práticos realizadas pelos britânicos na Segunda Guerra Mundial, pode-se afirmar que:
- A)foram iniciativas espontâneas realizadas pelo povo inglês, devido à sua familiaridade com o enfrentamento de situações difíceis ao longo de toda a sua história.
- B)aconteceram devido à confiança dos dirigentes na capacidade intelectual e profissional de alguns cientistas e tecnólogos demonstrada em 1940.
- C)relacionam-se com a presença de um efetivo considerável de tweakers na sociedade britânica da época.
- D)ocorreram graças à difusão da Revolução Industrial, no século XVIII, na Grã-Bretanha.
- E)foram criadas em razão das aprendizagens profícuas que resultaram de experiências em situações diversas, ao superar desafios.
IME20221a faseQuestao 6PortuguêsInterpretação de textoDificilTexto 2 — ODE TRIUNFAL (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos)
1 À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
2 Tenho febre e escrevo.
3 Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
4 Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
5 Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
6 Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
7 Em fúria fora e dentro de mim,
8 Por todos os meus nervos dissecados fora,
9 Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
10 Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
11 De vos ouvir demasiadamente de perto,
12 E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
13 De expressão de todas as minhas sensações,
14 Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
15 Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
16 Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
17 Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
18 Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
19 E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
20 Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
21 E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
22 Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
23 Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
24 Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
25 Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
26 Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
27 Ser completo como uma máquina!
28 Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
29 Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
30 Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
31 A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
32 Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
33 Fraternidade com todas as dinâmicas!
34 Promíscua fúria de ser parte-agente
35 Do rodar férreo e cosmopolita
36 Dos comboios estrênuos,
37 Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
38 Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
39 Do tumulto disciplinado das fábricas,
40 E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
41 Horas europeias, produtoras, entaladas
42 Entre maquinismos e afazeres úteis!
43 Grandes cidades paradas nos cafés,
44 Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
45 Onde se cristalizam e se precipitam
46 Os rumores e os gestos do Útil
47 E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
48 Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
49 Novos entusiasmos de estatura do Momento!
———
Sobre o texto 2, é incorreto afirmar que:
- A)o eu lírico se dissolve no entorno, despersonalizando-se ao incorporar os atributos das máquinas e engrenagens.
- B)no verso "Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!" (linha 48), o poeta se refere à racionalidade impessoal encarnada nas cidades modernas.
- C)o eu lírico demonstra uma atitude de temor e encantamento em face da ciência e da tecnologia.
- D)o poema é uma ode, que, para os antigos gregos, era um poema destinado a celebrar as ações e as qualidades de algo ou de alguém.
- E)nos vocábulos "Útil" (linha 46) e "Progressivo" (linha 47) ocorre um processo de substantivação, utilizado como um recurso estilístico de ênfase.
IME20221a faseQuestao 11PortuguêsInterpretação de textoDificilTexto 2 — ODE TRIUNFAL (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos)
1 À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
2 Tenho febre e escrevo.
3 Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
4 Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
5 Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
6 Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
7 Em fúria fora e dentro de mim,
8 Por todos os meus nervos dissecados fora,
9 Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
10 Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
11 De vos ouvir demasiadamente de perto,
12 E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
13 De expressão de todas as minhas sensações,
14 Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
15 Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
16 Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
17 Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
18 Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
19 E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
20 Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
21 E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
22 Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
23 Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
24 Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
25 Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
26 Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
27 Ser completo como uma máquina!
28 Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
29 Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
30 Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
31 A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
32 Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
33 Fraternidade com todas as dinâmicas!
34 Promíscua fúria de ser parte-agente
35 Do rodar férreo e cosmopolita
36 Dos comboios estrênuos,
37 Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
38 Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
39 Do tumulto disciplinado das fábricas,
40 E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
41 Horas europeias, produtoras, entaladas
42 Entre maquinismos e afazeres úteis!
43 Grandes cidades paradas nos cafés,
44 Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
45 Onde se cristalizam e se precipitam
46 Os rumores e os gestos do Útil
47 E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
48 Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
49 Novos entusiasmos de estatura do Momento!
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Considere o segmento do texto 2 (linhas 27 a 32) que começa em "Ser completo como uma máquina!". Sobre ele:
I. Tomado por sensações vertiginosas, o poeta modernista evidencia um sentimento de fascínio pelas máquinas, assim como o seu desejo de fusão e integração.
II. Em consonância com uma estética romântica tardia, o vocábulo "flora" foi empregado no intuito de postular uma possível reconversão do mundo das máquinas a uma natureza pujante, então vilipendiada.
III. No verso "Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável" (linha 32), a palavra "estupenda" apresenta uma relação de sinonímia com o vocábulo "abundante".
Está(ão) correta(s) a(s) assertiva(s):
- A)I, apenas.
- B)II, apenas.
- C)III, apenas.
- D)I e III, apenas.
- E)II e III, apenas.
IME20221a faseQuestao 15PortuguêsInterpretação de textoMediaTexto 3 — A NOVA CALIFÓRNIA (Lima Barreto)
1 Ninguém sabia donde viera aquele homem. O agente do Correio pudera apenas informar que acudia ao
2 nome de Raimundo Flamel, pois assim era subscrita a correspondência que recebia. E era grande. Quase
3 diariamente, o carteiro lá ia a um dos extremos da cidade, onde morava o desconhecido, sopesando um maço
4 alentado de cartas vindas do mundo inteiro, grossas revistas em línguas arrevesadas, livros, pacotes...
5 Quando Fabrício, o pedreiro, voltou de um serviço em casa do novo habitante, todos na venda perguntaram-
6 lhe que trabalho lhe tinha sido determinado.
7 – Vou fazer um forno, disse o preto, na sala de jantar.
8 Imaginem o espanto da pequena cidade de Tubiacanga, ao saber de tão extravagante construção: um forno
9 na sala de jantar! E, pelos dias seguintes, Fabrício pôde contar que vira balões de vidros, facas sem corte, copos
10 como os da farmácia – um rol de coisas esquisitas a se mostrarem pelas mesas e prateleiras como utensílios
11 de uma bateria de cozinha em que o próprio diabo cozinhasse. O alarme se fez na vila. Para uns, os mais
12 adiantados, era um fabricante de moeda falsa; para outros, os crentes e simples, um tipo que tinha parte com o
13 tinhoso.
14 Chico da Tirana, o carreiro, quando passava em frente da casa do homem misterioso, ao lado do carro a
15 chiar, e olhava a chaminé da sala de jantar a fumegar, não deixava de persignar-se e rezar um “credo” em voz
16 baixa; e, não fora a intervenção do farmacêutico, o subdelegado teria ido dar um cerco à casa daquele indivíduo
17 suspeito, que inquietava a imaginação de toda uma população.
18 Tomando em consideração as informações de Fabrício, o boticário Bastos concluíra que o desconhecido
19 devia ser um sábio, um grande químico, refugiado ali para mais sossegadamente levar avante os seus trabalhos
20 científicos.
21 Homem formado e respeitado na cidade, vereador, médico também, porque o doutor Jerônimo não gostava
22 de receitar e se fizera sócio da farmácia para mais em paz viver, a opinião de Bastos levou tranquilidade a todas
23 as consciências e fez com que a população cercasse de uma silenciosa admiração a pessoa do grande químico,
24 que viera habitar a cidade.
25 De tarde, se o viam a passear pela margem do Tubiacanga, sentando-se aqui e ali, olhando perdidamente
26 as águas claras do riacho, cismando diante da penetrante melancolia do crepúsculo, todos se descobriam e não
27 era raro que às “boas noites” acrescentassem “doutor”. E tocava muito o coração daquela gente a profunda
28 simpatia com que ele tratava as crianças, a maneira pela qual as contemplava, parecendo apiedar-se de que
29 elas tivessem nascido para sofrer e morrer.
30 Na verdade, era de ver-se, sob a doçura suave da tarde, a bondade de Messias com que ele afagava
31 aquelas crianças pretas, tão lisas de pele e tão tristes de modos, mergulhadas no seu cativeiro moral, e também
32 as brancas, de pele baça, gretada e áspera, vivendo amparadas na necessária caquexia dos trópicos.
33 Por vezes, vinha-lhe vontade de pensar qual a razão de ter Bernardin de Saint-Pierre gasto toda a sua
34 ternura com Paulo e Virgínia e esquecer-se dos escravos que os cercavam...
35 Em poucos dias a admiração pelo sábio era quase geral, e não o era unicamente porque havia alguém que
36 não tinha em grande conta os méritos do novo habitante. Capitão Pelino, mestre-escola e redator da Gazeta de
37 Tubiacanga, órgão local e filiado ao partido situacionista, embirrava com o sábio. “Vocês hão de ver, dizia ele,
38 quem é esse tipo... Um caloteiro, um aventureiro ou talvez um ladrão fugido do Rio.”
39 A sua opinião em nada se baseava, ou antes, baseava-se no seu oculto despeito vendo na terra um rival
40 para a fama de sábio de que gozava. Não que Pelino fosse químico, longe disso; mas era sábio, era gramático.
41 Ninguém escrevia em Tubiacanga que não levasse bordoada do capitão Pelino, e mesmo quando se falava em
42 algum homem notável lá no Rio, ele não deixava de dizer: “Não há dúvida! O homem tem talento, mas escreve:
43 ‘um outro’, ‘de resto’... ”. E contraía os lábios como se tivesse engolido alguma coisa amarga.
44 Toda a vila de Tubiacanga acostumou-se a respeitar o solene Pelino, que corrigia e emendava as maiores
45 glórias nacionais. Um sábio...
46 Ao entardecer, depois de ler um pouco o Sotero, o Cândido de Figueiredo ou o Castro Lopes, e de ter
47 passado mais uma vez a tintura nos cabelos, o velho mestre-escola saía vagarosamente de casa, muito abotoado
48 no seu paletó de brim mineiro, e encaminhava-se para a botica do Bastos a dar dois dedos de prosa. Conversar
49 é um modo de dizer, porque era Pelino avaro de palavras, limitando-se tão somente a ouvir. Quando, porém,
50 dos lábios de alguém escapava a menor incorreção de linguagem, intervinha e emendava. “Eu asseguro, dizia o
51 agente do Correio, que... ” Por aí, o mestre-escola intervinha com mansuetude evangélica: “Não diga ‘asseguro’,
52 senhor Bernardes; em português é garanto”.
53 E a conversa continuava depois da emenda, para ser de novo interrompida por uma outra. Por essas e outras,
54 houve muitos palestradores que se afastaram, mas Pelino, indiferente, seguro dos seus deveres, continuava o
55 seu apostolado de vernaculismo. A chegada do sábio veio distraí-lo um pouco da sua missão. Todo o seu esforço
56 voltava-se agora para combater aquele rival, que surgia tão inopinadamente.
57 Foram vãs as suas palavras e a sua eloquência: não só Raimundo Flamel pagava em dia as suas contas,
58 como era generoso – pai da pobreza – e o farmacêutico vira numa revista de específicos seu nome citado como
59 químico de valor.
———
É correto afirmar que o Texto 3:
- A)explicita a necessidade de conciliar o conhecimento humanístico e científico para promover o desenvolvimento dos povos.
- B)caracteriza uma atitude coletiva de estranhamento místico em relação ao cientista e ao fazer científico.
- C)pondera a importância da contribuição do conhecimento gramatical e linguístico nas cidades do interior.
- D)apresenta a ciência como uma atividade que envolve coragem e nobreza moral para lograr êxito.
- E)valoriza os cientistas e o papel social da ciência e da tecnologia na vida coletiva de um povo.
IME20221a faseQuestao 17PortuguêsInterpretação de textoDificilTexto 3 — A NOVA CALIFÓRNIA (Lima Barreto)
1 Ninguém sabia donde viera aquele homem. O agente do Correio pudera apenas informar que acudia ao
2 nome de Raimundo Flamel, pois assim era subscrita a correspondência que recebia. E era grande. Quase
3 diariamente, o carteiro lá ia a um dos extremos da cidade, onde morava o desconhecido, sopesando um maço
4 alentado de cartas vindas do mundo inteiro, grossas revistas em línguas arrevesadas, livros, pacotes...
5 Quando Fabrício, o pedreiro, voltou de um serviço em casa do novo habitante, todos na venda perguntaram-
6 lhe que trabalho lhe tinha sido determinado.
7 – Vou fazer um forno, disse o preto, na sala de jantar.
8 Imaginem o espanto da pequena cidade de Tubiacanga, ao saber de tão extravagante construção: um forno
9 na sala de jantar! E, pelos dias seguintes, Fabrício pôde contar que vira balões de vidros, facas sem corte, copos
10 como os da farmácia – um rol de coisas esquisitas a se mostrarem pelas mesas e prateleiras como utensílios
11 de uma bateria de cozinha em que o próprio diabo cozinhasse. O alarme se fez na vila. Para uns, os mais
12 adiantados, era um fabricante de moeda falsa; para outros, os crentes e simples, um tipo que tinha parte com o
13 tinhoso.
14 Chico da Tirana, o carreiro, quando passava em frente da casa do homem misterioso, ao lado do carro a
15 chiar, e olhava a chaminé da sala de jantar a fumegar, não deixava de persignar-se e rezar um “credo” em voz
16 baixa; e, não fora a intervenção do farmacêutico, o subdelegado teria ido dar um cerco à casa daquele indivíduo
17 suspeito, que inquietava a imaginação de toda uma população.
18 Tomando em consideração as informações de Fabrício, o boticário Bastos concluíra que o desconhecido
19 devia ser um sábio, um grande químico, refugiado ali para mais sossegadamente levar avante os seus trabalhos
20 científicos.
21 Homem formado e respeitado na cidade, vereador, médico também, porque o doutor Jerônimo não gostava
22 de receitar e se fizera sócio da farmácia para mais em paz viver, a opinião de Bastos levou tranquilidade a todas
23 as consciências e fez com que a população cercasse de uma silenciosa admiração a pessoa do grande químico,
24 que viera habitar a cidade.
25 De tarde, se o viam a passear pela margem do Tubiacanga, sentando-se aqui e ali, olhando perdidamente
26 as águas claras do riacho, cismando diante da penetrante melancolia do crepúsculo, todos se descobriam e não
27 era raro que às “boas noites” acrescentassem “doutor”. E tocava muito o coração daquela gente a profunda
28 simpatia com que ele tratava as crianças, a maneira pela qual as contemplava, parecendo apiedar-se de que
29 elas tivessem nascido para sofrer e morrer.
30 Na verdade, era de ver-se, sob a doçura suave da tarde, a bondade de Messias com que ele afagava
31 aquelas crianças pretas, tão lisas de pele e tão tristes de modos, mergulhadas no seu cativeiro moral, e também
32 as brancas, de pele baça, gretada e áspera, vivendo amparadas na necessária caquexia dos trópicos.
33 Por vezes, vinha-lhe vontade de pensar qual a razão de ter Bernardin de Saint-Pierre gasto toda a sua
34 ternura com Paulo e Virgínia e esquecer-se dos escravos que os cercavam...
35 Em poucos dias a admiração pelo sábio era quase geral, e não o era unicamente porque havia alguém que
36 não tinha em grande conta os méritos do novo habitante. Capitão Pelino, mestre-escola e redator da Gazeta de
37 Tubiacanga, órgão local e filiado ao partido situacionista, embirrava com o sábio. “Vocês hão de ver, dizia ele,
38 quem é esse tipo... Um caloteiro, um aventureiro ou talvez um ladrão fugido do Rio.”
39 A sua opinião em nada se baseava, ou antes, baseava-se no seu oculto despeito vendo na terra um rival
40 para a fama de sábio de que gozava. Não que Pelino fosse químico, longe disso; mas era sábio, era gramático.
41 Ninguém escrevia em Tubiacanga que não levasse bordoada do capitão Pelino, e mesmo quando se falava em
42 algum homem notável lá no Rio, ele não deixava de dizer: “Não há dúvida! O homem tem talento, mas escreve:
43 ‘um outro’, ‘de resto’... ”. E contraía os lábios como se tivesse engolido alguma coisa amarga.
44 Toda a vila de Tubiacanga acostumou-se a respeitar o solene Pelino, que corrigia e emendava as maiores
45 glórias nacionais. Um sábio...
46 Ao entardecer, depois de ler um pouco o Sotero, o Cândido de Figueiredo ou o Castro Lopes, e de ter
47 passado mais uma vez a tintura nos cabelos, o velho mestre-escola saía vagarosamente de casa, muito abotoado
48 no seu paletó de brim mineiro, e encaminhava-se para a botica do Bastos a dar dois dedos de prosa. Conversar
49 é um modo de dizer, porque era Pelino avaro de palavras, limitando-se tão somente a ouvir. Quando, porém,
50 dos lábios de alguém escapava a menor incorreção de linguagem, intervinha e emendava. “Eu asseguro, dizia o
51 agente do Correio, que... ” Por aí, o mestre-escola intervinha com mansuetude evangélica: “Não diga ‘asseguro’,
52 senhor Bernardes; em português é garanto”.
53 E a conversa continuava depois da emenda, para ser de novo interrompida por uma outra. Por essas e outras,
54 houve muitos palestradores que se afastaram, mas Pelino, indiferente, seguro dos seus deveres, continuava o
55 seu apostolado de vernaculismo. A chegada do sábio veio distraí-lo um pouco da sua missão. Todo o seu esforço
56 voltava-se agora para combater aquele rival, que surgia tão inopinadamente.
57 Foram vãs as suas palavras e a sua eloquência: não só Raimundo Flamel pagava em dia as suas contas,
58 como era generoso – pai da pobreza – e o farmacêutico vira numa revista de específicos seu nome citado como
59 químico de valor.
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Sobre a intertextualidade (Kristeva), no texto 3 o procedimento intertextual empregado no uso da expressão de referência religiosa "bondade de Messias", relativa a Raimundo Flamel, serviu, do ponto de vista da construção da narrativa, para:
I. demonstrar a formação religiosa exemplar do forasteiro, que passou a ser reconhecida por todos, de acordo com o narrador.
II. evidenciar o consenso favorável construído pelos habitantes de Tubiacanga sobre o sábio, depois de algum tempo, na perspectiva do narrador.
III. marcar o confronto entre a mediocridade da cidade e a alta estatura moral de Raimundo Flamel, segundo o narrador.
Está(ão) correta(s) a(s) assertiva(s):
- A)I, apenas.
- B)II, apenas.
- C)III, apenas.
- D)I e II, apenas.
- E)II e III, apenas.
IME20221a faseQuestao 19PortuguêsInterpretação de textoDificilTexto 3 — A NOVA CALIFÓRNIA (Lima Barreto)
1 Ninguém sabia donde viera aquele homem. O agente do Correio pudera apenas informar que acudia ao
2 nome de Raimundo Flamel, pois assim era subscrita a correspondência que recebia. E era grande. Quase
3 diariamente, o carteiro lá ia a um dos extremos da cidade, onde morava o desconhecido, sopesando um maço
4 alentado de cartas vindas do mundo inteiro, grossas revistas em línguas arrevesadas, livros, pacotes...
5 Quando Fabrício, o pedreiro, voltou de um serviço em casa do novo habitante, todos na venda perguntaram-
6 lhe que trabalho lhe tinha sido determinado.
7 – Vou fazer um forno, disse o preto, na sala de jantar.
8 Imaginem o espanto da pequena cidade de Tubiacanga, ao saber de tão extravagante construção: um forno
9 na sala de jantar! E, pelos dias seguintes, Fabrício pôde contar que vira balões de vidros, facas sem corte, copos
10 como os da farmácia – um rol de coisas esquisitas a se mostrarem pelas mesas e prateleiras como utensílios
11 de uma bateria de cozinha em que o próprio diabo cozinhasse. O alarme se fez na vila. Para uns, os mais
12 adiantados, era um fabricante de moeda falsa; para outros, os crentes e simples, um tipo que tinha parte com o
13 tinhoso.
14 Chico da Tirana, o carreiro, quando passava em frente da casa do homem misterioso, ao lado do carro a
15 chiar, e olhava a chaminé da sala de jantar a fumegar, não deixava de persignar-se e rezar um “credo” em voz
16 baixa; e, não fora a intervenção do farmacêutico, o subdelegado teria ido dar um cerco à casa daquele indivíduo
17 suspeito, que inquietava a imaginação de toda uma população.
18 Tomando em consideração as informações de Fabrício, o boticário Bastos concluíra que o desconhecido
19 devia ser um sábio, um grande químico, refugiado ali para mais sossegadamente levar avante os seus trabalhos
20 científicos.
21 Homem formado e respeitado na cidade, vereador, médico também, porque o doutor Jerônimo não gostava
22 de receitar e se fizera sócio da farmácia para mais em paz viver, a opinião de Bastos levou tranquilidade a todas
23 as consciências e fez com que a população cercasse de uma silenciosa admiração a pessoa do grande químico,
24 que viera habitar a cidade.
25 De tarde, se o viam a passear pela margem do Tubiacanga, sentando-se aqui e ali, olhando perdidamente
26 as águas claras do riacho, cismando diante da penetrante melancolia do crepúsculo, todos se descobriam e não
27 era raro que às “boas noites” acrescentassem “doutor”. E tocava muito o coração daquela gente a profunda
28 simpatia com que ele tratava as crianças, a maneira pela qual as contemplava, parecendo apiedar-se de que
29 elas tivessem nascido para sofrer e morrer.
30 Na verdade, era de ver-se, sob a doçura suave da tarde, a bondade de Messias com que ele afagava
31 aquelas crianças pretas, tão lisas de pele e tão tristes de modos, mergulhadas no seu cativeiro moral, e também
32 as brancas, de pele baça, gretada e áspera, vivendo amparadas na necessária caquexia dos trópicos.
33 Por vezes, vinha-lhe vontade de pensar qual a razão de ter Bernardin de Saint-Pierre gasto toda a sua
34 ternura com Paulo e Virgínia e esquecer-se dos escravos que os cercavam...
35 Em poucos dias a admiração pelo sábio era quase geral, e não o era unicamente porque havia alguém que
36 não tinha em grande conta os méritos do novo habitante. Capitão Pelino, mestre-escola e redator da Gazeta de
37 Tubiacanga, órgão local e filiado ao partido situacionista, embirrava com o sábio. “Vocês hão de ver, dizia ele,
38 quem é esse tipo... Um caloteiro, um aventureiro ou talvez um ladrão fugido do Rio.”
39 A sua opinião em nada se baseava, ou antes, baseava-se no seu oculto despeito vendo na terra um rival
40 para a fama de sábio de que gozava. Não que Pelino fosse químico, longe disso; mas era sábio, era gramático.
41 Ninguém escrevia em Tubiacanga que não levasse bordoada do capitão Pelino, e mesmo quando se falava em
42 algum homem notável lá no Rio, ele não deixava de dizer: “Não há dúvida! O homem tem talento, mas escreve:
43 ‘um outro’, ‘de resto’... ”. E contraía os lábios como se tivesse engolido alguma coisa amarga.
44 Toda a vila de Tubiacanga acostumou-se a respeitar o solene Pelino, que corrigia e emendava as maiores
45 glórias nacionais. Um sábio...
46 Ao entardecer, depois de ler um pouco o Sotero, o Cândido de Figueiredo ou o Castro Lopes, e de ter
47 passado mais uma vez a tintura nos cabelos, o velho mestre-escola saía vagarosamente de casa, muito abotoado
48 no seu paletó de brim mineiro, e encaminhava-se para a botica do Bastos a dar dois dedos de prosa. Conversar
49 é um modo de dizer, porque era Pelino avaro de palavras, limitando-se tão somente a ouvir. Quando, porém,
50 dos lábios de alguém escapava a menor incorreção de linguagem, intervinha e emendava. “Eu asseguro, dizia o
51 agente do Correio, que... ” Por aí, o mestre-escola intervinha com mansuetude evangélica: “Não diga ‘asseguro’,
52 senhor Bernardes; em português é garanto”.
53 E a conversa continuava depois da emenda, para ser de novo interrompida por uma outra. Por essas e outras,
54 houve muitos palestradores que se afastaram, mas Pelino, indiferente, seguro dos seus deveres, continuava o
55 seu apostolado de vernaculismo. A chegada do sábio veio distraí-lo um pouco da sua missão. Todo o seu esforço
56 voltava-se agora para combater aquele rival, que surgia tão inopinadamente.
57 Foram vãs as suas palavras e a sua eloquência: não só Raimundo Flamel pagava em dia as suas contas,
58 como era generoso – pai da pobreza – e o farmacêutico vira numa revista de específicos seu nome citado como
59 químico de valor.
———
No excerto do texto 3 sobre "a bondade de Messias com que ele afagava aquelas crianças pretas [...] e também as brancas [...] vivendo amparadas na necessária caquexia dos trópicos", a expressão "caquexia dos trópicos", típica de uma visão determinista e evolucionista,
- A)exprime a convicção do narrador nas potencialidades do povo brasileiro em relação ao progresso da nação.
- B)expressa a ideia de que se trata de um traço inelutável, próprio de um grupo social em uma região geográfica determinada.
- C)significa que os habitantes de Tubiacanga se caracterizam pela ignorância e tacanhez.
- D)refere-se sobretudo às crianças pretas, "lisas de pele e tão tristes de modos, mergulhadas no seu cativeiro moral".
- E)inclui as crianças pretas e brancas, que partilhavam idênticas condições de vida e de educação.
IME20221a faseQuestao 20PortuguêsInterpretação de textoMuito dificilTexto 1 — ENGENHEIROS DA VITÓRIA (Paul Kennedy)
1 [...] Quando se fala na eficiência em conseguir equipamentos de combate e transferir combatentes de A para
2 B, os britânicos são campeões; certamente isso não foi por causa de alguma inteligência especial, mas pela
3 ampla experiência em organização e senso crítico depois de enfrentar chances adversas em 1940, juntamente
4 com a perspectiva de derrota. Aqui a necessidade foi a mãe da invenção. Eles tinham que defender suas cidades,
5 transportar tropas até o Egito, apoiar os gregos, proteger as fronteiras da Índia, trazer os Estados Unidos para a
6 guerra e depois levar aquele imenso potencial americano para a área da Europa. Era mais um problema a ser
7 resolvido. Como foi possível fazer com que 2 milhões de soldados americanos, depois de chegar às bases de
8 Clyde, fossem para bases no sul da Inglaterra preparando-se para o ataque à Normandia, quando a maior parte
9 das ferrovias britânicas estava ocupada em transportar vagões de carvão para as fábricas de ferro e aço que
10 não podiam parar de produzir?
11 Como se viu, uma organização composta por pessoas que cresceram decorando os horários da estrada de
12 ferro de Bradshaw como passatempo pode fazer isso, enquanto os altos comandantes consideravam que tudo
13 estava garantido porque confiavam na capacidade de seus administradores de nível médio. Churchill acreditava
14 que o melhor era não se preocupar demais com os problemas, pois tudo se resolveria, isto é, uma maneira havia
15 de ser encontrada, passo a passo.
16 Há uma outra forma de pensar sobre essa história de soluções de problemas, e ela vem de um exemplo
17 bem contemporâneo. Em novembro de 2011, enquanto o genial líder da Apple, Steve Jobs, recebia inúmeras
18 homenagens póstumas, um artigo intrigante foi publicado na revista New Yorker. Nele o autor, Malcom Gladwell,
19 argumentava que Jobs não era o inventor de uma máquina ou de uma ideia que mudou o mundo; poucos
20 seres o são (exceto talvez Leonardo da Vinci e Thomas Edison).
21 Na verdade, seu brilhantismo estava em
22 adotar invenções alheias que não deram certo, a partir das quais construía, modificava e fazia aperfeiçoamentos
23 constantes. Para usar uma linguagem atual, ele era um tweaker, e sua genialidade impulsionou como nunca o
24 aumento de eficiência dos produtos de sua companhia.
25 A história do sucesso de Steve Jobs, contudo, não era nova. A chegada da Revolução Industrial do século
26 XVIII na Grã-Bretanha – muito provavelmente a maior revolução para explicar a ascensão do Ocidente – ocorreu
27 porque o país possuía uma imensa coleção de tweakers em sua cultura que encorajaram o progresso [... ]
28 A história da evolução do tanque T-34 soviético, de um grande pedaço de metal mal projetado e fraco para
29 uma arma de guerra mortífera, segura e de grande mobilidade, não foi uma história contínua de tweaking? Não
30 foi esse também o caso do grande bombardeiro americano, o B-29, que no início estava tão mergulhado em
31 dificuldades que chegou a se propor seu cancelamento até que as equipes da Boeing resolveram os problemas?
32 E as miraculosas histórias do P-51 Mustang, dos tanques de Percy Hobart e de um poderoso sistema de radar
33 tão pequeno que poderia ser inserido no nariz de um avião patrulha de longa distância e virar a maré na Batalha
34 do Atlântico? Depois que se unem os diversos pedaços espalhados, tudo se encaixa. Mas todos esses projetos
35 exigiram tempo e apoio.
36 Na verdade, os administradores de grandes companhias mundiais provavelmente se surpreendam diante,
37 digamos, do planejamento e orquestração do almirante Ramsay nos cincos desembarques simultâneos no Dia
38 D e gostariam de poder realizar um décimo do que ele fez.
39 Em suma, a vitória em grandes guerras sempre requer organização superior, o que, por sua vez, exige
40 pessoas que possam dirigir essas organizações, não com um interesse apenas moderado, mas da maneira
41 mais competente possível e com estilo que permitirá às pessoas de fora propor ideias novas na busca da vitória.
42 Os chefes não podem fazer isso tudo sozinhos, por mais que sejam criativos e dotados de energia. É necessário
43 haver um sistema de apoio, uma cultura de encorajamento, feedbacks eficientes, uma capacidade de aprender
44 com os revezes, uma habilidade de fazer as coisas acontecerem. E tudo isto tem de ser feito de uma maneira
45 que seja melhor do que aquela do inimigo. É assim que as guerras são vencidas. [... ]
46 O mesmo reconhecimento merecem, por certo, os militares de nível médio que mudaram a Segunda Guerra
47 Mundial, transformando as agressões do Eixo em 1942 em avanços irreversíveis dos Aliados em 1943-44, e
48 finalmente destruindo a Alemanha e o Japão. É verdade, alguns desses indivíduos, armamentos e organizações
49 são reconhecidos, mas em geral de uma forma fragmentada e popularizada. É raro que esses fios isolados sejam
50 tecidos em conjunto para mostrar como os avanços afetaram as muitas campanhas, fazendo a balança pender
51 para o lado dos Aliados durante o conflito global. Mais raro ainda é a compreensão de como o trabalho desses
52 vários solucionadores de problemas também precisa ser incluído numa importante “cultura do encorajamento”
53 para garantir que simples declarações e intenções estratégicas de grandes líderes se tornem realidade e não
54 murchem nas tempestades da guerra. Se isso é o que acontece, então vivemos com uma grande lacuna em
55 nossa compreensão de como a Segunda Guerra Mundial foi vencida em seus anos cruciais.
———
Texto 2 — ODE TRIUNFAL (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos)
1 À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
2 Tenho febre e escrevo.
3 Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
4 Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
5 Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
6 Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
7 Em fúria fora e dentro de mim,
8 Por todos os meus nervos dissecados fora,
9 Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
10 Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
11 De vos ouvir demasiadamente de perto,
12 E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
13 De expressão de todas as minhas sensações,
14 Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
15 Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
16 Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
17 Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
18 Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
19 E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
20 Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
21 E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
22 Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
23 Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
24 Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
25 Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
26 Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
27 Ser completo como uma máquina!
28 Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
29 Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
30 Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
31 A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
32 Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
33 Fraternidade com todas as dinâmicas!
34 Promíscua fúria de ser parte-agente
35 Do rodar férreo e cosmopolita
36 Dos comboios estrênuos,
37 Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
38 Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
39 Do tumulto disciplinado das fábricas,
40 E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
41 Horas europeias, produtoras, entaladas
42 Entre maquinismos e afazeres úteis!
43 Grandes cidades paradas nos cafés,
44 Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
45 Onde se cristalizam e se precipitam
46 Os rumores e os gestos do Útil
47 E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
48 Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
49 Novos entusiasmos de estatura do Momento!
———
Texto 3 — A NOVA CALIFÓRNIA (Lima Barreto)
1 Ninguém sabia donde viera aquele homem. O agente do Correio pudera apenas informar que acudia ao
2 nome de Raimundo Flamel, pois assim era subscrita a correspondência que recebia. E era grande. Quase
3 diariamente, o carteiro lá ia a um dos extremos da cidade, onde morava o desconhecido, sopesando um maço
4 alentado de cartas vindas do mundo inteiro, grossas revistas em línguas arrevesadas, livros, pacotes...
5 Quando Fabrício, o pedreiro, voltou de um serviço em casa do novo habitante, todos na venda perguntaram-
6 lhe que trabalho lhe tinha sido determinado.
7 – Vou fazer um forno, disse o preto, na sala de jantar.
8 Imaginem o espanto da pequena cidade de Tubiacanga, ao saber de tão extravagante construção: um forno
9 na sala de jantar! E, pelos dias seguintes, Fabrício pôde contar que vira balões de vidros, facas sem corte, copos
10 como os da farmácia – um rol de coisas esquisitas a se mostrarem pelas mesas e prateleiras como utensílios
11 de uma bateria de cozinha em que o próprio diabo cozinhasse. O alarme se fez na vila. Para uns, os mais
12 adiantados, era um fabricante de moeda falsa; para outros, os crentes e simples, um tipo que tinha parte com o
13 tinhoso.
14 Chico da Tirana, o carreiro, quando passava em frente da casa do homem misterioso, ao lado do carro a
15 chiar, e olhava a chaminé da sala de jantar a fumegar, não deixava de persignar-se e rezar um “credo” em voz
16 baixa; e, não fora a intervenção do farmacêutico, o subdelegado teria ido dar um cerco à casa daquele indivíduo
17 suspeito, que inquietava a imaginação de toda uma população.
18 Tomando em consideração as informações de Fabrício, o boticário Bastos concluíra que o desconhecido
19 devia ser um sábio, um grande químico, refugiado ali para mais sossegadamente levar avante os seus trabalhos
20 científicos.
21 Homem formado e respeitado na cidade, vereador, médico também, porque o doutor Jerônimo não gostava
22 de receitar e se fizera sócio da farmácia para mais em paz viver, a opinião de Bastos levou tranquilidade a todas
23 as consciências e fez com que a população cercasse de uma silenciosa admiração a pessoa do grande químico,
24 que viera habitar a cidade.
25 De tarde, se o viam a passear pela margem do Tubiacanga, sentando-se aqui e ali, olhando perdidamente
26 as águas claras do riacho, cismando diante da penetrante melancolia do crepúsculo, todos se descobriam e não
27 era raro que às “boas noites” acrescentassem “doutor”. E tocava muito o coração daquela gente a profunda
28 simpatia com que ele tratava as crianças, a maneira pela qual as contemplava, parecendo apiedar-se de que
29 elas tivessem nascido para sofrer e morrer.
30 Na verdade, era de ver-se, sob a doçura suave da tarde, a bondade de Messias com que ele afagava
31 aquelas crianças pretas, tão lisas de pele e tão tristes de modos, mergulhadas no seu cativeiro moral, e também
32 as brancas, de pele baça, gretada e áspera, vivendo amparadas na necessária caquexia dos trópicos.
33 Por vezes, vinha-lhe vontade de pensar qual a razão de ter Bernardin de Saint-Pierre gasto toda a sua
34 ternura com Paulo e Virgínia e esquecer-se dos escravos que os cercavam...
35 Em poucos dias a admiração pelo sábio era quase geral, e não o era unicamente porque havia alguém que
36 não tinha em grande conta os méritos do novo habitante. Capitão Pelino, mestre-escola e redator da Gazeta de
37 Tubiacanga, órgão local e filiado ao partido situacionista, embirrava com o sábio. “Vocês hão de ver, dizia ele,
38 quem é esse tipo... Um caloteiro, um aventureiro ou talvez um ladrão fugido do Rio.”
39 A sua opinião em nada se baseava, ou antes, baseava-se no seu oculto despeito vendo na terra um rival
40 para a fama de sábio de que gozava. Não que Pelino fosse químico, longe disso; mas era sábio, era gramático.
41 Ninguém escrevia em Tubiacanga que não levasse bordoada do capitão Pelino, e mesmo quando se falava em
42 algum homem notável lá no Rio, ele não deixava de dizer: “Não há dúvida! O homem tem talento, mas escreve:
43 ‘um outro’, ‘de resto’... ”. E contraía os lábios como se tivesse engolido alguma coisa amarga.
44 Toda a vila de Tubiacanga acostumou-se a respeitar o solene Pelino, que corrigia e emendava as maiores
45 glórias nacionais. Um sábio...
46 Ao entardecer, depois de ler um pouco o Sotero, o Cândido de Figueiredo ou o Castro Lopes, e de ter
47 passado mais uma vez a tintura nos cabelos, o velho mestre-escola saía vagarosamente de casa, muito abotoado
48 no seu paletó de brim mineiro, e encaminhava-se para a botica do Bastos a dar dois dedos de prosa. Conversar
49 é um modo de dizer, porque era Pelino avaro de palavras, limitando-se tão somente a ouvir. Quando, porém,
50 dos lábios de alguém escapava a menor incorreção de linguagem, intervinha e emendava. “Eu asseguro, dizia o
51 agente do Correio, que... ” Por aí, o mestre-escola intervinha com mansuetude evangélica: “Não diga ‘asseguro’,
52 senhor Bernardes; em português é garanto”.
53 E a conversa continuava depois da emenda, para ser de novo interrompida por uma outra. Por essas e outras,
54 houve muitos palestradores que se afastaram, mas Pelino, indiferente, seguro dos seus deveres, continuava o
55 seu apostolado de vernaculismo. A chegada do sábio veio distraí-lo um pouco da sua missão. Todo o seu esforço
56 voltava-se agora para combater aquele rival, que surgia tão inopinadamente.
57 Foram vãs as suas palavras e a sua eloquência: não só Raimundo Flamel pagava em dia as suas contas,
58 como era generoso – pai da pobreza – e o farmacêutico vira numa revista de específicos seu nome citado como
59 químico de valor.
———
Quanto aos textos 1, 2 e 3, considere as seguintes afirmações:
I. O texto 1 e o texto 3 abordam, de forma direta ou indireta, o tema da ciência e da tecnologia como um sistema de cultura e pensamento.
II. O texto 2 e o texto 3 realizam um trabalho similar no campo da linguagem, caracterizado pelo uso de formas linguísticas inspiradas na oralidade e pela derrubada das regras e sistemas da gramática normativa.
III. Uma interpretação pertinente do texto 2 realça a expressão de um arrebatamento estético em face do industrialismo, enquanto o texto 1 realiza uma abordagem comparativa que relaciona a guerra ao empreendedorismo.
Está(ão) correta(s) a(s) assertiva(s):
- A)I, apenas.
- B)II, apenas.
- C)III, apenas.
- D)I e II, apenas.
- E)I e III, apenas.
IME20201a faseQuestao 1PortuguêsInterpretação de textoMediaA primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1 — O ALIENISTA (Capítulo IV — UMA TEORIA NOVA), de Machado de Assis
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
2 Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
3 bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
4 para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
6 Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
7 em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
8 – Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
9 Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
11 insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
12 separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
13 ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
14 Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
16 lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
17 quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
18 recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
19 Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
21 – Estou muito contente, disse ele.
22 – Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
23 O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
24 – Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
26 Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
27 experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
28 uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
29 Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
31 cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
32 exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
33 perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
34 especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
36 pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
37 boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
38 coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
39 – A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
41 Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
42 a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
43 nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
44 Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
46 divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
47 da matriz; – ou por meio de matraca.
48 Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
49 dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
51 incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
52 eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
53 inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
54 que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
56 aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
57 matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
58 cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
59 absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
61 – Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
62 insinuação do boticário.
63 E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
64 era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
66 Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
67 – Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
68 extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
69 razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
71 O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
72 chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
73 colossal que não merecia princípio de execução.
74 – Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
76 transpor a cerca?
77 Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
78 em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
79 entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
81 teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
82 revolução.
———
O soneto XIII de Via-Láctea, coleção publicada em 1888 no livro Poesias, é o texto mais famoso da antologia, obra de estreia do poeta Olavo Bilac. O texto, cuidadosamente ritmado, suas rimas e a escolha da forma fixa revelam rigor formal e estilístico caros ao movimento parnasiano; o tema do poema, no entanto, entra em colisão com o tema da literatura típica do movimento, tal como concebido no continente europeu.
Texto 2 — Soneto XIII (Via-Láctea), de Olavo Bilac
1 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
2 Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
3 Que, para ouvi-las, muita vez desperto
4 E abro as janelas, pálido de espanto…
5 E conversamos toda a noite, enquanto
6 A Via-láctea, como um pálio aberto,
7 Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
8 Inda as procuro pelo céu deserto.
9 Direis agora: "Tresloucado amigo!
10 Que conversas com elas? Que sentido
11 Tem o que dizem, quando estão contigo?"
12 E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
13 Pois só quem ama pode ter ouvido
14 Capaz de ouvir e de entender estrelas.”
———
Quanto aos textos apresentados, assinale a afirmativa que apresenta uma incorreção.
- A)Os dois textos lidam com a oposição sanidade versus loucura.
- B)Os dois textos pertencem ao mesmo movimento literário.
- C)O Texto 1 elabora uma crítica ácida ao cientificismo e, por extensão, à psiquiatria da época, enquanto o Texto 2, embora faça uma apologia à capacidade de amar que pode ser julgada insanidade mental, o faz de forma descompromissada em relação à ciência e ao cientificismo em voga na literatura do século XIX.
- D)Uma leitura possível do Texto 1 é a análise da relação entre o poder estabelecido e o saber técnico-científico, enquanto que o Texto 2 pode ser lido como uma singela ode ao amor.
- E)A forma fechada do Texto 2 é representativa de um ideal de perfeição formal; o Texto 1 se debruça sobre a questão da vaidade e da manipulação da verdade.
IME20201a faseQuestao 2PortuguêsInterpretação de textoDificilA primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1 — O ALIENISTA (Capítulo IV — UMA TEORIA NOVA), de Machado de Assis
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
2 Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
3 bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
4 para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
6 Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
7 em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
8 – Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
9 Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
11 insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
12 separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
13 ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
14 Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
16 lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
17 quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
18 recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
19 Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
21 – Estou muito contente, disse ele.
22 – Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
23 O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
24 – Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
26 Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
27 experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
28 uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
29 Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
31 cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
32 exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
33 perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
34 especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
36 pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
37 boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
38 coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
39 – A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
41 Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
42 a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
43 nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
44 Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
46 divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
47 da matriz; – ou por meio de matraca.
48 Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
49 dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
51 incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
52 eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
53 inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
54 que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
56 aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
57 matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
58 cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
59 absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
61 – Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
62 insinuação do boticário.
63 E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
64 era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
66 Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
67 – Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
68 extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
69 razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
71 O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
72 chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
73 colossal que não merecia princípio de execução.
74 – Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
76 transpor a cerca?
77 Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
78 em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
79 entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
81 teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
82 revolução.
———
O soneto XIII de Via-Láctea, coleção publicada em 1888 no livro Poesias, é o texto mais famoso da antologia, obra de estreia do poeta Olavo Bilac. O texto, cuidadosamente ritmado, suas rimas e a escolha da forma fixa revelam rigor formal e estilístico caros ao movimento parnasiano; o tema do poema, no entanto, entra em colisão com o tema da literatura típica do movimento, tal como concebido no continente europeu.
Texto 2 — Soneto XIII (Via-Láctea), de Olavo Bilac
1 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
2 Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
3 Que, para ouvi-las, muita vez desperto
4 E abro as janelas, pálido de espanto…
5 E conversamos toda a noite, enquanto
6 A Via-láctea, como um pálio aberto,
7 Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
8 Inda as procuro pelo céu deserto.
9 Direis agora: "Tresloucado amigo!
10 Que conversas com elas? Que sentido
11 Tem o que dizem, quando estão contigo?"
12 E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
13 Pois só quem ama pode ter ouvido
14 Capaz de ouvir e de entender estrelas.”
———
Sobre os Textos 1 e 2, analise as afirmações abaixo:
I. Os dois textos abordam tipos de estados alterados de consciência que se contrapõem à experiência da vida cotidiana.
II. Ambos os textos fazem uma apologia à loucura, segundo a qual a condição de insanidade pode revelar as mazelas morais da sociedade e da cultura.
III. Ambos estabelecem a apologia da razão compreendida como a faculdade superior do homem.
IV. Os dois textos realizam uma crítica ao cientificismo que considera a possibilidade de estabelecer uma linha de fronteira entre a sanidade e a loucura.
Em relação às afirmações, está(ão) correta(s):
- A)apenas a afirmação I.
- B)apenas a afirmação II.
- C)apenas as afirmações I e III.
- D)apenas as afirmações II e IV.
- E)todas as afirmações estão corretas.
IME20201a faseQuestao 3PortuguêsInterpretação de textoMediaA primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1 — O ALIENISTA (Capítulo IV — UMA TEORIA NOVA), de Machado de Assis
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
2 Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
3 bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
4 para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
6 Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
7 em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
8 – Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
9 Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
11 insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
12 separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
13 ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
14 Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
16 lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
17 quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
18 recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
19 Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
21 – Estou muito contente, disse ele.
22 – Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
23 O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
24 – Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
26 Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
27 experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
28 uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
29 Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
31 cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
32 exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
33 perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
34 especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
36 pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
37 boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
38 coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
39 – A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
41 Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
42 a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
43 nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
44 Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
46 divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
47 da matriz; – ou por meio de matraca.
48 Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
49 dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
51 incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
52 eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
53 inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
54 que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
56 aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
57 matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
58 cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
59 absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
61 – Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
62 insinuação do boticário.
63 E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
64 era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
66 Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
67 – Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
68 extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
69 razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
71 O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
72 chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
73 colossal que não merecia princípio de execução.
74 – Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
76 transpor a cerca?
77 Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
78 em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
79 entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
81 teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
82 revolução.
———
Segundo o Dicionário Houaiss, bacamarte é uma "antiga arma de fogo de cano largo e capa campânula". A escolha do nome da personagem central da trama do conto O Alienista antecipa
- A)a pressa por diagnosticar, causando confusão entre ciência e cientificismo; verdade e vaidade.
- B)a dissociação entre política, psiquiatria e poder que se revela no desenrolar do texto.
- C)o fato de que, em medicina, a prevenção é mais importante que a intervenção posterior à doença.
- D)a preocupação do médico com o bem-estar de seus pacientes.
- E)a preocupação do médico em manter a população de Itaguaí em segurança e estado de felicidade, já que os loucos representam um perigo para a sociedade.
IME20201a faseQuestao 6PortuguêsInterpretação de textoDificilA primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1 — O ALIENISTA (Capítulo IV — UMA TEORIA NOVA), de Machado de Assis
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
2 Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
3 bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
4 para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
6 Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
7 em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
8 – Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
9 Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
11 insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
12 separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
13 ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
14 Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
16 lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
17 quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
18 recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
19 Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
21 – Estou muito contente, disse ele.
22 – Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
23 O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
24 – Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
26 Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
27 experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
28 uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
29 Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
31 cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
32 exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
33 perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
34 especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
36 pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
37 boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
38 coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
39 – A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
41 Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
42 a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
43 nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
44 Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
46 divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
47 da matriz; – ou por meio de matraca.
48 Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
49 dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
51 incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
52 eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
53 inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
54 que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
56 aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
57 matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
58 cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
59 absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
61 – Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
62 insinuação do boticário.
63 E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
64 era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
66 Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
67 – Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
68 extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
69 razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
71 O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
72 chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
73 colossal que não merecia princípio de execução.
74 – Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
76 transpor a cerca?
77 Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
78 em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
79 entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
81 teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
82 revolução.
———
No Texto 1, o alienista Simão Bacamarte é descrito como um estudioso que disfarça, sob a aparência de humildade diante dos desafios do saber científico, a convicção da superioridade do cientista em relação às outras pessoas. Assinale o trecho que condiz com essa afirmativa.
- A)"Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes." (linhas 3 e 4)
- B)"Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante." (linhas 24 a 26)
- C)"Depois explicou compridamente a sua ideia." (linhas 29 e 30)
- D)"– A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério." (linha 39)
- E)"Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso, em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias entranhas." (linhas 77 a 79)
IME20201a faseQuestao 9PortuguêsInterpretação de textoDificilA primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1 — O ALIENISTA (Capítulo IV — UMA TEORIA NOVA), de Machado de Assis
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
2 Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
3 bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
4 para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
6 Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
7 em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
8 – Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
9 Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
11 insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
12 separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
13 ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
14 Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
16 lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
17 quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
18 recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
19 Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
21 – Estou muito contente, disse ele.
22 – Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
23 O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
24 – Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
26 Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
27 experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
28 uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
29 Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
31 cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
32 exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
33 perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
34 especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
36 pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
37 boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
38 coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
39 – A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
41 Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
42 a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
43 nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
44 Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
46 divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
47 da matriz; – ou por meio de matraca.
48 Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
49 dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
51 incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
52 eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
53 inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
54 que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
56 aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
57 matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
58 cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
59 absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
61 – Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
62 insinuação do boticário.
63 E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
64 era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
66 Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
67 – Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
68 extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
69 razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
71 O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
72 chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
73 colossal que não merecia princípio de execução.
74 – Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
76 transpor a cerca?
77 Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
78 em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
79 entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
81 teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
82 revolução.
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Considerando o trecho das linhas 48 a 60 do Texto 1 (sobre o uso da "matraca"), analise as seguintes afirmações:
I. O trecho "E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador" (linhas 57 e 58) produz o efeito do humor por descrever uma situação absurda, que, no entanto, foi considerada pelas pessoas como verdadeira.
II. No texto, a matraca foi retratada como uma forma segura e confiável de comunicação segundo a percepção da população da cidade de Itaguaí.
III. A frase "Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime mereciam o desprezo do nosso século." (linhas 59 e 60) exprime a concordância implícita do narrador com o menosprezo pelo uso da matraca.
Em relação às afirmações, está(ão) correta(s):
- A)apenas a afirmação I.
- B)apenas a afirmação II.
- C)apenas as afirmações I e III.
- D)apenas as afirmações II e III.
- E)todas as afirmações estão corretas.