Figuras de linguagem · IME

Figuras de linguagem: questões do IME

17 questões de Figuras de linguagem (Português) no IME (2011–2026). Treine de graça com correção e comentário.

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Questões de Figuras de linguagem no IME

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IME20261a faseQuestao 3PortuguêsFiguras de linguagemDificil
Texto 1 — CANÇÃO DO EXPEDICIONÁRIO 1 Você sabe de onde eu venho? 2 Venho do morro, do Engenho, 3 Das selvas, dos cafezais, 4 Da boa terra do coco, 5 Da choupana onde um é pouco, 6 Dois é bom, três é demais, 7 Venho das praias sedosas, 8 Das montanhas alterosas, 9 Dos pampas, do seringal, 10 Das margens crespas dos rios, 11 Dos verdes mares bravios 12 Da minha terra natal. 13 Por mais terras que eu percorra, 14 Não permita Deus que eu morra 15 Sem que volte para lá; 16 Sem que leve por divisa 17 Esse "V" que simboliza 18 A vitória que virá: 19 Nossa vitória final, 20 Que é a mira do meu fuzil, 21 A ração do meu bornal, 22 A água do meu cantil, 23 As asas do meu ideal, 24 A glória do meu Brasil. 25 Eu venho da minha terra, 26 Da casa branca da serra 27 E do luar do meu sertão; 28 Venho da minha Maria 29 Cujo nome principia 30 Na palma da minha mão, 31 Braços mornos de Moema, 32 Lábios de mel de Iracema 33 Estendidos para mim. 34 Ó minha terra querida 35 Da Senhora Aparecida 36 E do Senhor do Bonfim! 37 Você sabe de onde eu venho? 38 É de uma Pátria que tenho 39 No bojo do meu violão; 40 Que de viver em meu peito 41 Foi até tomando jeito 42 De um enorme coração. 43 Deixei lá atrás meu terreno, 44 Meu limão, meu limoeiro, 45 Meu pé de jacarandá, 46 Minha casa pequenina 47 Lá no alto da colina, 48 Onde canta o sabiá. 49 Venho do além desse monte 50 Que ainda azula o horizonte, 51 Onde o nosso amor nasceu; 52 Do rancho que tinha ao lado 53 Um coqueiro que, coitado, 54 De saudade já morreu. 55 Venho do verde mais belo, 56 Do mais dourado amarelo, 57 Do azul mais cheio de luz, 58 Cheio de estrelas prateadas, 59 Que se ajoelham deslumbradas, 60 Fazendo o sinal da Cruz! 61 Por mais terras que eu percorra, 62 Não permita Deus que eu morra 63 Sem que volte para lá; 64 Sem que leve por divisa 65 Esse "V" que simboliza 66 A vitória que virá: 67 Nossa vitória final, 68 Que é a mira do meu fuzil, 69 A ração do meu bornal, 70 A água do meu cantil, 71 As asas do meu ideal, 72 A glória do meu Brasil. (Guilherme de Almeida. Disponível em museuvirtualdafeb.eb.mil.br/cancao-expedicionario. Texto adaptado.) ——— Leia atentamente o excerto do texto 1 (linhas 55 a 60). Sobre o uso expressivo da linguagem no texto, considere as seguintes afirmações: I. O fragmento faz referência, metonimicamente, à bandeira do Brasil. II. Observa-se a ocorrência da figura de linguagem prosopopeia, uma vez que as ações de "ajoelhar" e "fazer o sinal da Cruz" são atribuídas ao substantivo "estrelas". III. Contribuindo para a musicalidade do texto, todos os versos apresentam rimas ricas, pois se busca similaridade sonora entre palavras de classes gramaticais distintas. Está(ão) CORRETA(S) apenas a(s) assertiva(s):
  1. A)I.
  2. B)II.
  3. C)III.
  4. D)I e II.
  5. E)II e III.
IME20261a faseQuestao 19PortuguêsFiguras de linguagemDificil
Texto 1 — CANÇÃO DO EXPEDICIONÁRIO 1 Você sabe de onde eu venho? 2 Venho do morro, do Engenho, 3 Das selvas, dos cafezais, 4 Da boa terra do coco, 5 Da choupana onde um é pouco, 6 Dois é bom, três é demais, 7 Venho das praias sedosas, 8 Das montanhas alterosas, 9 Dos pampas, do seringal, 10 Das margens crespas dos rios, 11 Dos verdes mares bravios 12 Da minha terra natal. 13 Por mais terras que eu percorra, 14 Não permita Deus que eu morra 15 Sem que volte para lá; 16 Sem que leve por divisa 17 Esse "V" que simboliza 18 A vitória que virá: 19 Nossa vitória final, 20 Que é a mira do meu fuzil, 21 A ração do meu bornal, 22 A água do meu cantil, 23 As asas do meu ideal, 24 A glória do meu Brasil. 25 Eu venho da minha terra, 26 Da casa branca da serra 27 E do luar do meu sertão; 28 Venho da minha Maria 29 Cujo nome principia 30 Na palma da minha mão, 31 Braços mornos de Moema, 32 Lábios de mel de Iracema 33 Estendidos para mim. 34 Ó minha terra querida 35 Da Senhora Aparecida 36 E do Senhor do Bonfim! 37 Você sabe de onde eu venho? 38 É de uma Pátria que tenho 39 No bojo do meu violão; 40 Que de viver em meu peito 41 Foi até tomando jeito 42 De um enorme coração. 43 Deixei lá atrás meu terreno, 44 Meu limão, meu limoeiro, 45 Meu pé de jacarandá, 46 Minha casa pequenina 47 Lá no alto da colina, 48 Onde canta o sabiá. 49 Venho do além desse monte 50 Que ainda azula o horizonte, 51 Onde o nosso amor nasceu; 52 Do rancho que tinha ao lado 53 Um coqueiro que, coitado, 54 De saudade já morreu. 55 Venho do verde mais belo, 56 Do mais dourado amarelo, 57 Do azul mais cheio de luz, 58 Cheio de estrelas prateadas, 59 Que se ajoelham deslumbradas, 60 Fazendo o sinal da Cruz! 61 Por mais terras que eu percorra, 62 Não permita Deus que eu morra 63 Sem que volte para lá; 64 Sem que leve por divisa 65 Esse "V" que simboliza 66 A vitória que virá: 67 Nossa vitória final, 68 Que é a mira do meu fuzil, 69 A ração do meu bornal, 70 A água do meu cantil, 71 As asas do meu ideal, 72 A glória do meu Brasil. (Guilherme de Almeida. Disponível em museuvirtualdafeb.eb.mil.br/cancao-expedicionario. Texto adaptado.) ——— Texto 2 — De volta ao básico: soldados finlandeses recorrem a mapas de papel para aprender a lidar com bloqueios de GPS 1 Soldados finlandeses estão treinando com mapas de papel e bússolas para garantir que consi- 2 gam operar em locais onde a atividade inimiga torne o GPS indisponível. O coronel Matti Honko, 3 comandante do Regimento Jaeger da Guarda Finlandesa, destacou que a ferramenta de navegação 4 por satélite, conhecida como Sistema de Posicionamento Global, ou simplesmente GPS, é vulnerável 5 a interferências. As informações são do Business Insider. 6 O conflito na Ucrânia tem sido marcado por uma intensa guerra cibernética de ambos os la- 7 dos. Tanto Kiev quanto Moscou utilizam táticas como bloqueio de sinal, falsificação de GPS e outros 8 métodos de interferência remota para confundir e desativar o armamento inimigo. A interferência no 9 GPS, por exemplo, tem causado problemas para os sistemas de combate — desde drones baratos até 10 munições guiadas sofisticadas. 11 Para garantir segurança e prontidão em locais onde o GPS não é uma opção, os soldados da 12 Guarda Finlandesa estão usando mapas de papel. "Acho que todos receberam o fato de que o 13 GPS pode ser falsificado, e você pode não ser capaz de confiar nele", afirma Honko. 14 Apesar disso, o coronel disse que a Finlândia não está abandonando completamente o uso do GPS. 15 Em vez disso, os soldados estão sendo ensinados a não depender exclusivamente dele e a aprender 16 a verificar a veracidade dos dados fornecidos pelo sistema, já que podem ser facilmente falsificados e 17 estar fora de sincronia com a situação real. 18 Honko afirma que esse treinamento está sendo realizado em todo o Exército Finlandês, bem como 19 na Marinha e na Força Aérea do país. Segundo ele, a proximidade da Finlândia com a Rússia obriga o 20 país a treinar alternativas, já que o bloqueio de sinal de GPS é uma estratégia comumente usada em 21 áreas de defesa da cidade vizinha de São Petersburgo, na Rússia. 22 Os desafios trazidos pelos ataques cibernéticos não são exclusivos da guerra na Ucrânia. No 23 Oriente Médio, por exemplo, a interferência de GPS tem ocorrido nos conflitos entre Israel e grupos 24 aliados do Irã. A tática também tem sido um problema no Mar Vermelho, onde forças navais ocidentais 25 passaram mais de um ano e meio defendendo rotas marítimas de ataques de rebeldes houthis no 26 Iêmen. 27 Quanto aos militares finlandeses, eles estão monitorando de perto as práticas de guerra eletrônica 28 em constante desenvolvimento e planejando cenários em que essas estratégias possam ser testadas 29 em combate. E não estão sozinhos. Empresas do setor de defesa também estão se certificando de 30 que seus produtos sejam mais resistentes a certos tipos de bloqueios e manipulações. Um exemplo 31 disso é a Saildrone, uma empresa americana que fabrica embarcações de superfície não tripuladas 32 para serviço de forças navais, incluindo a Marinha dos EUA. 33 Richard Jenkins, fundador e CEO da Saildrone, explicou que a empresa integrou tecnologia aos 34 seus veículos de superfície não tripulados (USVs), permitindo que eles operem em ambientes onde o 35 GPS e as comunicações estão comprometidos ou indisponíveis. Segundo Jenkins, alguns dos drones 36 da empresa operados pelos militares dos EUA no Oriente Médio têm navegado em áreas com sinal 37 falsificado há meses. 38 Jenkins disse acreditar que esse é o futuro da guerra. "Acho que, em um conflito real, os satélites 39 serão a primeira coisa a desaparecer completamente." Ele acrescenta ainda que todos precisam 40 descobrir como sobreviver sem satélites, GPS e comunicações. E, para os militares, isso significa 41 não apenas desenvolver novas tecnologias, mas também garantir que habilidades básicas sejam 42 preservadas. (Disponível em epocanegocios.globo.com. Acesso em 11 set 25. Texto adaptado.) ——— A metonímia é um recurso estilístico que consiste na substituição de um termo por outro com o qual mantém uma relação de proximidade ou contiguidade. Em "Canção do Expedicionário" (texto 1), a metonímia se faz presente em vários momentos — "Braços mornos de Moema," (linha 31), "Venho do verde mais belo," (linha 55) —, numa tentativa de trabalhar com representações simbólicas do Brasil que se quer lembrar e homenagear no texto. Assinale a alternativa que apresenta um fragmento do texto 2 em que também se tenha utilizado o recurso estilístico da metonímia.
  1. A)"Os desafios trazidos pelos ataques cibernéticos não são exclusivos da guerra na Ucrânia." (linha 22)
  2. B)"O conflito na Ucrânia tem sido marcado por uma intensa guerra cibernética de ambos os lados." (linhas 6 e 7)
  3. C)"Apesar disso, o coronel disse que a Finlândia não está abandonando completamente o uso do GPS." (linha 14)
  4. D)"Acho que todos precisam descobrir como sobreviver sem satélites [...]" (linhas 39 e 40)
  5. E)"E, para os militares, isso significa não apenas desenvolver novas tecnologias, mas também garantir que habilidades básicas sejam preservadas." (linhas 40 a 42)
IME20241a faseQuestao 13PortuguêsFiguras de linguagemMedia
Texto 2 — OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO (Carlos Drummond de Andrade) Carlos Drummond de Andrade foi poeta, contista e cronista da chamada segunda geração do modernismo brasileiro. Os temas das suas obras são variados e profundos, incluindo questões existenciais tais como o amor e o sentido da vida e da morte. O poema "Os ombros suportam o mundo" foi publicado em 1940. OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO 1 Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. 5 E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. Ficaste sozinho, a luz apagou-se, 10 mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. És todo certeza, já não sabes sofrer. E nada esperas de teus amigos. Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo 15 e ele não pesa mais que a mão de uma criança. As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Alguns, achando bárbaro o espetáculo, 20 prefeririam (os delicados) morrer. Chegou um tempo em que não adianta morrer. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação. ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do mundo. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 51. ——— Sabe-se que a estilística é a parte da gramática com a finalidade de promover efeitos expressivos na linguagem criativa, à vista disso, Carlos Drummond de Andrade usufruiu de diversos recursos estilísticos em sua obra: "Os ombros suportam o mundo". Sendo assim, podemos afirmar que no título do poema referenciado no texto 2 há a presença da figura de linguagem denominada:
  1. A)metonímia
  2. B)eufemismo
  3. C)personificação
  4. D)catacrese
  5. E)metáfora
IME20231a faseQuestao 3PortuguêsFiguras de linguagemMedia
Texto 1 Erico Verissimo (1905 – 1975), nascido em Cruz Alta (RS), foi um dos escritores mais populares da chamada segunda fase modernista, que começou na década de 1930. Sua obra mais conhecida é o “Tempo e o Vento”, uma trilogia de romances, na qual ele narra a história de um clã familiar, os Terra Cambarás, de 1745 até 1945, tendo como contexto a formação da fronteira nacional na região sul. O espaço central desses romances é a cidade fictícia de Santa Fé, situada no noroeste do Rio Grande do Sul. O texto “O Sobrado”, que integra o romance “O Continente”, versa sobre o chefe do clã, Licurgo Cambará, que resiste em casa ao cerco dos inimigos pertencentes ao clã oposto, dos Amaral. Na obra, é abordado um episódio da Revolução Federalista (1893 – 1895), uma guerra civil entre dois grupos de ideias opostas: um que desejava aumentar os poderes do presidente da República e outro que desejava uma maior autonomia aos estados. O SOBRADO Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado. Era tanto o silêncio e tão leve o ar, que se alguém aguçasse o ouvido talvez pudesse até escutar o sereno na solidão. Agachado atrás dum muro, José Lírio preparava-se para a última corrida. Quantos passos dali até a igreja? Talvez uns dez ou doze, bem puxados. Recebera ordens para revezar o companheiro que estava de vigia no alto duma das torres da Matriz. “Tenente Liroca”, dissera-lhe o coronel, havia poucos minutos, “suba pro alto do campanário e fique de olho firme no quintal do Sobrado. Se alguém aparecer pra tirar água do poço, faça fogo sem piedade.” José Lírio olhava a rua. Dez passos até a igreja. Mas quantos passos até a morte? Talvez cinco... ou dois. Havia um atirador infernal na água-furtada do Sobrado, à espreita dos imprudentes que se aventurassem a cruzar a praça ou alguma rua a descoberto. Os segundos passavam. Era preciso cumprir a ordem. Liroca não queria que ninguém percebesse que ele hesitava, que era um covarde. Sim, covarde. Podia enganar os outros, mas não conseguia iludir-se a si mesmo. Estava metido naquela revolução porque era federalista e tinha vergonha na cara. Mas não se habituava nunca ao perigo. Sentira medo desde o primeiro dia, desde a primeira hora — um medo que lhe vinha de baixo, das tripas, e lhe subia pelo estômago até a goela, como uma geada, amolecendo-lhe as pernas, os braços, a vontade. Medo é doença; medo é febre. Engraçado. A noite estava fria mas o suor escorria-lhe pela cara barbuda e entrava-lhe na boca, com gosto de salmoura. O tiroteio cessara ao entardecer. Talvez a munição da gente do Sobrado tivesse acabado. Ele podia atravessar a rua devagarinho, assobiando e acendendo um cigarro. Seria até uma provocação bonita. Vamos, Liroca, honra o lenço encarnado. Mas qual! Lá estava aquela sensação fria de vazio e enjoo na boca do estômago, o minuano gelado nos miúdos. Donde lhe vinha tanto medo? Decerto do sangue da mãe, pois as gentes do lado paterno eram corajosas. O avô de Liroca fora um bravo em 35. O pai lhe morrera naquela mesma revolução, havia pouco mais dum ano tombara estripado numa carga de lança, mas lutando até o último momento. “Lírio é macho”, murmurou Liroca para si mesmo. “Lírio é macho.” Sempre que ia entrar num combate, repetia estas palavras: “Lírio é macho”. Levantou-se devagarinho, apertando a carabina com ambas as mãos. Sentia o corpo dorido, a garganta seca. Tornou a olhar para a igreja. Dez passos. Podia percorrê-los nuns cinco segundos, quando muito. Era só um upa e estava tudo terminado. Fez avançar cautelosamente a cabeça e, com a quina do muro a tocar-lhe o meio da testa e a ponta do nariz, fechou o olho direito e com o esquerdo ficou espiando o Sobrado que lá estava, do outro lado da praça, com sua fachada branca, a dupla fileira de janelas, a sacada de ferro e os altos muros de fortaleza. Havia no casarão algo de terrivelmente humano que fez o coração de José Lírio pulsar com mais força. Os federalistas tinham tomado a cidade havia quase uma semana, mas Licurgo Cambará, o intendente e chefe político republicano do município, encastelara-se em sua casa com toda a família e um grupo de correligionários, e de lá ainda oferecia resistência. Enquanto o Sobrado não capitulasse, os revolucionários não poderiam considerar-se senhores de Santa Fé, pois os atiradores da água-furtada praticamente dominavam a praça e as ruas em derredor. Por alguns instantes José Lírio ficou a mirar a fachada do casarão, e de repente a lembrança de que Maria Valéria estava lá dentro lhe varou o peito como um pontaço de lança. Soltou um suspiro fundo e entrecortado, que foi quase um soluço. De novo se encolheu atrás do muro e tornou a olhar para a igreja. Se conseguisse chegar a salvo até a parede lateral, ficaria fora do alcance do atirador do Sobrado, e poderia entrar no campanário pela porta da sacristia. Vamos, Liroca, só uma corrida. Que te pode acontecer? O homem te enxerga, faz pontaria, atira e acerta. Uma bala na cabeça. Pronto! Cais de cara no chão e está tudo liquidado. Acaba-se a agonia. Dizem que quando a bala entra no corpo da gente, no primeiro momento não dói. Depois é que vem a ardência, como se ela fosse de ferro em brasa. Mas quando o ferimento é mortal não se sente nada. O pior é arma branca. Vamos, Liroca. Dez passos. Cinco segundos. Lírio é macho, Lírio é macho. José Lírio continuava imóvel, olhando a rua. Ainda ontem um companheiro seu ousara atravessar aquele trecho à luz do dia, num momento em que o tiroteio cessara. Ia cantando e fanfarronando. Viu-se de repente na água-furtada do sobrado um clarão acompanhado dum estampido, e o homem tombou. O sangue começou a borbotar-lhe do peito e a empapar a terra. “Vamos, menino!” Quem falava agora nos pensamentos de Liroca era seu pai, o velho Maneco Lírio. Sua voz áspera como lixa vinha de longe, de um certo dia da infância em que Liroca faltara à escola e ao chegar a casa encontrara o pai atrás da porta com um rebenque na mão. “Agora tu me pagas, salafrário!” Liroca saíra a correr como um doido na direção do fundo do quintal. “Espera, poltrão!” E de repente o que o velho Maneco tinha nas mãos não era mais o chicote, e sim as próprias vísceras, que lhe escorriam moles e visguentas da ferida do ventre. “Vamos, covarde!” De súbito, como tomado dum demônio, Liroca ergueu-se, apertou a carabina contra o peito e deitou a correr na direção da igreja. Seus passos soaram fofos na terra. Deu cinco passadas e a meio caminho, sem olhar para o Sobrado, numa voz frenética de quem pede socorro, gritou: “Pica-paus do inferno! Sou homem!”. Continuou a correr e, ao chegar ao ponto morto atrás da parede lateral da igreja, rojou-se ao solo e ali ficou, arquejante, com o peito colado à terra, o coração a bater acelerado, e sentindo entrar-lhe na boca e nas narinas talos de grama úmida de sereno. “A la fresca!”, murmurou ele. “A la fresca!” Estava inteiro, estava salvo. Fechou os olhos e deixou-se quedar onde estava, babujando a terra com sua saliva grossa, a garganta a arder, e o corpo todo amolentado por uma fraqueza que lhe dava um trêmulo desejo de chorar. VERISSIMO, Erico. O tempo e o vento, parte I: O Continente. 4ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 17-19 (texto adaptado). Dentre os recursos semânticos utilizados no texto 1 para exprimir vários significados, assinale a opção correta relacionada à figura de linguagem encontrada na expressão destacada no trecho abaixo: “Era tanto o silêncio e tão leve o ar, que se alguém aguçasse o ouvido talvez pudesse até escutar o sereno na solidão” (linhas 2 e 3)
  1. A)sinestesia
  2. B)metáfora
  3. C)paradoxo
  4. D)personificação
  5. E)antítese
IME20221a faseQuestao 7PortuguêsFiguras de linguagemDificil
Texto 2 — ODE TRIUNFAL (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos) 1 À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica 2 Tenho febre e escrevo. 3 Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, 4 Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos. 5 Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! 6 Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! 7 Em fúria fora e dentro de mim, 8 Por todos os meus nervos dissecados fora, 9 Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! 10 Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, 11 De vos ouvir demasiadamente de perto, 12 E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso 13 De expressão de todas as minhas sensações, 14 Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas! 15 Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical — 16 Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força — 17 Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro, 18 Porque o presente é todo o passado e todo o futuro 19 E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas 20 Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão, 21 E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta, 22 Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem, 23 Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes, 24 Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando, 25 Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma. 26 Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! 27 Ser completo como uma máquina! 28 Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo! 29 Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, 30 Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento 31 A todos os perfumes de óleos e calores e carvões 32 Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável! 33 Fraternidade com todas as dinâmicas! 34 Promíscua fúria de ser parte-agente 35 Do rodar férreo e cosmopolita 36 Dos comboios estrênuos, 37 Da faina transportadora-de-cargas dos navios, 38 Do giro lúbrico e lento dos guindastes, 39 Do tumulto disciplinado das fábricas, 40 E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão! 41 Horas europeias, produtoras, entaladas 42 Entre maquinismos e afazeres úteis! 43 Grandes cidades paradas nos cafés, 44 Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas 45 Onde se cristalizam e se precipitam 46 Os rumores e os gestos do Útil 47 E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo! 48 Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares! 49 Novos entusiasmos de estatura do Momento! ——— Considere o excerto do texto 2 (linhas 1 a 4) que começa em "À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica". Sobre ele: I. Constata-se a utilização recorrente da figura de linguagem do quiasmo, no intuito de enfatizar sentidos e de obter assonâncias. II. No verso "À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica..." o poeta se refere aos procedimentos usados para elaborar seus versos. III. O vocábulo "fera" (linha 3) é um substantivo que exprime a ideia de eficiência e excelência no desempenho de uma atividade. Está(ão) correta(s) a(s) assertiva(s):
  1. A)I, apenas.
  2. B)II, apenas.
  3. C)III, apenas.
  4. D)I e II, apenas.
  5. E)I e III, apenas.
IME20221a faseQuestao 8PortuguêsFiguras de linguagemDificil
Texto 2 — ODE TRIUNFAL (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos) 1 À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica 2 Tenho febre e escrevo. 3 Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, 4 Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos. 5 Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! 6 Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! 7 Em fúria fora e dentro de mim, 8 Por todos os meus nervos dissecados fora, 9 Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! 10 Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, 11 De vos ouvir demasiadamente de perto, 12 E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso 13 De expressão de todas as minhas sensações, 14 Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas! 15 Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical — 16 Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força — 17 Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro, 18 Porque o presente é todo o passado e todo o futuro 19 E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas 20 Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão, 21 E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta, 22 Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem, 23 Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes, 24 Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando, 25 Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma. 26 Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! 27 Ser completo como uma máquina! 28 Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo! 29 Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, 30 Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento 31 A todos os perfumes de óleos e calores e carvões 32 Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável! 33 Fraternidade com todas as dinâmicas! 34 Promíscua fúria de ser parte-agente 35 Do rodar férreo e cosmopolita 36 Dos comboios estrênuos, 37 Da faina transportadora-de-cargas dos navios, 38 Do giro lúbrico e lento dos guindastes, 39 Do tumulto disciplinado das fábricas, 40 E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão! 41 Horas europeias, produtoras, entaladas 42 Entre maquinismos e afazeres úteis! 43 Grandes cidades paradas nos cafés, 44 Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas 45 Onde se cristalizam e se precipitam 46 Os rumores e os gestos do Útil 47 E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo! 48 Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares! 49 Novos entusiasmos de estatura do Momento! ——— Considere o excerto do texto 2 (linhas 5 a 9) que começa em "Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!". À luz da gramática normativa: I. No trecho "Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!", são usadas a antonomásia e a onomatopeia, para sugerir a ideia de uma comunicação do eu lírico com as máquinas. II. O vocábulo "fora" (linha 7) é uma expressão modificadora que denota uma circunstância de lugar. III. Os pontos de exclamação são empregados com a finalidade de exprimir o estado emocional de surpresa do poeta. Está(ão) correta(s) a(s) assertiva(s):
  1. A)I, apenas.
  2. B)II, apenas.
  3. C)III, apenas.
  4. D)I e II, apenas.
  5. E)II e III, apenas.
IME20221a faseQuestao 10PortuguêsFiguras de linguagemDificil
Texto 2 — ODE TRIUNFAL (Fernando Pessoa / Álvaro de Campos) 1 À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica 2 Tenho febre e escrevo. 3 Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, 4 Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos. 5 Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! 6 Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! 7 Em fúria fora e dentro de mim, 8 Por todos os meus nervos dissecados fora, 9 Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! 10 Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, 11 De vos ouvir demasiadamente de perto, 12 E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso 13 De expressão de todas as minhas sensações, 14 Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas! 15 Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical — 16 Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força — 17 Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro, 18 Porque o presente é todo o passado e todo o futuro 19 E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas 20 Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão, 21 E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta, 22 Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem, 23 Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes, 24 Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando, 25 Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma. 26 Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! 27 Ser completo como uma máquina! 28 Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo! 29 Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, 30 Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento 31 A todos os perfumes de óleos e calores e carvões 32 Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável! 33 Fraternidade com todas as dinâmicas! 34 Promíscua fúria de ser parte-agente 35 Do rodar férreo e cosmopolita 36 Dos comboios estrênuos, 37 Da faina transportadora-de-cargas dos navios, 38 Do giro lúbrico e lento dos guindastes, 39 Do tumulto disciplinado das fábricas, 40 E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão! 41 Horas europeias, produtoras, entaladas 42 Entre maquinismos e afazeres úteis! 43 Grandes cidades paradas nos cafés, 44 Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas 45 Onde se cristalizam e se precipitam 46 Os rumores e os gestos do Útil 47 E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo! 48 Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares! 49 Novos entusiasmos de estatura do Momento! ——— Em relação ao texto 2, considere as expressões em negrito e assinale a alternativa que evidencia a construção de analogias entre as máquinas e os entes da natureza:
  1. A)"Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, de vos ouvir demasiadamente de perto." (linhas 10 e 11)
  2. B)"Horas europeias, produtoras, entaladas entre maquinismos e afazeres úteis! Grandes cidades paradas nos cafés [...]" (linhas 41 a 43)
  3. C)"Os rumores e os gestos do Útil e as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!" (linhas 46 e 47)
  4. D)"A todos os perfumes de óleos e calores e carvões desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!" (linhas 31 e 32)
  5. E)"E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão." (linhas 19 e 20)
IME20221a faseQuestao 16PortuguêsFiguras de linguagemMedia
Texto 3 — A NOVA CALIFÓRNIA (Lima Barreto) 1 Ninguém sabia donde viera aquele homem. O agente do Correio pudera apenas informar que acudia ao 2 nome de Raimundo Flamel, pois assim era subscrita a correspondência que recebia. E era grande. Quase 3 diariamente, o carteiro lá ia a um dos extremos da cidade, onde morava o desconhecido, sopesando um maço 4 alentado de cartas vindas do mundo inteiro, grossas revistas em línguas arrevesadas, livros, pacotes... 5 Quando Fabrício, o pedreiro, voltou de um serviço em casa do novo habitante, todos na venda perguntaram- 6 lhe que trabalho lhe tinha sido determinado. 7 – Vou fazer um forno, disse o preto, na sala de jantar. 8 Imaginem o espanto da pequena cidade de Tubiacanga, ao saber de tão extravagante construção: um forno 9 na sala de jantar! E, pelos dias seguintes, Fabrício pôde contar que vira balões de vidros, facas sem corte, copos 10 como os da farmácia – um rol de coisas esquisitas a se mostrarem pelas mesas e prateleiras como utensílios 11 de uma bateria de cozinha em que o próprio diabo cozinhasse. O alarme se fez na vila. Para uns, os mais 12 adiantados, era um fabricante de moeda falsa; para outros, os crentes e simples, um tipo que tinha parte com o 13 tinhoso. 14 Chico da Tirana, o carreiro, quando passava em frente da casa do homem misterioso, ao lado do carro a 15 chiar, e olhava a chaminé da sala de jantar a fumegar, não deixava de persignar-se e rezar um “credo” em voz 16 baixa; e, não fora a intervenção do farmacêutico, o subdelegado teria ido dar um cerco à casa daquele indivíduo 17 suspeito, que inquietava a imaginação de toda uma população. 18 Tomando em consideração as informações de Fabrício, o boticário Bastos concluíra que o desconhecido 19 devia ser um sábio, um grande químico, refugiado ali para mais sossegadamente levar avante os seus trabalhos 20 científicos. 21 Homem formado e respeitado na cidade, vereador, médico também, porque o doutor Jerônimo não gostava 22 de receitar e se fizera sócio da farmácia para mais em paz viver, a opinião de Bastos levou tranquilidade a todas 23 as consciências e fez com que a população cercasse de uma silenciosa admiração a pessoa do grande químico, 24 que viera habitar a cidade. 25 De tarde, se o viam a passear pela margem do Tubiacanga, sentando-se aqui e ali, olhando perdidamente 26 as águas claras do riacho, cismando diante da penetrante melancolia do crepúsculo, todos se descobriam e não 27 era raro que às “boas noites” acrescentassem “doutor”. E tocava muito o coração daquela gente a profunda 28 simpatia com que ele tratava as crianças, a maneira pela qual as contemplava, parecendo apiedar-se de que 29 elas tivessem nascido para sofrer e morrer. 30 Na verdade, era de ver-se, sob a doçura suave da tarde, a bondade de Messias com que ele afagava 31 aquelas crianças pretas, tão lisas de pele e tão tristes de modos, mergulhadas no seu cativeiro moral, e também 32 as brancas, de pele baça, gretada e áspera, vivendo amparadas na necessária caquexia dos trópicos. 33 Por vezes, vinha-lhe vontade de pensar qual a razão de ter Bernardin de Saint-Pierre gasto toda a sua 34 ternura com Paulo e Virgínia e esquecer-se dos escravos que os cercavam... 35 Em poucos dias a admiração pelo sábio era quase geral, e não o era unicamente porque havia alguém que 36 não tinha em grande conta os méritos do novo habitante. Capitão Pelino, mestre-escola e redator da Gazeta de 37 Tubiacanga, órgão local e filiado ao partido situacionista, embirrava com o sábio. “Vocês hão de ver, dizia ele, 38 quem é esse tipo... Um caloteiro, um aventureiro ou talvez um ladrão fugido do Rio.” 39 A sua opinião em nada se baseava, ou antes, baseava-se no seu oculto despeito vendo na terra um rival 40 para a fama de sábio de que gozava. Não que Pelino fosse químico, longe disso; mas era sábio, era gramático. 41 Ninguém escrevia em Tubiacanga que não levasse bordoada do capitão Pelino, e mesmo quando se falava em 42 algum homem notável lá no Rio, ele não deixava de dizer: “Não há dúvida! O homem tem talento, mas escreve: 43 ‘um outro’, ‘de resto’... ”. E contraía os lábios como se tivesse engolido alguma coisa amarga. 44 Toda a vila de Tubiacanga acostumou-se a respeitar o solene Pelino, que corrigia e emendava as maiores 45 glórias nacionais. Um sábio... 46 Ao entardecer, depois de ler um pouco o Sotero, o Cândido de Figueiredo ou o Castro Lopes, e de ter 47 passado mais uma vez a tintura nos cabelos, o velho mestre-escola saía vagarosamente de casa, muito abotoado 48 no seu paletó de brim mineiro, e encaminhava-se para a botica do Bastos a dar dois dedos de prosa. Conversar 49 é um modo de dizer, porque era Pelino avaro de palavras, limitando-se tão somente a ouvir. Quando, porém, 50 dos lábios de alguém escapava a menor incorreção de linguagem, intervinha e emendava. “Eu asseguro, dizia o 51 agente do Correio, que... ” Por aí, o mestre-escola intervinha com mansuetude evangélica: “Não diga ‘asseguro’, 52 senhor Bernardes; em português é garanto”. 53 E a conversa continuava depois da emenda, para ser de novo interrompida por uma outra. Por essas e outras, 54 houve muitos palestradores que se afastaram, mas Pelino, indiferente, seguro dos seus deveres, continuava o 55 seu apostolado de vernaculismo. A chegada do sábio veio distraí-lo um pouco da sua missão. Todo o seu esforço 56 voltava-se agora para combater aquele rival, que surgia tão inopinadamente. 57 Foram vãs as suas palavras e a sua eloquência: não só Raimundo Flamel pagava em dia as suas contas, 58 como era generoso – pai da pobreza – e o farmacêutico vira numa revista de específicos seu nome citado como 59 químico de valor. ——— Entre os recursos semânticos utilizados no texto 3, assinale a opção correta relacionada à classificação da figura de linguagem encontrada no trecho: "[...] Ao entardecer, depois de ler um pouco o Sotero". (texto 3, linha 46)
  1. A)anáfora
  2. B)metonímia
  3. C)paronomásia
  4. D)metáfora
  5. E)personificação
IME20211a faseQuestao 8PortuguêsFiguras de linguagemMedia
Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões" aborda os acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados, para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa, gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical. Texto 1 CAPÍTULO 3 A GUERRA DAS CAATINGAS Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência, perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes — e formulam leis para a guerra, pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais — guerreiros de cujas mãos caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista — se ouvissem a alguém que às caatingas pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado a sua importância para a defesa do território — orlando as fronteiras e quebrando o embate às invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias —, se tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente, aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais opostos valores. Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis, ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu. E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível... As caatingas não o escondem apenas, amparam-no. Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas, nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas, prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados. É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos... De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro... A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas, outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem. Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras. E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita, pela frente agora, irrompendo de toda a banda... Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas... Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores invisíveis batendo em cheio nas fileiras. A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz; — e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. À força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas. Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o antagonismo formidável da caatinga. As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando, adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos... Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras... Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; — enquanto em torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem inflexivelmente os projetis do adversário. De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu. As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos... (...) A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória. Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo um seio carinhoso e amigo. (...) A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado fazendo vacilar a marcha dos exércitos. CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2º ed. São Paulo: Editora Ciranda Cultural, 2018. p. 181-186. 'E voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...' (Texto 1, linhas 65 a 68). No trecho acima, os dois pontos servem para introduzir um(a):
  1. A)síntese.
  2. B)citação.
  3. C)explicação.
  4. D)enumeração.
  5. E)diálogo.
IME20211a faseQuestao 12PortuguêsFiguras de linguagemMedia
Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões" aborda os acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados, para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa, gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical. Texto 1 CAPÍTULO 3 A GUERRA DAS CAATINGAS Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência, perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes — e formulam leis para a guerra, pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais — guerreiros de cujas mãos caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista — se ouvissem a alguém que às caatingas pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado a sua importância para a defesa do território — orlando as fronteiras e quebrando o embate às invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias —, se tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente, aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais opostos valores. Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis, ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu. E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível... As caatingas não o escondem apenas, amparam-no. Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas, nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas, prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados. É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos... De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro... A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas, outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem. Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras. E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita, pela frente agora, irrompendo de toda a banda... Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas... Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores invisíveis batendo em cheio nas fileiras. A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz; — e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. À força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas. Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o antagonismo formidável da caatinga. As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando, adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos... Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras... Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; — enquanto em torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem inflexivelmente os projetis do adversário. De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu. As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos... (...) A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória. Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo um seio carinhoso e amigo. (...) A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado fazendo vacilar a marcha dos exércitos. CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2º ed. São Paulo: Editora Ciranda Cultural, 2018. p. 181-186. No Texto 1, o autor utiliza figuras de linguagem relacionando o sertão ao mar. A opção que evidencia o uso desse recurso expressivo é:
  1. A)'(...) oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas (...)' (linha 10).
  2. B)'Lampeja por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas (...)' (linhas 51 e 52).
  3. C)'(...) entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...' (linha 57).
  4. D)'Distende-se pela orla da caatinga' (linha 37).
  5. E)'(...) e quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos (...)' (linhas 70 e 71).
IME20201a faseQuestao 14PortuguêsFiguras de linguagemMedia
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se. Texto 1 — O ALIENISTA (Capítulo IV — UMA TEORIA NOVA), de Machado de Assis 1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão 2 Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as 3 bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco 4 para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e 5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos. 6 Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado 7 em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar. 8 – Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador. 9 Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da 10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto 11 insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram 12 separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe 13 ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária? 14 Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda; 15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o 16 lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros, 17 quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o 18 recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde. 19 Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada 20 de circunspeção até o pescoço. 21 – Estou muito contente, disse ele. 22 – Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula. 23 O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu: 24 – Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, 25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr. 26 Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma 27 experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora 28 uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente. 29 Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou 30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de 31 cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os 32 exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o 33 perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com 34 especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um 35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e 36 pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o 37 boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma 38 coisa, e até acrescentou sentenciosamente: 39 – A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério. 40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu. 41 Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas 42 a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um 43 nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”. 44 Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as 45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de 46 divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e 47 da matriz; – ou por meio de matraca. 48 Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais 49 dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão. 50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe 51 incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo 52 eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha 53 inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação 54 que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à 55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e 56 aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a 57 matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto 58 cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à 59 absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime 60 mereciam o desprezo do nosso século. 61 – Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à 62 insinuação do boticário. 63 E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que 64 era melhor começar pela execução. 65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele. 66 Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse: 67 – Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso 68 extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da 69 razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, 70 insânia e só insânia. 71 O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não 72 chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo 73 colossal que não merecia princípio de execução. 74 – Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão 75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que 76 transpor a cerca? 77 Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso, 78 em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias 79 entranhas. 80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a 81 teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma 82 revolução. ——— No trecho "Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada de circunspeção até o pescoço." (linhas 19 e 20), a figura de linguagem construída no segmento "uma alegria abotoada de circunspeção até o pescoço" é a(o)
  1. A)ambiguidade.
  2. B)apóstrofe.
  3. C)sinestesia.
  4. D)personificação.
  5. E)hipérbato.
IME20191a faseQuestao 13PortuguêsFiguras de linguagemMedia
Leia o Texto 2 (poema “O Elefante”), reproduzido na imagem, para responder à questão. Considere os versos 95 a 98 do texto 2: “e todo o seu conteúdo / de perdão, de carícia, / de pluma, de algodão, / jorra sobre o tapete,”. A figura de linguagem construída a partir de uma relação entre os campos semânticos evocados pelo título do poema e de seus versos acima destacados é a(o)
Imagens anexadas
  1. A)ambiguidade.
  2. B)apóstrofe.
  3. C)antítese.
  4. D)eufemismo.
  5. E)metonímia.
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