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ITA20161a faseQuestao 28PortuguêsSemânticaMediaLeia o Texto 1 para responder à questão.
Texto 1 (Rubem Alves)
Vou confessar um pecado: às vezes, faço maldades. Mas não faço por mal. Faço o que faziam os
mestres zen com seus "koans". "Koans" eram rasteiras que os mestres passavam no pensamento dos
discípulos. Eles sabiam que só se aprende o novo quando as certezas velhas caem. E acontece que eu
gosto de passar rasteiras em certezas de jovens e de velhos...
Pois o que eu faço é o seguinte. Lá estão os jovens nos semáforos, de cabeças raspadas e caras
pintadas, na maior alegria, celebrando o fato de haverem passado no vestibular. Estão pedindo dinheiro para
a festa! Eu paro o carro, abro a janela e na maior seriedade digo: "Não vou dar dinheiro. Mas vou dar um
conselho. Sou professor emérito da Unicamp. O conselho é este: salvem-se enquanto é tempo!". Aí o sinal
fica verde e eu continuo.
"Mas que desmancha-prazeres você é!", vocês me dirão. É verdade. Desmancha-prazeres. Prazeres
inocentes baseados no engano. Porque aquela alegria toda se deve precisamente a isto: eles estão
enganados.
Estão alegres porque acreditam que a universidade é a chave do mundo. Acabaram de chegar ao
último patamar. As celebrações têm o mesmo sentido que os eventos iniciáticos – nas culturas ditas
primitivas, as provas a que têm de se submeter os jovens que passaram pela puberdade. Passadas as
provas e os seus sofrimentos, os jovens deixaram de ser crianças. Agora são adultos, com todos os seus
direitos e deveres. Podem assentar-se na roda dos homens. Assim como os nossos jovens agora podem
dizer: "Deixei o cursinho. Estou na universidade".
Houve um tempo em que as celebrações eram justas. Isso foi há muito tempo, quando eu era jovem.
Naqueles tempos, um diploma universitário era garantia de trabalho. Os pais se davam como prontos para
morrer quando uma destas coisas acontecia: 1) a filha se casava. Isso garantia o seu sustento pelo resto da
vida; 2) a filha tirava o diploma de normalista. Isso garantiria o seu sustento caso não casasse; 3) o filho
entrava para o Banco do Brasil; 4) o filho tirava diploma.
O diploma era mais que garantia de emprego. Era um atestado de nobreza. Quem tirava diploma não
precisava trabalhar com as mãos, como os mecânicos, pedreiros e carpinteiros, que tinham mãos rudes e
sujas.
Para provar para todo mundo que não trabalhavam com as mãos, os diplomados tratavam de pôr no
dedo um anel com pedra colorida. Havia pedras para todas as profissões: médicos, advogados, músicos,
engenheiros. Até os bispos tinham suas pedras.
(Ah! Ia me esquecendo: os pais também se davam como prontos para morrer quando o filho entrava
para o seminário para ser padre – aos 45 anos seria bispo – ou para o exército para ser oficial – aos 45 anos
seria general.)
Essa ilusão continua a morar na cabeça dos pais e é introduzida na cabeça dos filhos desde
pequenos. Profissão honrosa é profissão que tem diploma universitário. Profissão rendosa é a que tem
diploma universitário. Cria-se, então, a fantasia de que as únicas opções de profissão são aquelas oferecidas
pelas universidades.
Quando se pergunta a um jovem "O que é que você vai fazer?", o sentido dessa pergunta é "Quando
você for preencher os formulários do vestibular, qual das opções oferecidas você vai escolher?". E as
opções não oferecidas? Haverá alternativas de trabalho que não se encontram nos formulários de
vestibular?
Como todos os pais querem que seus filhos entrem na universidade e (quase) todos os jovens querem
entrar na universidade, configura-se um mercado imenso, mas imenso mesmo, de pessoas desejosas de
diplomas e prontas a pagar o preço. Enquanto houver jovens que não passam nos vestibulares das
universidades do Estado, haverá mercado para a criação de universidades particulares. É um bom negócio.
Alegria na entrada. Tristeza ao sair. Forma-se, então, a multidão de jovens com diploma na mão, mas
que não conseguem arranjar emprego. Por uma razão aritmética: o número de diplomados é muitas vezes
maior que o número de empregos.
Já sugeri que os jovens que entram na universidade deveriam aprender, junto com o curso "nobre"
que frequentam, um ofício: marceneiro, mecânico, cozinheiro, jardineiro, técnico de computador, eletricista,
encanador, descupinizador, motorista de trator... O rol de ofícios possíveis é imenso. Pena que, nas escolas,
as crianças e os jovens não sejam informados sobre essas alternativas, por vezes mais felizes e mais
rendosas.
Tive um amigo professor que foi guindado, contra a sua vontade, à posição de reitor de um grande
colégio americano no interior de Minas. Ele odiava essa posição porque era obrigado a fazer discursos. E ele
tremia de medo de fazer discursos. Um dia ele desapareceu sem explicações. Voltou com a família para o
seu país, os Estados Unidos. Tempos depois, encontrei um amigo comum e perguntei: "Como vai o
Fulano?". Respondeu-me: "Felicíssimo. É motorista de um caminhão gigantesco que cruza o país!".
(Rubem Alves. Diploma não é solução, Folha de S. Paulo, 25/05/2004.)
Assinale a opção em que o verbo «ter» apresenta valor semântico diferente das demais.
- A)As celebrações têm o mesmo sentido que os eventos iniciáticos [...]. (linha 14)
- B)[...] as provas a que têm de se submeter os jovens que passaram pela puberdade. (linha 15)
- C)[...] como os mecânicos, pedreiros e carpinteiros, que tinham as mãos rudes e sujas. (linhas 25 e 26)
- D)Profissão honrosa é profissão que tem diploma universitário. (linha 34)
- E)Tive um amigo professor que foi guindado, contra a sua vontade, à posição de reitor [...] (linha 53)
ITA20151a faseQuestao 26PortuguêsSemânticaDificilLeia o Texto 1, de Rubem Braga — publicado pela primeira vez em 1952, no jornal Correio da Manhã, do Rio —, para responder à questão.
TEXTO 1
1 José Leal fez uma reportagem na Ilha das Flores, onde ficam os imigrantes logo que chegam. E
2 falou dos equívocos de nossa política imigratória. As pessoas que ele encontrou não eram agricultores e
3 técnicos, gente capaz de ser útil. Viu músicos profissionais, bailarinas austríacas, cabeleireiras lituanas.
4 Paul Balt toca acordeão, Ivan Donef faz coquetéis, Galar Bedrich é vendedor, Serof Nedko é ex-oficial,
5 Luigi Tonizo é jogador de futebol, Ibolya Pohl é costureira. Tudo gente para o asfalto, “para entulhar as
6 grandes cidades”, como diz o repórter.
7 O repórter tem razão. Mas eu peço licença para ficar imaginando uma porção de coisas vagas, ao
8 olhar essas belas fotografias que ilustram a reportagem. Essa linda costureirinha morena de Badajoz,
9 essa Ingeborg que faz fotografias e essa Irgard que não faz coisa alguma, esse Stefan Cromick cuja
10 única experiência na vida parece ter sido vender bombons – não, essa gente não vai aumentar a
11 produção de batatinhas e quiabos nem plantar cidades no Brasil Central.
12 É insensato importar gente assim. Mas o destino das pessoas e dos países também é, muitas
13 vezes, insensato: principalmente da gente nova e países novos. A humanidade não vive apenas de
14 carne, alface e motores. Quem eram os pais de Einstein, eu pergunto; e se o jovem Chaplin quisesse
15 hoje entrar no Brasil acaso poderia? Ninguém sabe que destino terão no Brasil essas mulheres louras,
16 esses homens de profissões vagas. Eles estão procurando alguma coisa: emigraram. Trazem pelo
17 menos o patrimônio de sua inquietação e de seu apetite de vida. Muitos se perderão, sem futuro, na
18 vagabundagem inconsequente das cidades; uma mulher dessas talvez se suicide melancolicamente
19 dentro de alguns anos, em algum quarto de pensão. Mas é preciso de tudo para fazer um mundo; e cada
20 pessoa humana é um mistério de heranças e de taras. Acaso importamos o pintor Portinari, o arquiteto
21 Niemeyer, o físico Lattes? E os construtores de nossa indústria, como vieram eles ou seus pais? Quem
22 pergunta hoje, e que interessa saber, se esses homens ou seus pais ou seus avós vieram para o Brasil
23 como agricultores, comerciantes, barbeiros ou capitalistas, aventureiros ou vendedores de gravata? Sem
24 o tráfico de escravos não teríamos tido Machado de Assis, e Carlos Drummond seria impossível sem
25 uma gota de sangue (ou uísque) escocês nas veias, e quem nos garante que uma legislação exemplar
26 de imigração não teria feito Roberto Burle Marx nascer uruguaio, Vila Lobos mexicano, ou Pancetti
27 chileno, o general Rondon canadense ou Noel Rosa em Moçambique? Sejamos humildes diante da
28 pessoa humana: o grande homem do Brasil de amanhã pode descender de um clandestino que neste
29 momento está saltando assustado na praça Mauá, e não sabe aonde ir, nem o que fazer. Façamos uma
30 política de imigração sábia, perfeita, materialista; mas deixemos uma pequena margem aos inúteis e aos
31 vagabundos, às aventureiras e aos tontos porque dentro de algum deles, como sorte grande da
32 fantástica loteria humana, pode vir a nossa redenção e a nossa glória.
(BRAGA, R. Imigração. In: A borboleta amarela. Rio de Janeiro, Editora do Autor, 1963)
Assinale a opção em que a expressão grifada NÃO retoma um conteúdo anterior.
- A)O repórter tem razão. (linha 7)
- B)É insensato importar gente assim. (linha 12)
- C)A humanidade não vive apenas de carne, alface e motores. (linhas 13 e 14)
- D)Muitos se perderão, sem futuro, na vagabundagem inconsequente das cidades; [...] (linhas 17 e 18)
- E)[...] e que interessa saber, se esses homens ou seus pais ou seus avós vieram para o Brasil como agricultores, [...] (linhas 22 e 23)
ITA20151a faseQuestao 34PortuguêsSemânticaFacilLeia os dois excertos de entrevistas com dois africanos de Guiné-Bissau, que foram universitários no Brasil nos anos 1980, para responder à questão.
Excerto 1: Para muitas pessoas, mesmo professores universitários, a África era um país. “Ah, você veio de onde? Da África?” “Sim, da Guiné-Bissau.” “Ah, Guiné-Bissau, região da África.” Quer dizer, Guiné-Bissau pra eles é como Brasil, São Paulo, Santa Catarina, Rio de Janeiro.
Excerto 2: Porque a novela passa tudo de bom, o pobre vive bem, né? Mesmo dentro da favela, você vê aquela casa bonitinha, tal. Então tinha uma ideia, eu, pelo menos, tinha uma ideia de um Brasil... quer dizer, fantástico!
(Extraídos do curta-metragem Identidades em trânsito, de Daniele Ellery e Márcio Câmara. Disponível em: http://portacurtas.org.br)
No Excerto 1, a expressão “quer dizer” introduz uma
- A)descrição.
- B)explicação.
- C)repetição.
- D)enumeração.
- E)delimitação.
ITA20131a faseQuestao 34PortuguêsSemânticaMediaLeia o Texto 4 para responder à questão.
TEXTO 4
Nove em cada dez usuários de Internet recebem spams em seus e-mails corporativos, segundo estudo realizado pela empresa alemã Antispameurope, especializada em lixo eletrônico virtual. Cada trabalhador perde, em média, sete minutos por dia limpando a caixa de mensagens, e essa quebra na produtividade custa € 828 – pouco mais de R$ 2,3 mil – anuais às empresas.
Tomando-se como base os números apontados pela pesquisa, uma corporação de médio porte, com mil funcionários, perde, portanto, € 828 mil por ano – ou R$ 2,3 milhões – com esta prática que é considerada, apesar de simplória, uma verdadeira praga da modernidade.
O spam remete às mensagens não-solicitadas enviadas em massa, geralmente utilizadas para fins comerciais, e pode de fato prejudicar consideravelmente a produtividade no ambiente de trabalho.
Um relatório da Symantec, empresa de segurança virtual, mostra que o Brasil é o segundo maior emissor de spam do mundo, com geração de 10% de todo o fluxo de mensagens indesejadas na rede mundial de computadores. Os campeões são os norte-americanos, com 26%. [...] (Rodrigo Capelo. http://www.vocecommaistempo.com.br. Acesso em: 23/09/2012.
A expressão "apesar de simplória" no segundo parágrafo pode ser substituída por
- A)embora efêmera.
- B)no entanto fácil.
- C)não obstante comum.
- D)ainda que pouco complexa.
- E)todavia rápida.
ITA20121a faseQuestao 26PortuguêsSemânticaMediaLeia o Texto 1 para responder à questão.
Texto 1 (Raul Justes Lores — Folha de S. Paulo)
1 Moradores de Higienópolis admitiram ao jornal Folha de S. Paulo que a abertura de uma estação de metrô na avenida Angélica traria “gente diferenciada” ao bairro. Não é difícil imaginar que alguns vizinhos do Morumbi compartilhem esse medo e prefiram o isolamento garantido com a inexistência de transporte público de massa por ali.
5 Mas à parte o gosto exacerbado dos paulistanos por levantar muros, erguer fortalezas e se refugiar em ambientes distantes do Brasil real, o poder público não fez a sua parte em desmentir que a chegada do transporte de massas não degrade a paisagem urbana.
Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, na Colômbia, e grande especialista em transporte coletivo, 10 diz que não basta criar corredores de ônibus bem asfaltados e servidos por diversas linhas. Abrigos confortáveis, boa iluminação, calçamento, limpeza e paisagismo que circundam estações de metrô ou pontos de ônibus precisam mostrar o status que o transporte público tem em uma determinada cidade.
Se no entorno do ponto de ônibus, a calçada está esburacada, há sujeira e a escuridão afugenta pessoas à noite, é normal que moradores não queiram a chegada do transporte de massa.
A instalação de linhas de monotrilho ou de corredores de ônibus precisa vitaminar uma área, não 15 destruí-la.
Quando as grades da Nove de Julho foram retiradas, a avenida ficou menos tétrica, quase bonita. Quando o corredor da Rebouças fez pontos muito modestos, que acumulam diversos ônibus sem dar vazão a desembarques, a imagem do engarrafamento e da bagunça vira um desastre de relações públicas.
20 Em Istambul, monotrilhos foram instalados no nível da rua, como os “trams” das cidades alemãs e suíças. Mesmo em uma cidade de 16 milhões de habitantes na Turquia, país emergente como o Brasil, houve cuidado com os abrigos feitos de vidro, com os bancos caprichados – em formato de livro – e com a iluminação. Restou menos espaço para os carros porque a idéia ali era tentar convencer na marra os motoristas a deixarem mais seus carros em casa e usarem o transporte público.
25 Se os monotrilhos do Morumbi, de fato, se parecerem com um Minhocão*, o Godzilla do centro de São Paulo, os moradores deveriam protestar, pedindo melhorias no projeto, detalhamento dos materiais, condições e impacto dos trilhos na paisagem urbana. Se forem como os antigos bondes, ótimo.
Mas se os moradores simplesmente recusarem qualquer ampliação do transporte público, que beneficiará diretamente os milhares de prestadores de serviço que precisam trabalhar na região do 30 Morumbi, vai ser difícil acreditar que o problema deles não seja a gente diferenciada que precisa circular por São Paulo.
(Raul Justes Lores. Folha de S. Paulo, 07/10/2010. Adaptado.)
(*) Elevado Presidente Costa e Silva, ou Minhocão, é uma via expressa que liga o Centro à Zona Oeste da cidade de São Paulo.
No texto, «gente diferenciada» é equivalente a
- A)Brasil real. (linha 6)
- B)poder público. (linha 6)
- C)relações públicas. (linhas 18 e 19)
- D)motoristas. (linha 24)
- E)moradores. (linha 28)
ITA20091a faseQuestao 28PortuguêsSemânticaMediaLeia o texto seguinte, de Maria Rita Kehl, para responder à questão. (As linhas estão numeradas.)
1 Vou direto ao ponto: estive em Paris. Está dito e precisava ser dito, logo verão por quê. Mas é difícil
2 escapar à impressão de pedantismo ou de exibicionismo, ao dizer isto. Culpa da nossa velha francofilia (já um
3 tanto fora de moda). Ou do complexo de eternos colonizados diante dos países de primeiro mundo. Alguns
4 significantes, como Nova Iorque ou Paris, produzem fascínio instantâneo. Se eu disser "fui a Paris", o
5 interlocutor responderá sempre: "que luxo!". E se contar: "fui assaltada em Paris", ou "fui atropelada em Paris",
6 é bem provável que escute: "mas que luxo, ser assaltada (atropelada) em Paris!"
7 O pior é que é verdade. É um verdadeiro luxo, Paris. Não por causa do Louvre, da Place Vêndome ou
8 dos Champs Élisées. Nem pelas mercadorias todas, lindas, chiques, caras, que nem penso em trazer para
9 casa. Meu luxo é andar nas ruas, a qualquer hora da noite ou do dia, sozinha ou acompanhada, a pé, de
10 ônibus ou de metrô (nunca de táxi) e não sentir medo de nada. Melhor: de ninguém. Meu luxo é enfrentar sem
11 medo o corpo a corpo com a cidade, com a multidão.
12 O artigo de luxo que eu traria de Paris para a vida no Brasil, se eu pudesse – artigo que não se
13 globalizou, ao contrário, a cada dia fica mais raro e caro – seria este. O luxo de viver sem medo. Sem medo de
14 quê? De doenças? Da velhice? Da morte, da solidão? Não, estes medos fazem parte da condição humana.
15 Pertencemos a esta espécie desnaturada, a única que sabe de antemão que o coroamento da vida consiste na
16 decadência física, na perda progressiva dos companheiros de geração e, para coroar tudo, na morte. Do medo
17 deste previsível grand finale não se escapa.
18 O luxo de viver sem medo a que me refiro é bem outro. O de circular na cidade sem temer o semelhante,
19 sem que o fantasma de um encontro violento esteja sempre presente. Não escrevi "viver numa sociedade sem
20 violência", já que a violência é parte integrante da vida social. Basta que a expectativa da violência não
21 predomine sobre todas as outras. Que a preocupação com a "segurança" (que no Brasil de hoje se traduz nas
22 mais variadas formas de isolamento) não seja o critério principal para definir a qualidade da vida urbana. Não
23 vale dizer que fora do socialismo este problema não tem solução. Há mais conformismo do que parece em
24 apostar todas as fichas da política na utopia. Enquanto a sociedade ideal não vem, estaremos condenados a
25 viver tão mal como vivemos todos por aqui? Temos que nos conformar com a sociabilidade do medo? Mas eu
26 conheço, eu vivi numa cidade diferente desta em que vivo hoje. Esta cidade era São Paulo. Já fiz longas
27 caminhadas a pé pelo centro, de madrugada. Namorando, conversando com amigos, pelo prazer
28 despreocupado da flânerie*. A passagem do ano de 1981 para 82 está viva na minha lembrança. Uma amiga
29 pernambucana quis conhecer a "esquina de Sampa". Fomos, num grupo de quatro pessoas, até a Ipiranga com
30 a São João. Dali nos empolgamos e seguimos pelo centro velho. Mendigos na rua não causavam medo. Do
31 Paysandu (o Ponto Chic estava aberto, claro!) seguimos pelo Arouche, República, São Luís, Municipal,
32 Patriarca, Sé; o dia primeiro nasceu no Largo São Bento.
33 Não escrevo movida pelo saudosismo, mas pela esperança. Isso faz tão pouco tempo! Sei lá como os
34 franceses conseguiram preservar seu raro luxo urbano. Talvez o valor do espaço público, entre eles, não tenha
35 sido superado pelo dos privilégios privados. Talvez a lei se proponha, de fato, a valer para todos. Pode ser que
36 a justiça funcione melhor. E que a sociedade não abra mão da aposta nos direitos. Pode ser que a violência
37 necessária se exerça, prioritariamente, no campo da política, e não da criminalidade.
38 Se for assim, acabo de mudar de idéia. Viver sem medo não é, não pode ser um luxo. É básico; é o grau
39 zero da vida em sociedade. Viver com medo é que é uma grande humilhação.
40 (Maria Rita Kehl. Você tem medo de quê? Em: http://www.mariaritakehl.psc.br, 2007, adaptado.)
*flânerie (substantivo feminino): passeio sem destino.
Assinale a opção que apresenta os significados corretos para os termos numerados:
I. Pertencemos a esta espécie desnaturada, a única que sabe de antemão[1] que o coroamento[2] da vida consiste na decadência física, na perda progressiva dos companheiros de geração e, para coroar tudo, na morte. (linhas 15 e 16)
II. Pode ser que a violência necessária se exerça, prioritariamente[3], no campo da política, e não da criminalidade. (linhas 36 e 37)
- A)[1] previamente [2] encerramento [3] precipuamente
- B)[1] precipuamente [2] auge [3] principalmente
- C)[1] antecipadamente [2] auge [3] permanentemente
- D)[1] precipuamente [2] encerramento [3] principalmente
- E)[1] antecipadamente [2] esplendor [3] permanentemente
ITA20091a faseQuestao 32PortuguêsSemânticaMediaLeia o texto seguinte para responder à questão. (As linhas estão numeradas.)
1 A vegetação do cerrado é influenciada pelas características do solo e do clima, bem como pela
2 freqüência de incêndios. O excesso de alumínio provoca uma alta acidez no solo, o que diminui a
3 disponibilidade de nutrientes e o torna tóxico para plantas não adaptadas. A hipótese do escleromorfismo
4 oligotrófico defende que a elevada toxicidade do solo e a baixa fertilidade das plantas levariam ao nanismo e à
5 tortuosidade da vegetação.
6 Além disso, a variação do clima nas diferentes estações (sazonalidade) tem efeito sobre a quantidade de
7 nutrientes e o nível tóxico do solo. Com baixa umidade, a toxicidade se eleva e a disponibilidade de nutrientes
8 diminui, influenciando o crescimento das plantas.
9 Já outra hipótese propõe que o formato tortuoso das árvores do cerrado se deve à ocorrência de
10 incêndios. Após a passagem do fogo, as folhas e gemas (aglomerados de células que dão origem a novos
11 galhos) sofrem necrose e morrem. As gemas que ficam nas extremidades dos galhos são substituídas por
12 gemas internas, que nascem em outros locais, quebrando a linearidade do crescimento.
13 Quando a freqüência de incêndios é muito elevada, a parte aérea (galhos e folhas) do vegetal pode não
14 se desenvolver e ele se torna uma planta anã. Pode-se dizer, então, que a combinação entre sazonalidade,
15 deficiência nutricional dos solos e ocorrência de incêndios determina as características da vegetação do
16 cerrado. (André Stella e Isabel Figueiredo. Ciência hoje, março/2008, adaptado.)
Abaixo são apresentadas três das acepções da palavra "hipótese", extraídas do Dicionário Houaiss eletrônico 5.0:
I. suposição, conjectura, pela qual a imaginação antecipa o conhecimento, com o fim de explicar ou prever a possível realização de um fato e deduzir-lhe as conseqüências; pressuposição, presunção
II. proposição (ou conjunto de proposições) antecipada provisoriamente como explicação de fatos, fenômenos naturais, e que deve ser ulteriormente verificada pela dedução ou pela experiência; conjectura
III. aquilo que se toma como dados de um problema (ou como enunciações) a partir do qual se parte para demonstrar um teorema.
A palavra "hipótese", usada duas vezes no texto (linhas 3 e 9), corresponde apenas à(s) acepção(ões)
- A)I.
- B)I e II.
- C)II.
- D)II e III.
- E)III.
ITA20081a faseQuestao 25PortuguêsSemânticaMediaAnuladaLeia o texto seguinte, de Ferreira Gullar ("Jogos de azar"), para responder à questão. (As linhas estão numeradas.)
1 Com um pouco de exagero, costumo dizer que todo jogo é de azar. Falo assim referindo-me ao futebol
2 que, ao contrário da roleta ou da loteria, implica tática e estratégia, sem falar no principal, que é o talento e a
3 habilidade dos jogadores. Apesar disso, não consegue eliminar o azar, isto é, o acaso.
4 E já que falamos em acaso, vale lembrar que, em francês, “acaso” escreve-se “hasard”, como no
5 célebre verso de Mallarmé, que diz: “um lance de dados jamais eliminará o acaso”. Ele está, no fundo,
6 referindo-se ao fazer do poema que, em que pese a mestria e lucidez do poeta, está ainda assim sujeito ao
7 azar, ou seja, ao acaso.
8 Se no poema é assim, imagina numa partida de futebol, que envolve 22 jogadores se movendo num
9 campo de amplas dimensões. Se é verdade que eles jogam conforme esquemas de marcação e ataque,
10 seguindo a orientação do técnico, deve-se no entanto levar em conta que cada jogador tem sua percepção da
11 jogada e decide deslocar-se nesta ou naquela direção, ou manter-se parado, certo de que a bola chegará a
12 seus pés. Nada disso se pode prever, daí resultando um alto índice de probabilidades, ou seja, de ocorrências
13 imprevisíveis e que, portanto, escapam ao controle.
14 Tomemos, como exemplo, um lance que quase sempre implica perigo de gol: o tiro de canto. Não é à
15 toa que, quando se cria essa situação, os jogadores da defesa se afligem em anular as possibilidades que têm
16 os adversários de fazerem o gol. Sentem-se ao sabor do acaso, da imprevisibilidade. O time adversário
17 desloca para a área do que sofre o tiro de canto seus jogadores mais altos e, por isso mesmo, treinados para
18 cabecear para dentro do gol. Isto reduz o grau de imprevisibilidade por aumentar as possibilidades do time
19 atacante de aproveitar em seu favor o tiro de canto e fazer o gol. Nessa mesma medida, crescem, para a
20 defesa, as dificuldades de evitar o pior. Mas nada disso consegue eliminar o acaso, uma vez que o batedor do
21 escanteio, por mais exímio que seja, não pode com precisão absoluta lançar a bola na cabeça de determinado
22 jogador. Além do mais, a inquietação ali na área é grande, todos os jogadores se movimentam, uns tentando
23 escapar à marcação, outros procurando marcá-los. Essa movimentação, multiplicada pelo número de
24 jogadores que se movem, aumenta fantasticamente o grau de imprevisibilidade do que ocorrerá quando a bola
25 for lançada. A que altura chegará ali? Qual jogador estará, naquele instante, em posição propícia para
26 cabeceá-la, seja para dentro do gol, seja para longe dele? Não existe treinamento tático, posição privilegiada,
27 nada que torne previsível o desfecho do tiro de canto. A bola pode cair ao alcance deste ou daquele jogador e,
28 dependendo da sorte, será gol ou não.
29 Não quero dizer com isso que o resultado das partidas de futebol seja apenas fruto do acaso, mas a
30 verdade é que, sem um pouco de sorte, neste campo, como em outros, não se vai muito longe; jogadores,
31 técnicos e torcedores sabem disso, tanto que todos querem se livrar do chamado “pé frio”. Como não pretendo
32 passar por supersticioso, evito aderir abertamente a essa tese, mas quando vejo, durante uma partida, meu
33 time perder “gols feitos”, nasce-me o desagradável temor de que aquele não é um bom dia para nós e de que
34 a derrota é certa.
35 Que eu, mero torcedor, pense assim, é compreensível, mas que dizer de técnicos de futebol que vivem
36 de terço na mão e medalhas de santos sob a camisa e que, em face de cada lance decisivo, as puxam para
37 fora, as beijam e murmuram orações? Isso para não falar nos que consultam pais-de-santo e pagam
38 promessas a Iemanjá. É como se dissessem: treino os jogadores, traço o esquema de jogo, armo jogadas,
39 mas, independentemente disso, existem forças imponderáveis que só obedecem aos santos e pais-de-santo;
40 são as forças do acaso.
41 Mas não se pode descartar o fator psicológico que, como se sabe, atua sobre os jogadores de qualquer
42 esporte; tanto isso é certo que, hoje, entre os preparadores das equipes há sempre um psicólogo. De fato, se
43 o jogador não estiver psicologicamente preparado para vencer, não dará o melhor de si.
44 Exemplifico essa crença na psicologia com a história de um técnico inglês que, num jogo decisivo da
45 Copa da Europa, teve um de seus jogadores machucado. Não era um craque, mas sua perda desfalcaria o
46 time. O médico da equipe, depois de atender o jogador, disse ao técnico: “Ele já voltou a si do desmaio, mas
47 não sabe quem é”. E o técnico: “Ótimo! Diga que ele é o Pelé e que volte para o campo imediatamente”.
(Ferreira Gullar. Jogos de azar. Em: Folha de S. Paulo, 24/06/2007.)
Considere as seguintes afirmações sobre a expressão "perigo de gol" (linha 14):
I. É exemplo de uso de linguagem denotativa, já que foi usada em sentido dicionarizado.
II. É exemplo de uso de linguagem técnica, uma vez que configura uma terminologia específica do futebol.
III. É exemplo de uso de linguagem popular, visto que é utilizada por leigos em relação a lances, dos quais desconhecem os nomes.
Está(ão) correta(s):
- A)apenas I.
- B)apenas II.
- C)apenas III.
- D)apenas I e II.
- E)todas.
ITA20081a faseQuestao 26PortuguêsSemânticaFacilLeia o texto seguinte, de Ferreira Gullar ("Jogos de azar"), para responder à questão. (As linhas estão numeradas.)
1 Com um pouco de exagero, costumo dizer que todo jogo é de azar. Falo assim referindo-me ao futebol
2 que, ao contrário da roleta ou da loteria, implica tática e estratégia, sem falar no principal, que é o talento e a
3 habilidade dos jogadores. Apesar disso, não consegue eliminar o azar, isto é, o acaso.
4 E já que falamos em acaso, vale lembrar que, em francês, “acaso” escreve-se “hasard”, como no
5 célebre verso de Mallarmé, que diz: “um lance de dados jamais eliminará o acaso”. Ele está, no fundo,
6 referindo-se ao fazer do poema que, em que pese a mestria e lucidez do poeta, está ainda assim sujeito ao
7 azar, ou seja, ao acaso.
8 Se no poema é assim, imagina numa partida de futebol, que envolve 22 jogadores se movendo num
9 campo de amplas dimensões. Se é verdade que eles jogam conforme esquemas de marcação e ataque,
10 seguindo a orientação do técnico, deve-se no entanto levar em conta que cada jogador tem sua percepção da
11 jogada e decide deslocar-se nesta ou naquela direção, ou manter-se parado, certo de que a bola chegará a
12 seus pés. Nada disso se pode prever, daí resultando um alto índice de probabilidades, ou seja, de ocorrências
13 imprevisíveis e que, portanto, escapam ao controle.
14 Tomemos, como exemplo, um lance que quase sempre implica perigo de gol: o tiro de canto. Não é à
15 toa que, quando se cria essa situação, os jogadores da defesa se afligem em anular as possibilidades que têm
16 os adversários de fazerem o gol. Sentem-se ao sabor do acaso, da imprevisibilidade. O time adversário
17 desloca para a área do que sofre o tiro de canto seus jogadores mais altos e, por isso mesmo, treinados para
18 cabecear para dentro do gol. Isto reduz o grau de imprevisibilidade por aumentar as possibilidades do time
19 atacante de aproveitar em seu favor o tiro de canto e fazer o gol. Nessa mesma medida, crescem, para a
20 defesa, as dificuldades de evitar o pior. Mas nada disso consegue eliminar o acaso, uma vez que o batedor do
21 escanteio, por mais exímio que seja, não pode com precisão absoluta lançar a bola na cabeça de determinado
22 jogador. Além do mais, a inquietação ali na área é grande, todos os jogadores se movimentam, uns tentando
23 escapar à marcação, outros procurando marcá-los. Essa movimentação, multiplicada pelo número de
24 jogadores que se movem, aumenta fantasticamente o grau de imprevisibilidade do que ocorrerá quando a bola
25 for lançada. A que altura chegará ali? Qual jogador estará, naquele instante, em posição propícia para
26 cabeceá-la, seja para dentro do gol, seja para longe dele? Não existe treinamento tático, posição privilegiada,
27 nada que torne previsível o desfecho do tiro de canto. A bola pode cair ao alcance deste ou daquele jogador e,
28 dependendo da sorte, será gol ou não.
29 Não quero dizer com isso que o resultado das partidas de futebol seja apenas fruto do acaso, mas a
30 verdade é que, sem um pouco de sorte, neste campo, como em outros, não se vai muito longe; jogadores,
31 técnicos e torcedores sabem disso, tanto que todos querem se livrar do chamado “pé frio”. Como não pretendo
32 passar por supersticioso, evito aderir abertamente a essa tese, mas quando vejo, durante uma partida, meu
33 time perder “gols feitos”, nasce-me o desagradável temor de que aquele não é um bom dia para nós e de que
34 a derrota é certa.
35 Que eu, mero torcedor, pense assim, é compreensível, mas que dizer de técnicos de futebol que vivem
36 de terço na mão e medalhas de santos sob a camisa e que, em face de cada lance decisivo, as puxam para
37 fora, as beijam e murmuram orações? Isso para não falar nos que consultam pais-de-santo e pagam
38 promessas a Iemanjá. É como se dissessem: treino os jogadores, traço o esquema de jogo, armo jogadas,
39 mas, independentemente disso, existem forças imponderáveis que só obedecem aos santos e pais-de-santo;
40 são as forças do acaso.
41 Mas não se pode descartar o fator psicológico que, como se sabe, atua sobre os jogadores de qualquer
42 esporte; tanto isso é certo que, hoje, entre os preparadores das equipes há sempre um psicólogo. De fato, se
43 o jogador não estiver psicologicamente preparado para vencer, não dará o melhor de si.
44 Exemplifico essa crença na psicologia com a história de um técnico inglês que, num jogo decisivo da
45 Copa da Europa, teve um de seus jogadores machucado. Não era um craque, mas sua perda desfalcaria o
46 time. O médico da equipe, depois de atender o jogador, disse ao técnico: “Ele já voltou a si do desmaio, mas
47 não sabe quem é”. E o técnico: “Ótimo! Diga que ele é o Pelé e que volte para o campo imediatamente”.
(Ferreira Gullar. Jogos de azar. Em: Folha de S. Paulo, 24/06/2007.)
Na frase "Apesar disso, não consegue eliminar o azar, isto é, o acaso." (linha 3), podemos entender que o azar é
- A)consequência do acaso.
- B)sinônimo de acaso.
- C)causa do acaso.
- D)justificação para o acaso.
- E)o contrário de acaso.
ITA20081a faseQuestao 28PortuguêsSemânticaDificilLeia o texto seguinte, de Ferreira Gullar ("Jogos de azar"), para responder à questão. (As linhas estão numeradas.)
1 Com um pouco de exagero, costumo dizer que todo jogo é de azar. Falo assim referindo-me ao futebol
2 que, ao contrário da roleta ou da loteria, implica tática e estratégia, sem falar no principal, que é o talento e a
3 habilidade dos jogadores. Apesar disso, não consegue eliminar o azar, isto é, o acaso.
4 E já que falamos em acaso, vale lembrar que, em francês, “acaso” escreve-se “hasard”, como no
5 célebre verso de Mallarmé, que diz: “um lance de dados jamais eliminará o acaso”. Ele está, no fundo,
6 referindo-se ao fazer do poema que, em que pese a mestria e lucidez do poeta, está ainda assim sujeito ao
7 azar, ou seja, ao acaso.
8 Se no poema é assim, imagina numa partida de futebol, que envolve 22 jogadores se movendo num
9 campo de amplas dimensões. Se é verdade que eles jogam conforme esquemas de marcação e ataque,
10 seguindo a orientação do técnico, deve-se no entanto levar em conta que cada jogador tem sua percepção da
11 jogada e decide deslocar-se nesta ou naquela direção, ou manter-se parado, certo de que a bola chegará a
12 seus pés. Nada disso se pode prever, daí resultando um alto índice de probabilidades, ou seja, de ocorrências
13 imprevisíveis e que, portanto, escapam ao controle.
14 Tomemos, como exemplo, um lance que quase sempre implica perigo de gol: o tiro de canto. Não é à
15 toa que, quando se cria essa situação, os jogadores da defesa se afligem em anular as possibilidades que têm
16 os adversários de fazerem o gol. Sentem-se ao sabor do acaso, da imprevisibilidade. O time adversário
17 desloca para a área do que sofre o tiro de canto seus jogadores mais altos e, por isso mesmo, treinados para
18 cabecear para dentro do gol. Isto reduz o grau de imprevisibilidade por aumentar as possibilidades do time
19 atacante de aproveitar em seu favor o tiro de canto e fazer o gol. Nessa mesma medida, crescem, para a
20 defesa, as dificuldades de evitar o pior. Mas nada disso consegue eliminar o acaso, uma vez que o batedor do
21 escanteio, por mais exímio que seja, não pode com precisão absoluta lançar a bola na cabeça de determinado
22 jogador. Além do mais, a inquietação ali na área é grande, todos os jogadores se movimentam, uns tentando
23 escapar à marcação, outros procurando marcá-los. Essa movimentação, multiplicada pelo número de
24 jogadores que se movem, aumenta fantasticamente o grau de imprevisibilidade do que ocorrerá quando a bola
25 for lançada. A que altura chegará ali? Qual jogador estará, naquele instante, em posição propícia para
26 cabeceá-la, seja para dentro do gol, seja para longe dele? Não existe treinamento tático, posição privilegiada,
27 nada que torne previsível o desfecho do tiro de canto. A bola pode cair ao alcance deste ou daquele jogador e,
28 dependendo da sorte, será gol ou não.
29 Não quero dizer com isso que o resultado das partidas de futebol seja apenas fruto do acaso, mas a
30 verdade é que, sem um pouco de sorte, neste campo, como em outros, não se vai muito longe; jogadores,
31 técnicos e torcedores sabem disso, tanto que todos querem se livrar do chamado “pé frio”. Como não pretendo
32 passar por supersticioso, evito aderir abertamente a essa tese, mas quando vejo, durante uma partida, meu
33 time perder “gols feitos”, nasce-me o desagradável temor de que aquele não é um bom dia para nós e de que
34 a derrota é certa.
35 Que eu, mero torcedor, pense assim, é compreensível, mas que dizer de técnicos de futebol que vivem
36 de terço na mão e medalhas de santos sob a camisa e que, em face de cada lance decisivo, as puxam para
37 fora, as beijam e murmuram orações? Isso para não falar nos que consultam pais-de-santo e pagam
38 promessas a Iemanjá. É como se dissessem: treino os jogadores, traço o esquema de jogo, armo jogadas,
39 mas, independentemente disso, existem forças imponderáveis que só obedecem aos santos e pais-de-santo;
40 são as forças do acaso.
41 Mas não se pode descartar o fator psicológico que, como se sabe, atua sobre os jogadores de qualquer
42 esporte; tanto isso é certo que, hoje, entre os preparadores das equipes há sempre um psicólogo. De fato, se
43 o jogador não estiver psicologicamente preparado para vencer, não dará o melhor de si.
44 Exemplifico essa crença na psicologia com a história de um técnico inglês que, num jogo decisivo da
45 Copa da Europa, teve um de seus jogadores machucado. Não era um craque, mas sua perda desfalcaria o
46 time. O médico da equipe, depois de atender o jogador, disse ao técnico: “Ele já voltou a si do desmaio, mas
47 não sabe quem é”. E o técnico: “Ótimo! Diga que ele é o Pelé e que volte para o campo imediatamente”.
(Ferreira Gullar. Jogos de azar. Em: Folha de S. Paulo, 24/06/2007.)
Assinale a opção em que a palavra em destaque permite duplo sentido.
- A)Se no poema é assim, imagina numa partida de futebol, que envolve 22 jogadores se «movendo» num campo de amplas dimensões. (linhas 8 e 9)
- B)[...] o batedor do escanteio, por mais exímio que seja, não pode com precisão absoluta lançar a bola na «cabeça» de determinado jogador. (linhas 20 a 22)
- C)A «bola» pode cair ao alcance deste ou daquele jogador e, dependendo da sorte, será gol ou não. (linhas 27 e 28)
- D)[...] a verdade é que, sem um pouco de sorte, neste «campo», como em outros, não se vai muito longe [...] (linhas 29 e 30)
- E)De fato, se o jogador não estiver psicologicamente preparado para «vencer», não dará o melhor de si. (linhas 42 e 43)
ITA20081a faseQuestao 33PortuguêsSemânticaDificilA frase abaixo foi dita por uma atriz como um lamento à insistência dos jornalistas em vasculharem sua vida pessoal:
"É muito triste você não poder sair para jantar com um amigo sem ser perseguida por ninguém."
Da forma como a frase foi registrada, o sentido produzido é o contrário ao supostamente pretendido pela atriz. Assinale a opção em que há a identificação do(s) elemento(s) que causa(m) tal mal-entendido.
- A)adjetivo (triste)
- B)preposições (para; com; por)
- C)advérbio de intensidade (muito)
- D)locuções verbais (poder sair; ser perseguida)
- E)negação (não; sem; ninguém)