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ITA20191a faseQuestao 17PortuguêsGramática e Norma CultaDificil
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Texto 2
Em frente da minha casa existe um muro enorme, todo branco. No Facebook, uma postagem me chama atenção: é um muro virtual e a brincadeira é pichá-lo com qualquer frase que vier à cabeça. Não quero pichar o mundo virtual, quero um muro de verdade, igual a este de frente para a minha casa. Pelas ruas e avenidas, vou trombando nos muros espalhados pelos quarteirões, repletos de frases tolas, xingamentos e erros de português. Eu bem poderia modificar isso.
“O caminho se faz caminhando”, essa frase genial, tão forte e certeira do poeta espanhol Antonio Machado, merece aparecer em diversos muros. Basta pensar um pouco e imaginar; de fato, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar.
De repente, vejo um prédio inteiro marcado por riscos sem sentido e me calo. Fui tentar entender e não me faltaram explicações: é grafite, é tribal, coisas de difícil compreensão. As explicações prosseguem: grafite é arte, pichar é vandalismo. O pequeno vândalo escondido dentro de mim busca frases na memória e, então, sinto até o cheiro da lama de Woodstock em letras garrafais: “Não importam os motivos da guerra, a paz é muito mais importante”.
Feito uma folha deslizando pelas águas correntes do rio me surge a imagem de John Lennon; junto dela, outra frase: “O sonho não acabou”, um tanto modificada pela minha mão, tornando-se: o sonho nunca acaba. E minha cabeça já se transforma num muro todo branco.
Desde os primórdios dos tempos, usamos a escrita como forma de expressão, os homens das cavernas deixaram pichados nas rochas diversos sinais. Num ato impulsivo, comprei uma tinta spray, atravessei a rua chacoalhando a lata e assim prossegui até chegar à minha sala, abraçado pela ansiedade aumentada a cada passo. Coloquei o dedo no gatilho do spray e fiquei respirando fundo, juntando coragem e na mente desenhando a primeira frase para pichar, um tipo de lema, aquela do Lô Borges: “Os sonhos não envelhecem” – percebo, num sorrir de canto de boca, o quanto os sonhos marcam a minha existência.
Depois arriscaria uma frase que criei e gosto: “A lagarta nunca pensou em voar, mas daí, no espanto da metamorfose, lhe nasceram asas...”. Ou outra, completamente tola, me ocorreu depois de assistir a um documentário, convencido de que o panda é um bicho cativante, mas vive distante daqui e sua agonia não é menor das dos nossos bichos. Assim pensando, as letras duma nova pichação se formaram num estalo: “Esqueçam os pandas, salvem as jaguatiricas!”.
No muro do cemitério, escreveria outra frase que gosto: “Em longo prazo estaremos todos mortos”, do John Keynes, que trago comigo desde os tempos da faculdade. Frases de túmulos ganhariam os muros; no de Salvador Allende está consagrado, de autoria desconhecida: “Alguns anos de sombras não nos tornarão cegos.” Sempre apegado aos sonhos, picharia também uma do Charles Chaplin: “Nunca abandone os seus sonhos, porque se um dia eles se forem, você continuará vivendo, mas terá deixado de existir”.
Claro, eu poderia escrever essas frases num livro, num caderno ou no papel amassado que embrulha o pão da manhã, mas o muro me cativa, porque está ao alcance das vistas de todos e quero gritar para o mundo as frases que gosto; são tantas, até temo que me faltem os muros. Poderia passar o dia todo pichando frases, as linhas vão se acabando e ainda tenho tanto a pichar... “É preciso muito tempo para se tornar jovem”, de Picasso, “Há um certo prazer na loucura que só um louco conhece”, de Neruda, “Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarzinho”, cravada por Mário Quintana...
Encerro com Nietzsche: “Isto é um sonho, bem sei, mas quero continuar a sonhar”, que serve para exemplificar o que sinto neste momento, aqui na minha sala, escrevendo no computador o que gostaria de jogar nos muros lá fora, a custo me mantendo calmo, um olho na tela, outro voltado para o lado oposto da rua. Lá tem aquele muro enorme, branco e virgem, clamando por frases. Não sei quanto tempo resistirei até puxar o gatilho do spray.
Adaptado de: ALVEZ, A. L. Um muro para pichar. Correio do Estado, fev 2018. Disponível em <https://www.correiodoestado.com.br/opiniao/leia-a-
cronica-de-andre-luiz-alvez-um-muro-para-pichar/321052/> Acesso em: ago. 2018.
Por ser uma crônica, o texto 2 apresenta formas coloquiais, que por vezes distanciam o texto da norma padrão da língua portuguesa. Assinale a alternativa em que ocorre desvio da norma culta.
A)Fui tentar entender e não me faltaram explicações: é grafite, é tribal, coisas de difícil compreensão.
B)O pequeno vândalo escondido dentro de mim busca frases na memória e, então, sinto até o cheiro da lama de Woodstock [...]
C)Depois arriscaria uma frase que criei e gosto [...]
D)Desde os primórdios dos tempos, usamos a escrita como forma de expressão [...]
E)Poderia passar o dia todo pichando frases, as linhas vão se acabando e ainda tenho tanto a pichar...
ITA20191a faseQuestao 18PortuguêsGramática e Norma CultaMedia
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Texto 2
Em frente da minha casa existe um muro enorme, todo branco. No Facebook, uma postagem me chama atenção: é um muro virtual e a brincadeira é pichá-lo com qualquer frase que vier à cabeça. Não quero pichar o mundo virtual, quero um muro de verdade, igual a este de frente para a minha casa. Pelas ruas e avenidas, vou trombando nos muros espalhados pelos quarteirões, repletos de frases tolas, xingamentos e erros de português. Eu bem poderia modificar isso.
“O caminho se faz caminhando”, essa frase genial, tão forte e certeira do poeta espanhol Antonio Machado, merece aparecer em diversos muros. Basta pensar um pouco e imaginar; de fato, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar.
De repente, vejo um prédio inteiro marcado por riscos sem sentido e me calo. Fui tentar entender e não me faltaram explicações: é grafite, é tribal, coisas de difícil compreensão. As explicações prosseguem: grafite é arte, pichar é vandalismo. O pequeno vândalo escondido dentro de mim busca frases na memória e, então, sinto até o cheiro da lama de Woodstock em letras garrafais: “Não importam os motivos da guerra, a paz é muito mais importante”.
Feito uma folha deslizando pelas águas correntes do rio me surge a imagem de John Lennon; junto dela, outra frase: “O sonho não acabou”, um tanto modificada pela minha mão, tornando-se: o sonho nunca acaba. E minha cabeça já se transforma num muro todo branco.
Desde os primórdios dos tempos, usamos a escrita como forma de expressão, os homens das cavernas deixaram pichados nas rochas diversos sinais. Num ato impulsivo, comprei uma tinta spray, atravessei a rua chacoalhando a lata e assim prossegui até chegar à minha sala, abraçado pela ansiedade aumentada a cada passo. Coloquei o dedo no gatilho do spray e fiquei respirando fundo, juntando coragem e na mente desenhando a primeira frase para pichar, um tipo de lema, aquela do Lô Borges: “Os sonhos não envelhecem” – percebo, num sorrir de canto de boca, o quanto os sonhos marcam a minha existência.
Depois arriscaria uma frase que criei e gosto: “A lagarta nunca pensou em voar, mas daí, no espanto da metamorfose, lhe nasceram asas...”. Ou outra, completamente tola, me ocorreu depois de assistir a um documentário, convencido de que o panda é um bicho cativante, mas vive distante daqui e sua agonia não é menor das dos nossos bichos. Assim pensando, as letras duma nova pichação se formaram num estalo: “Esqueçam os pandas, salvem as jaguatiricas!”.
No muro do cemitério, escreveria outra frase que gosto: “Em longo prazo estaremos todos mortos”, do John Keynes, que trago comigo desde os tempos da faculdade. Frases de túmulos ganhariam os muros; no de Salvador Allende está consagrado, de autoria desconhecida: “Alguns anos de sombras não nos tornarão cegos.” Sempre apegado aos sonhos, picharia também uma do Charles Chaplin: “Nunca abandone os seus sonhos, porque se um dia eles se forem, você continuará vivendo, mas terá deixado de existir”.
Claro, eu poderia escrever essas frases num livro, num caderno ou no papel amassado que embrulha o pão da manhã, mas o muro me cativa, porque está ao alcance das vistas de todos e quero gritar para o mundo as frases que gosto; são tantas, até temo que me faltem os muros. Poderia passar o dia todo pichando frases, as linhas vão se acabando e ainda tenho tanto a pichar... “É preciso muito tempo para se tornar jovem”, de Picasso, “Há um certo prazer na loucura que só um louco conhece”, de Neruda, “Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarzinho”, cravada por Mário Quintana...
Encerro com Nietzsche: “Isto é um sonho, bem sei, mas quero continuar a sonhar”, que serve para exemplificar o que sinto neste momento, aqui na minha sala, escrevendo no computador o que gostaria de jogar nos muros lá fora, a custo me mantendo calmo, um olho na tela, outro voltado para o lado oposto da rua. Lá tem aquele muro enorme, branco e virgem, clamando por frases. Não sei quanto tempo resistirei até puxar o gatilho do spray.
Adaptado de: ALVEZ, A. L. Um muro para pichar. Correio do Estado, fev 2018. Disponível em <https://www.correiodoestado.com.br/opiniao/leia-a-
cronica-de-andre-luiz-alvez-um-muro-para-pichar/321052/> Acesso em: ago. 2018.
Assinale a alternativa em que o item destacado (entre « ») NÃO é pronome relativo.
A)a brincadeira é pichá-lo com qualquer frase «que» vier à cabeça
B)ou no papel amassado «que» embrulha o pão da manhã
C)são tantas, até temo «que» me faltem os muros
D)há um certo prazer na loucura «que» só um louco conhece
E)«que» serve para exemplificar o que sinto neste momento
ITA20151a faseQuestao 27PortuguêsGramática e Norma CultaDificil
Leia o Texto 1, de Rubem Braga — publicado pela primeira vez em 1952, no jornal Correio da Manhã, do Rio —, para responder à questão.
TEXTO 1
1 José Leal fez uma reportagem na Ilha das Flores, onde ficam os imigrantes logo que chegam. E
2 falou dos equívocos de nossa política imigratória. As pessoas que ele encontrou não eram agricultores e
3 técnicos, gente capaz de ser útil. Viu músicos profissionais, bailarinas austríacas, cabeleireiras lituanas.
4 Paul Balt toca acordeão, Ivan Donef faz coquetéis, Galar Bedrich é vendedor, Serof Nedko é ex-oficial,
5 Luigi Tonizo é jogador de futebol, Ibolya Pohl é costureira. Tudo gente para o asfalto, “para entulhar as
6 grandes cidades”, como diz o repórter.
7 O repórter tem razão. Mas eu peço licença para ficar imaginando uma porção de coisas vagas, ao
8 olhar essas belas fotografias que ilustram a reportagem. Essa linda costureirinha morena de Badajoz,
9 essa Ingeborg que faz fotografias e essa Irgard que não faz coisa alguma, esse Stefan Cromick cuja
10 única experiência na vida parece ter sido vender bombons – não, essa gente não vai aumentar a
11 produção de batatinhas e quiabos nem plantar cidades no Brasil Central.
12 É insensato importar gente assim. Mas o destino das pessoas e dos países também é, muitas
13 vezes, insensato: principalmente da gente nova e países novos. A humanidade não vive apenas de
14 carne, alface e motores. Quem eram os pais de Einstein, eu pergunto; e se o jovem Chaplin quisesse
15 hoje entrar no Brasil acaso poderia? Ninguém sabe que destino terão no Brasil essas mulheres louras,
16 esses homens de profissões vagas. Eles estão procurando alguma coisa: emigraram. Trazem pelo
17 menos o patrimônio de sua inquietação e de seu apetite de vida. Muitos se perderão, sem futuro, na
18 vagabundagem inconsequente das cidades; uma mulher dessas talvez se suicide melancolicamente
19 dentro de alguns anos, em algum quarto de pensão. Mas é preciso de tudo para fazer um mundo; e cada
20 pessoa humana é um mistério de heranças e de taras. Acaso importamos o pintor Portinari, o arquiteto
21 Niemeyer, o físico Lattes? E os construtores de nossa indústria, como vieram eles ou seus pais? Quem
22 pergunta hoje, e que interessa saber, se esses homens ou seus pais ou seus avós vieram para o Brasil
23 como agricultores, comerciantes, barbeiros ou capitalistas, aventureiros ou vendedores de gravata? Sem
24 o tráfico de escravos não teríamos tido Machado de Assis, e Carlos Drummond seria impossível sem
25 uma gota de sangue (ou uísque) escocês nas veias, e quem nos garante que uma legislação exemplar
26 de imigração não teria feito Roberto Burle Marx nascer uruguaio, Vila Lobos mexicano, ou Pancetti
27 chileno, o general Rondon canadense ou Noel Rosa em Moçambique? Sejamos humildes diante da
28 pessoa humana: o grande homem do Brasil de amanhã pode descender de um clandestino que neste
29 momento está saltando assustado na praça Mauá, e não sabe aonde ir, nem o que fazer. Façamos uma
30 política de imigração sábia, perfeita, materialista; mas deixemos uma pequena margem aos inúteis e aos
31 vagabundos, às aventureiras e aos tontos porque dentro de algum deles, como sorte grande da
32 fantástica loteria humana, pode vir a nossa redenção e a nossa glória.
(BRAGA, R. Imigração. In: A borboleta amarela. Rio de Janeiro, Editora do Autor, 1963)
De acordo com as normas gramaticais de pontuação,
I. o travessão da linha 10 serve para realçar uma conclusão do que foi dito anteriormente.
II. os dois pontos da linha 16 podem ser substituídos por ponto e vírgula.
III. a vírgula, em “está saltando assustado na praça Mauá, e não sabe”, linha 29, pode ser excluída.
IV. o ponto e vírgula da linha 30 pode ser substituído por ponto final.
Estão corretas apenas
A)I, II e III.
B)I, III e IV.
C)II e III.
D)II, III e IV.
E)III e IV.
ITA20141a faseQuestao 23PortuguêsGramática e Norma CultaDificil
Leia o Texto 1, de Manuel Bandeira (publicado em 1937), para responder à questão.
TEXTO 1
Não há hoje no mundo, em qualquer domínio de atividade artística, um artista cuja arte contenha maior universalidade que a de Charles Chaplin. A razão vem de que o tipo de Carlito é uma dessas criações que, salvo idiossincrasias muito raras, interessam e agradam a toda a gente. Como os heróis das lendas populares ou as personagens das velhas farsas de mamulengo.
Carlito é popular no sentido mais alto da palavra. Não saiu completo e definitivo da cabeça de Chaplin: foi uma criação em que o artista procedeu por uma sucessão de tentativas e erradas.
Chaplin observava sobre o público o efeito de cada detalhe.
Um dos traços mais característicos da pessoa física de Carlito foi achado casual. Chaplin certa vez lembrou-se de arremedar a marcha desgovernada de um tabético. O público riu: estava fixado o andar habitual de Carlito.
O vestuário da personagem – fraquezinho humorístico, calças lambazonas, botinas escarrapachadas, cartolinha – também se fixou pelo consenso do público.
Certa vez que Carlito trocou por outras as botinas escarrapachadas e a clássica cartolinha, o público não achou graça: estava desapontado. Chaplin eliminou imediatamente a variante. Sentiu com o público que ela destruía a unidade física do tipo. Podia ser jocosa também, mas não era mais Carlito.
Note-se que essa indumentária, que vem dos primeiros filmes do artista, não contém nada de especialmente extravagante. Agrada por não sei quê de elegante que há no seu ridículo de miséria. Pode-se dizer que Carlito possui o dandismo do grotesco.
Não será exagero afirmar que toda a humanidade viva colaborou nas salas de cinema para a realização da personagem de Carlito, como ela aparece nessas estupendas obras-primas de humour que são O Garoto, Ombro Arma, Em Busca do Ouro e O Circo.
Isto por si só atestaria em Chaplin um extraordinário dom de discernimento psicológico. Não obstante, se não houvesse nele profundidade de pensamento, lirismo, ternura, seria levado por esse processo de criação à vulgaridade dos artistas medíocres que condescendem com o fácil gosto do público.
Aqui é que começa a genialidade de Chaplin. Descendo até o público, não só não se vulgarizou, mas ao contrário ganhou maior força de emoção e de poesia. A sua originalidade extremou-se. Ele soube isolar em seus dados pessoais, em sua inteligência e em sua sensibilidade de exceção, os elementos de irredutível humanidade. Como se diz em linguagem matemática, pôs em evidência o fator comum de todas as expressões humanas. O olhar de Carlito, no filme O Circo, para a brioche do menino faz rir a criançada como um gesto de gulodice engraçada. Para um adulto pode sugerir da maneira mais dramática todas as categorias do desejo. A sua arte simplificou-se ao mesmo tempo que se aprofundou e alargou. Cada espectador pode encontrar nela o que procura: o riso, a crítica, o lirismo ou ainda o contrário de tudo isso.
Essas reflexões me acudiram ao espírito ao ler umas linhas da entrevista fornecida a Florent Fels pelo pintor Pascin, búlgaro naturalizado americano. Pascin não gosta de Carlito e explicou que uma fita de Carlito nos Estados Unidos tem uma significação muito diversa da que lhe dão fora de lá. Nos Estados Unidos Carlito é o sujeito que não sabe fazer as coisas como todo mundo, que não sabe viver como os outros, não se acomoda em meio algum, – em suma um inadaptável. O espectador americano ri satisfeito de se sentir tão diferente daquele sonhador ridículo. É isto que faz o sucesso de Chaplin nos Estados Unidos. Carlito com as suas lamentáveis aventuras constitui ali uma lição de moral para educação da mocidade no sentido de preparar uma geração de homens hábeis, práticos e bem quaisquer!
Por mais ao par que se esteja do caráter prático do americano, do seu critério de sucesso para julgamento das ações humanas, do seu gosto pela estandardização, não deixa de surpreender aquela interpretação moralista dos filmes de Chaplin. Bem examinadas as coisas, não havia motivo para surpresa. A interpretação cabe perfeitamente dentro do tipo e mais: o americano bem verdadeiramente americano, o que veda a entrada do seu território a doentes e estropiados, o que propõe o pacto contra a guerra e ao mesmo tempo assalta a Nicarágua, não poderia sentir de outro modo.
Não importa, não será menos legítima a concepção contrária, tanto é verdade que tudo cabe na humanidade vasta de Carlito. Em vez de um fraco, de um pulha, de um inadaptável, posso eu interpretar Carlito como um herói. Carlito passa por todas as misérias sem lágrimas nem queixas. Não é força isto? Não perde a bondade apesar de todas as experiências, e no meio das maiores privações acha um jeito de amparar a outras criaturas em aperto. Isso é pulhice?
Aceita com estoicismo as piores situações, dorme onde é possível ou não dorme, come sola de sapato cozida como se se tratasse de alguma língua do Rio Grande. É um inadaptável?
Sem dúvida não sabe se adaptar às condições de sucesso na vida. Mas haverá sucesso que valha a força de ânimo do sujeito sem nada neste mundo, sem dinheiro, sem amores, sem teto, quando ele pode agitar a bengalinha como Carlito com um gesto de quem vai tirar a felicidade do nada? Quando um ajuntamento se forma nos filmes, os transeuntes vão parando e acercando-se do grupo com um ar de curiosidade interesseira. Todos têm uma fisionomia preocupada. Carlito é o único que está certo do prazer ingênuo de olhar.
Neste sentido Carlito é um verdadeiro professor de heroísmo. Quem vive na solidão das grandes cidades não pode deixar de sentir intensamente o influxo da sua lição, e uma simpatia enorme nos prende ao boêmio nos seus gestos de aceitação tão simples.
Nada mais heróico, mais comovente do que a saída de Carlito no fim de O Circo. Partida a companhia, em cuja troupe seguia a menina que ele ajudara a casar com outro, Carlito por alguns momentos se senta no círculo que ficou como último vestígio do picadeiro, refletindo sobre os dias de barriga cheia e relativa felicidade sentimental que acabava de desfrutar. Agora está de novo sem nada e inteiramente só. Mas os minutos de fraqueza duram pouco. Carlito levanta-se, dá um puxão na casaquinha para recuperar a linha, faz um molinete com a bengalinha e sai campo afora sem olhar para trás. Não tem um vintém, não tem uma afeição, não tem onde dormir nem o que comer. No entanto vai como um conquistador pisando em terra nova. Parece que o Universo é dele. E não tenham dúvida: o Universo é dele.
Com efeito, Carlito é poeta.
(Em: Crônicas da Província do Brasil. 1937.)
Glossário:
idiossincrasia (linha 3): maneira de ser e de agir própria de cada pessoa.
mamulengo (linha 4): fantoche, boneco usado à mão em peças de teatro popular ou infantil.
tabético (linha 9): que tem andar desgovernado, sem muita firmeza.
dandismo (linha 18): relativo ao indivíduo que se veste e se comporta com elegância.
pulhice (linha 54): safadeza, canalhice.
estoicismo (linha 55): resignação com dignidade diante do sofrimento, da adversidade, do infortúnio.
molinete (linha 71): movimento giratório que se faz com a espada ou outro objeto semelhante.
Assinale a opção cujo elemento coesivo destacado (entre « ») substitui os dois pontos sem alterar o sentido do enunciado.
A)Não saiu completo e definitivo da cabeça de Chaplin: foi uma criação em que o artista procedeu por uma sucessão de tentativas e erradas. (linhas 5 e 6) – «já que»
B)O público riu: estava fixado o andar habitual de Carlito. (linhas 9 e 10) – «visto que»
C)[...] o público não achou graça: estava desapontado. (linhas 13 e 14) – «de forma que»
D)Cada espectador pode encontrar nela o que procura: o riso, a crítica, o lirismo ou ainda o contrário de tudo isso. (linhas 33 e 34) – «posto que»
E)A interpretação cabe perfeitamente dentro do tipo e mais: o americano bem verdadeiramente americano, o que veda a entrada do seu território a doentes e estropiados, [...] (linhas 47 e 48) – «tanto que»
ITA20141a faseQuestao 26PortuguêsGramática e Norma CultaMediaAnulada
Leia o Texto 1, de Manuel Bandeira (publicado em 1937), para responder à questão.
TEXTO 1
Não há hoje no mundo, em qualquer domínio de atividade artística, um artista cuja arte contenha maior universalidade que a de Charles Chaplin. A razão vem de que o tipo de Carlito é uma dessas criações que, salvo idiossincrasias muito raras, interessam e agradam a toda a gente. Como os heróis das lendas populares ou as personagens das velhas farsas de mamulengo.
Carlito é popular no sentido mais alto da palavra. Não saiu completo e definitivo da cabeça de Chaplin: foi uma criação em que o artista procedeu por uma sucessão de tentativas e erradas.
Chaplin observava sobre o público o efeito de cada detalhe.
Um dos traços mais característicos da pessoa física de Carlito foi achado casual. Chaplin certa vez lembrou-se de arremedar a marcha desgovernada de um tabético. O público riu: estava fixado o andar habitual de Carlito.
O vestuário da personagem – fraquezinho humorístico, calças lambazonas, botinas escarrapachadas, cartolinha – também se fixou pelo consenso do público.
Certa vez que Carlito trocou por outras as botinas escarrapachadas e a clássica cartolinha, o público não achou graça: estava desapontado. Chaplin eliminou imediatamente a variante. Sentiu com o público que ela destruía a unidade física do tipo. Podia ser jocosa também, mas não era mais Carlito.
Note-se que essa indumentária, que vem dos primeiros filmes do artista, não contém nada de especialmente extravagante. Agrada por não sei quê de elegante que há no seu ridículo de miséria. Pode-se dizer que Carlito possui o dandismo do grotesco.
Não será exagero afirmar que toda a humanidade viva colaborou nas salas de cinema para a realização da personagem de Carlito, como ela aparece nessas estupendas obras-primas de humour que são O Garoto, Ombro Arma, Em Busca do Ouro e O Circo.
Isto por si só atestaria em Chaplin um extraordinário dom de discernimento psicológico. Não obstante, se não houvesse nele profundidade de pensamento, lirismo, ternura, seria levado por esse processo de criação à vulgaridade dos artistas medíocres que condescendem com o fácil gosto do público.
Aqui é que começa a genialidade de Chaplin. Descendo até o público, não só não se vulgarizou, mas ao contrário ganhou maior força de emoção e de poesia. A sua originalidade extremou-se. Ele soube isolar em seus dados pessoais, em sua inteligência e em sua sensibilidade de exceção, os elementos de irredutível humanidade. Como se diz em linguagem matemática, pôs em evidência o fator comum de todas as expressões humanas. O olhar de Carlito, no filme O Circo, para a brioche do menino faz rir a criançada como um gesto de gulodice engraçada. Para um adulto pode sugerir da maneira mais dramática todas as categorias do desejo. A sua arte simplificou-se ao mesmo tempo que se aprofundou e alargou. Cada espectador pode encontrar nela o que procura: o riso, a crítica, o lirismo ou ainda o contrário de tudo isso.
Essas reflexões me acudiram ao espírito ao ler umas linhas da entrevista fornecida a Florent Fels pelo pintor Pascin, búlgaro naturalizado americano. Pascin não gosta de Carlito e explicou que uma fita de Carlito nos Estados Unidos tem uma significação muito diversa da que lhe dão fora de lá. Nos Estados Unidos Carlito é o sujeito que não sabe fazer as coisas como todo mundo, que não sabe viver como os outros, não se acomoda em meio algum, – em suma um inadaptável. O espectador americano ri satisfeito de se sentir tão diferente daquele sonhador ridículo. É isto que faz o sucesso de Chaplin nos Estados Unidos. Carlito com as suas lamentáveis aventuras constitui ali uma lição de moral para educação da mocidade no sentido de preparar uma geração de homens hábeis, práticos e bem quaisquer!
Por mais ao par que se esteja do caráter prático do americano, do seu critério de sucesso para julgamento das ações humanas, do seu gosto pela estandardização, não deixa de surpreender aquela interpretação moralista dos filmes de Chaplin. Bem examinadas as coisas, não havia motivo para surpresa. A interpretação cabe perfeitamente dentro do tipo e mais: o americano bem verdadeiramente americano, o que veda a entrada do seu território a doentes e estropiados, o que propõe o pacto contra a guerra e ao mesmo tempo assalta a Nicarágua, não poderia sentir de outro modo.
Não importa, não será menos legítima a concepção contrária, tanto é verdade que tudo cabe na humanidade vasta de Carlito. Em vez de um fraco, de um pulha, de um inadaptável, posso eu interpretar Carlito como um herói. Carlito passa por todas as misérias sem lágrimas nem queixas. Não é força isto? Não perde a bondade apesar de todas as experiências, e no meio das maiores privações acha um jeito de amparar a outras criaturas em aperto. Isso é pulhice?
Aceita com estoicismo as piores situações, dorme onde é possível ou não dorme, come sola de sapato cozida como se se tratasse de alguma língua do Rio Grande. É um inadaptável?
Sem dúvida não sabe se adaptar às condições de sucesso na vida. Mas haverá sucesso que valha a força de ânimo do sujeito sem nada neste mundo, sem dinheiro, sem amores, sem teto, quando ele pode agitar a bengalinha como Carlito com um gesto de quem vai tirar a felicidade do nada? Quando um ajuntamento se forma nos filmes, os transeuntes vão parando e acercando-se do grupo com um ar de curiosidade interesseira. Todos têm uma fisionomia preocupada. Carlito é o único que está certo do prazer ingênuo de olhar.
Neste sentido Carlito é um verdadeiro professor de heroísmo. Quem vive na solidão das grandes cidades não pode deixar de sentir intensamente o influxo da sua lição, e uma simpatia enorme nos prende ao boêmio nos seus gestos de aceitação tão simples.
Nada mais heróico, mais comovente do que a saída de Carlito no fim de O Circo. Partida a companhia, em cuja troupe seguia a menina que ele ajudara a casar com outro, Carlito por alguns momentos se senta no círculo que ficou como último vestígio do picadeiro, refletindo sobre os dias de barriga cheia e relativa felicidade sentimental que acabava de desfrutar. Agora está de novo sem nada e inteiramente só. Mas os minutos de fraqueza duram pouco. Carlito levanta-se, dá um puxão na casaquinha para recuperar a linha, faz um molinete com a bengalinha e sai campo afora sem olhar para trás. Não tem um vintém, não tem uma afeição, não tem onde dormir nem o que comer. No entanto vai como um conquistador pisando em terra nova. Parece que o Universo é dele. E não tenham dúvida: o Universo é dele.
Com efeito, Carlito é poeta.
(Em: Crônicas da Província do Brasil. 1937.)
Glossário:
idiossincrasia (linha 3): maneira de ser e de agir própria de cada pessoa.
mamulengo (linha 4): fantoche, boneco usado à mão em peças de teatro popular ou infantil.
tabético (linha 9): que tem andar desgovernado, sem muita firmeza.
dandismo (linha 18): relativo ao indivíduo que se veste e se comporta com elegância.
pulhice (linha 54): safadeza, canalhice.
estoicismo (linha 55): resignação com dignidade diante do sofrimento, da adversidade, do infortúnio.
molinete (linha 71): movimento giratório que se faz com a espada ou outro objeto semelhante.
Assinale a opção que retoma a palavra variante no trecho "Chaplin eliminou imediatamente a variante" (linha 14).
A)as calças lambazonas e as botinas escarrapachadas.
B)o fraquezinho humorístico e a clássica cartolinha.
C)as botinas escarrapachadas e a clássica cartolinha.
D)a marcha desgovernada.
E)a unidade física do tipo.
ITA20141a faseQuestao 27PortuguêsGramática e Norma CultaDificil
Leia o Texto 1, de Manuel Bandeira (publicado em 1937), para responder à questão.
TEXTO 1
Não há hoje no mundo, em qualquer domínio de atividade artística, um artista cuja arte contenha maior universalidade que a de Charles Chaplin. A razão vem de que o tipo de Carlito é uma dessas criações que, salvo idiossincrasias muito raras, interessam e agradam a toda a gente. Como os heróis das lendas populares ou as personagens das velhas farsas de mamulengo.
Carlito é popular no sentido mais alto da palavra. Não saiu completo e definitivo da cabeça de Chaplin: foi uma criação em que o artista procedeu por uma sucessão de tentativas e erradas.
Chaplin observava sobre o público o efeito de cada detalhe.
Um dos traços mais característicos da pessoa física de Carlito foi achado casual. Chaplin certa vez lembrou-se de arremedar a marcha desgovernada de um tabético. O público riu: estava fixado o andar habitual de Carlito.
O vestuário da personagem – fraquezinho humorístico, calças lambazonas, botinas escarrapachadas, cartolinha – também se fixou pelo consenso do público.
Certa vez que Carlito trocou por outras as botinas escarrapachadas e a clássica cartolinha, o público não achou graça: estava desapontado. Chaplin eliminou imediatamente a variante. Sentiu com o público que ela destruía a unidade física do tipo. Podia ser jocosa também, mas não era mais Carlito.
Note-se que essa indumentária, que vem dos primeiros filmes do artista, não contém nada de especialmente extravagante. Agrada por não sei quê de elegante que há no seu ridículo de miséria. Pode-se dizer que Carlito possui o dandismo do grotesco.
Não será exagero afirmar que toda a humanidade viva colaborou nas salas de cinema para a realização da personagem de Carlito, como ela aparece nessas estupendas obras-primas de humour que são O Garoto, Ombro Arma, Em Busca do Ouro e O Circo.
Isto por si só atestaria em Chaplin um extraordinário dom de discernimento psicológico. Não obstante, se não houvesse nele profundidade de pensamento, lirismo, ternura, seria levado por esse processo de criação à vulgaridade dos artistas medíocres que condescendem com o fácil gosto do público.
Aqui é que começa a genialidade de Chaplin. Descendo até o público, não só não se vulgarizou, mas ao contrário ganhou maior força de emoção e de poesia. A sua originalidade extremou-se. Ele soube isolar em seus dados pessoais, em sua inteligência e em sua sensibilidade de exceção, os elementos de irredutível humanidade. Como se diz em linguagem matemática, pôs em evidência o fator comum de todas as expressões humanas. O olhar de Carlito, no filme O Circo, para a brioche do menino faz rir a criançada como um gesto de gulodice engraçada. Para um adulto pode sugerir da maneira mais dramática todas as categorias do desejo. A sua arte simplificou-se ao mesmo tempo que se aprofundou e alargou. Cada espectador pode encontrar nela o que procura: o riso, a crítica, o lirismo ou ainda o contrário de tudo isso.
Essas reflexões me acudiram ao espírito ao ler umas linhas da entrevista fornecida a Florent Fels pelo pintor Pascin, búlgaro naturalizado americano. Pascin não gosta de Carlito e explicou que uma fita de Carlito nos Estados Unidos tem uma significação muito diversa da que lhe dão fora de lá. Nos Estados Unidos Carlito é o sujeito que não sabe fazer as coisas como todo mundo, que não sabe viver como os outros, não se acomoda em meio algum, – em suma um inadaptável. O espectador americano ri satisfeito de se sentir tão diferente daquele sonhador ridículo. É isto que faz o sucesso de Chaplin nos Estados Unidos. Carlito com as suas lamentáveis aventuras constitui ali uma lição de moral para educação da mocidade no sentido de preparar uma geração de homens hábeis, práticos e bem quaisquer!
Por mais ao par que se esteja do caráter prático do americano, do seu critério de sucesso para julgamento das ações humanas, do seu gosto pela estandardização, não deixa de surpreender aquela interpretação moralista dos filmes de Chaplin. Bem examinadas as coisas, não havia motivo para surpresa. A interpretação cabe perfeitamente dentro do tipo e mais: o americano bem verdadeiramente americano, o que veda a entrada do seu território a doentes e estropiados, o que propõe o pacto contra a guerra e ao mesmo tempo assalta a Nicarágua, não poderia sentir de outro modo.
Não importa, não será menos legítima a concepção contrária, tanto é verdade que tudo cabe na humanidade vasta de Carlito. Em vez de um fraco, de um pulha, de um inadaptável, posso eu interpretar Carlito como um herói. Carlito passa por todas as misérias sem lágrimas nem queixas. Não é força isto? Não perde a bondade apesar de todas as experiências, e no meio das maiores privações acha um jeito de amparar a outras criaturas em aperto. Isso é pulhice?
Aceita com estoicismo as piores situações, dorme onde é possível ou não dorme, come sola de sapato cozida como se se tratasse de alguma língua do Rio Grande. É um inadaptável?
Sem dúvida não sabe se adaptar às condições de sucesso na vida. Mas haverá sucesso que valha a força de ânimo do sujeito sem nada neste mundo, sem dinheiro, sem amores, sem teto, quando ele pode agitar a bengalinha como Carlito com um gesto de quem vai tirar a felicidade do nada? Quando um ajuntamento se forma nos filmes, os transeuntes vão parando e acercando-se do grupo com um ar de curiosidade interesseira. Todos têm uma fisionomia preocupada. Carlito é o único que está certo do prazer ingênuo de olhar.
Neste sentido Carlito é um verdadeiro professor de heroísmo. Quem vive na solidão das grandes cidades não pode deixar de sentir intensamente o influxo da sua lição, e uma simpatia enorme nos prende ao boêmio nos seus gestos de aceitação tão simples.
Nada mais heróico, mais comovente do que a saída de Carlito no fim de O Circo. Partida a companhia, em cuja troupe seguia a menina que ele ajudara a casar com outro, Carlito por alguns momentos se senta no círculo que ficou como último vestígio do picadeiro, refletindo sobre os dias de barriga cheia e relativa felicidade sentimental que acabava de desfrutar. Agora está de novo sem nada e inteiramente só. Mas os minutos de fraqueza duram pouco. Carlito levanta-se, dá um puxão na casaquinha para recuperar a linha, faz um molinete com a bengalinha e sai campo afora sem olhar para trás. Não tem um vintém, não tem uma afeição, não tem onde dormir nem o que comer. No entanto vai como um conquistador pisando em terra nova. Parece que o Universo é dele. E não tenham dúvida: o Universo é dele.
Com efeito, Carlito é poeta.
(Em: Crônicas da Província do Brasil. 1937.)
Glossário:
idiossincrasia (linha 3): maneira de ser e de agir própria de cada pessoa.
mamulengo (linha 4): fantoche, boneco usado à mão em peças de teatro popular ou infantil.
tabético (linha 9): que tem andar desgovernado, sem muita firmeza.
dandismo (linha 18): relativo ao indivíduo que se veste e se comporta com elegância.
pulhice (linha 54): safadeza, canalhice.
estoicismo (linha 55): resignação com dignidade diante do sofrimento, da adversidade, do infortúnio.
molinete (linha 71): movimento giratório que se faz com a espada ou outro objeto semelhante.
Considere os enunciados abaixo, atentando para as palavras destacadas (entre « »).
I. Não há hoje no mundo, em «qualquer» domínio de atividade artística, um artista cuja arte contenha maior universalidade que a de Charles Chaplin. (linhas 1 e 2)
II. Agrada por não sei quê de elegante que há no seu «ridículo» de miséria. (linha 17)
III. [...] uma fita de Carlito nos Estados Unidos tem uma significação muito «diversa» da que lhe dão fora de lá. (linhas 36 e 37)
IV. A interpretação cabe perfeitamente dentro do tipo e mais: o americano bem verdadeiramente «americano», o que veda a entrada do seu território a doentes e estropiados, [...] (linhas 47 e 48)
As palavras destacadas têm valor de adjetivo
A)apenas em I, II e IV.
B)apenas em I, III e IV.
C)apenas em II e IV.
D)apenas em III e IV.
E)em todas.
ITA20101a faseQuestao 25PortuguêsGramática e Norma CultaMedia
As questões 21 a 28 referem-se ao texto de Lya Luft (Veja, 06/06/2007), reproduzido na figura. As referências a "linha N" remetem à numeração que aparece na figura.
Indique a opção em que o MAS tem função aditiva.
Imagens anexadas
A)Atenção: na minha coluna não usei "careta" como quadrado, estreito, alienado, fiscalizador e moralista, mas humano, aberto, atento, cuidadoso. (linhas 3 a 5)
B)Não apenas no sentido econômico, mas emocional e psíquico: os sem auto-estima, sem amor, sem sentido de vida, sem esperança e sem projetos. (linhas 13 e 14)
C)Não solto, não desorientado e desamparado, mas amado com verdade e sensatez. (linha 21)
D)[...] (não me refiro a nomes importantes, mas a seres humanos confiáveis) [...]. (linhas 32 e 33)
E)Pois, na hora da angústia, não são os amiguinhos que vão orientá-los e ampará-los, mas o pai e a mãe – se tiverem cacife. (linhas 35 e 36)
ITA20091a faseQuestao 23PortuguêsGramática e Norma CultaDificil
Leia o texto seguinte, de Maria Rita Kehl, para responder à questão. (As linhas estão numeradas.)
1 Vou direto ao ponto: estive em Paris. Está dito e precisava ser dito, logo verão por quê. Mas é difícil
2 escapar à impressão de pedantismo ou de exibicionismo, ao dizer isto. Culpa da nossa velha francofilia (já um
3 tanto fora de moda). Ou do complexo de eternos colonizados diante dos países de primeiro mundo. Alguns
4 significantes, como Nova Iorque ou Paris, produzem fascínio instantâneo. Se eu disser "fui a Paris", o
5 interlocutor responderá sempre: "que luxo!". E se contar: "fui assaltada em Paris", ou "fui atropelada em Paris",
6 é bem provável que escute: "mas que luxo, ser assaltada (atropelada) em Paris!"
7 O pior é que é verdade. É um verdadeiro luxo, Paris. Não por causa do Louvre, da Place Vêndome ou
8 dos Champs Élisées. Nem pelas mercadorias todas, lindas, chiques, caras, que nem penso em trazer para
9 casa. Meu luxo é andar nas ruas, a qualquer hora da noite ou do dia, sozinha ou acompanhada, a pé, de
10 ônibus ou de metrô (nunca de táxi) e não sentir medo de nada. Melhor: de ninguém. Meu luxo é enfrentar sem
11 medo o corpo a corpo com a cidade, com a multidão.
12 O artigo de luxo que eu traria de Paris para a vida no Brasil, se eu pudesse – artigo que não se
13 globalizou, ao contrário, a cada dia fica mais raro e caro – seria este. O luxo de viver sem medo. Sem medo de
14 quê? De doenças? Da velhice? Da morte, da solidão? Não, estes medos fazem parte da condição humana.
15 Pertencemos a esta espécie desnaturada, a única que sabe de antemão que o coroamento da vida consiste na
16 decadência física, na perda progressiva dos companheiros de geração e, para coroar tudo, na morte. Do medo
17 deste previsível grand finale não se escapa.
18 O luxo de viver sem medo a que me refiro é bem outro. O de circular na cidade sem temer o semelhante,
19 sem que o fantasma de um encontro violento esteja sempre presente. Não escrevi "viver numa sociedade sem
20 violência", já que a violência é parte integrante da vida social. Basta que a expectativa da violência não
21 predomine sobre todas as outras. Que a preocupação com a "segurança" (que no Brasil de hoje se traduz nas
22 mais variadas formas de isolamento) não seja o critério principal para definir a qualidade da vida urbana. Não
23 vale dizer que fora do socialismo este problema não tem solução. Há mais conformismo do que parece em
24 apostar todas as fichas da política na utopia. Enquanto a sociedade ideal não vem, estaremos condenados a
25 viver tão mal como vivemos todos por aqui? Temos que nos conformar com a sociabilidade do medo? Mas eu
26 conheço, eu vivi numa cidade diferente desta em que vivo hoje. Esta cidade era São Paulo. Já fiz longas
27 caminhadas a pé pelo centro, de madrugada. Namorando, conversando com amigos, pelo prazer
28 despreocupado da flânerie*. A passagem do ano de 1981 para 82 está viva na minha lembrança. Uma amiga
29 pernambucana quis conhecer a "esquina de Sampa". Fomos, num grupo de quatro pessoas, até a Ipiranga com
30 a São João. Dali nos empolgamos e seguimos pelo centro velho. Mendigos na rua não causavam medo. Do
31 Paysandu (o Ponto Chic estava aberto, claro!) seguimos pelo Arouche, República, São Luís, Municipal,
32 Patriarca, Sé; o dia primeiro nasceu no Largo São Bento.
33 Não escrevo movida pelo saudosismo, mas pela esperança. Isso faz tão pouco tempo! Sei lá como os
34 franceses conseguiram preservar seu raro luxo urbano. Talvez o valor do espaço público, entre eles, não tenha
35 sido superado pelo dos privilégios privados. Talvez a lei se proponha, de fato, a valer para todos. Pode ser que
36 a justiça funcione melhor. E que a sociedade não abra mão da aposta nos direitos. Pode ser que a violência
37 necessária se exerça, prioritariamente, no campo da política, e não da criminalidade.
38 Se for assim, acabo de mudar de idéia. Viver sem medo não é, não pode ser um luxo. É básico; é o grau
39 zero da vida em sociedade. Viver com medo é que é uma grande humilhação.
40 (Maria Rita Kehl. Você tem medo de quê? Em: http://www.mariaritakehl.psc.br, 2007, adaptado.)
*flânerie (substantivo feminino): passeio sem destino.
Assinale a opção em que o uso do sinal de pontuação NÃO se justifica pelo mesmo motivo nas duas ocorrências.
A)Parênteses em: "(já um tanto fora de moda)." (linhas 2 e 3) / "(que no Brasil de hoje se traduz nas mais variadas formas de isolamento)" (linhas 21 e 22)
B)Aspas em: "fui a Paris", (linha 4) / "viver numa sociedade sem violência", (linhas 19 e 20)
C)Interrogação em: Sem medo de quê? (linhas 13 e 14) / Temos que nos conformar com a sociabilidade do medo? (linha 25)
D)Exclamação em: (o Ponto Chic estava aberto, claro!) (linha 31) / Isso faz tão pouco tempo! (linha 33)
E)Vírgula em: É um verdadeiro luxo, Paris. (linha 7) / Não, estes medos fazem parte da condição humana. (linha 14)
ITA20091a faseQuestao 31PortuguêsGramática e Norma CultaMedia
Leia o texto seguinte para responder à questão. (As linhas estão numeradas.)
1 A vegetação do cerrado é influenciada pelas características do solo e do clima, bem como pela
2 freqüência de incêndios. O excesso de alumínio provoca uma alta acidez no solo, o que diminui a
3 disponibilidade de nutrientes e o torna tóxico para plantas não adaptadas. A hipótese do escleromorfismo
4 oligotrófico defende que a elevada toxicidade do solo e a baixa fertilidade das plantas levariam ao nanismo e à
5 tortuosidade da vegetação.
6 Além disso, a variação do clima nas diferentes estações (sazonalidade) tem efeito sobre a quantidade de
7 nutrientes e o nível tóxico do solo. Com baixa umidade, a toxicidade se eleva e a disponibilidade de nutrientes
8 diminui, influenciando o crescimento das plantas.
9 Já outra hipótese propõe que o formato tortuoso das árvores do cerrado se deve à ocorrência de
10 incêndios. Após a passagem do fogo, as folhas e gemas (aglomerados de células que dão origem a novos
11 galhos) sofrem necrose e morrem. As gemas que ficam nas extremidades dos galhos são substituídas por
12 gemas internas, que nascem em outros locais, quebrando a linearidade do crescimento.
13 Quando a freqüência de incêndios é muito elevada, a parte aérea (galhos e folhas) do vegetal pode não
14 se desenvolver e ele se torna uma planta anã. Pode-se dizer, então, que a combinação entre sazonalidade,
15 deficiência nutricional dos solos e ocorrência de incêndios determina as características da vegetação do
16 cerrado. (André Stella e Isabel Figueiredo. Ciência hoje, março/2008, adaptado.)
Os parênteses nos trechos abaixo são usados para inserir
I. uma síntese, em "a variação do clima nas diferentes estações (sazonalidade)" (linha 6).
II. uma explicação, em "as folhas e gemas (aglomerados de células que dão origem a novos galhos)" (linhas 10 e 11).
III. uma explicação, em "a parte aérea (galhos e folhas)" (linha 13).
Está(ão) correta(s)
A)apenas a I.
B)apenas a II.
C)apenas I e II.
D)apenas I e III.
E)todas.
ITA20091a faseQuestao 34PortuguêsGramática e Norma CultaMedia
Assinale a opção em que a ausência da vírgula NÃO altera o sentido da frase.
A)Não, espere.
B)Não, quero ler.
C)Aceito, obrigado.
D)Amanhã, pode ser.
E)Eu quero um, sim.
ITA20081a faseQuestao 29PortuguêsGramática e Norma CultaDificil
Leia o texto seguinte, de Ferreira Gullar ("Jogos de azar"), para responder à questão. (As linhas estão numeradas.)
1 Com um pouco de exagero, costumo dizer que todo jogo é de azar. Falo assim referindo-me ao futebol
2 que, ao contrário da roleta ou da loteria, implica tática e estratégia, sem falar no principal, que é o talento e a
3 habilidade dos jogadores. Apesar disso, não consegue eliminar o azar, isto é, o acaso.
4 E já que falamos em acaso, vale lembrar que, em francês, “acaso” escreve-se “hasard”, como no
5 célebre verso de Mallarmé, que diz: “um lance de dados jamais eliminará o acaso”. Ele está, no fundo,
6 referindo-se ao fazer do poema que, em que pese a mestria e lucidez do poeta, está ainda assim sujeito ao
7 azar, ou seja, ao acaso.
8 Se no poema é assim, imagina numa partida de futebol, que envolve 22 jogadores se movendo num
9 campo de amplas dimensões. Se é verdade que eles jogam conforme esquemas de marcação e ataque,
10 seguindo a orientação do técnico, deve-se no entanto levar em conta que cada jogador tem sua percepção da
11 jogada e decide deslocar-se nesta ou naquela direção, ou manter-se parado, certo de que a bola chegará a
12 seus pés. Nada disso se pode prever, daí resultando um alto índice de probabilidades, ou seja, de ocorrências
13 imprevisíveis e que, portanto, escapam ao controle.
14 Tomemos, como exemplo, um lance que quase sempre implica perigo de gol: o tiro de canto. Não é à
15 toa que, quando se cria essa situação, os jogadores da defesa se afligem em anular as possibilidades que têm
16 os adversários de fazerem o gol. Sentem-se ao sabor do acaso, da imprevisibilidade. O time adversário
17 desloca para a área do que sofre o tiro de canto seus jogadores mais altos e, por isso mesmo, treinados para
18 cabecear para dentro do gol. Isto reduz o grau de imprevisibilidade por aumentar as possibilidades do time
19 atacante de aproveitar em seu favor o tiro de canto e fazer o gol. Nessa mesma medida, crescem, para a
20 defesa, as dificuldades de evitar o pior. Mas nada disso consegue eliminar o acaso, uma vez que o batedor do
21 escanteio, por mais exímio que seja, não pode com precisão absoluta lançar a bola na cabeça de determinado
22 jogador. Além do mais, a inquietação ali na área é grande, todos os jogadores se movimentam, uns tentando
23 escapar à marcação, outros procurando marcá-los. Essa movimentação, multiplicada pelo número de
24 jogadores que se movem, aumenta fantasticamente o grau de imprevisibilidade do que ocorrerá quando a bola
25 for lançada. A que altura chegará ali? Qual jogador estará, naquele instante, em posição propícia para
26 cabeceá-la, seja para dentro do gol, seja para longe dele? Não existe treinamento tático, posição privilegiada,
27 nada que torne previsível o desfecho do tiro de canto. A bola pode cair ao alcance deste ou daquele jogador e,
28 dependendo da sorte, será gol ou não.
29 Não quero dizer com isso que o resultado das partidas de futebol seja apenas fruto do acaso, mas a
30 verdade é que, sem um pouco de sorte, neste campo, como em outros, não se vai muito longe; jogadores,
31 técnicos e torcedores sabem disso, tanto que todos querem se livrar do chamado “pé frio”. Como não pretendo
32 passar por supersticioso, evito aderir abertamente a essa tese, mas quando vejo, durante uma partida, meu
33 time perder “gols feitos”, nasce-me o desagradável temor de que aquele não é um bom dia para nós e de que
34 a derrota é certa.
35 Que eu, mero torcedor, pense assim, é compreensível, mas que dizer de técnicos de futebol que vivem
36 de terço na mão e medalhas de santos sob a camisa e que, em face de cada lance decisivo, as puxam para
37 fora, as beijam e murmuram orações? Isso para não falar nos que consultam pais-de-santo e pagam
38 promessas a Iemanjá. É como se dissessem: treino os jogadores, traço o esquema de jogo, armo jogadas,
39 mas, independentemente disso, existem forças imponderáveis que só obedecem aos santos e pais-de-santo;
40 são as forças do acaso.
41 Mas não se pode descartar o fator psicológico que, como se sabe, atua sobre os jogadores de qualquer
42 esporte; tanto isso é certo que, hoje, entre os preparadores das equipes há sempre um psicólogo. De fato, se
43 o jogador não estiver psicologicamente preparado para vencer, não dará o melhor de si.
44 Exemplifico essa crença na psicologia com a história de um técnico inglês que, num jogo decisivo da
45 Copa da Europa, teve um de seus jogadores machucado. Não era um craque, mas sua perda desfalcaria o
46 time. O médico da equipe, depois de atender o jogador, disse ao técnico: “Ele já voltou a si do desmaio, mas
47 não sabe quem é”. E o técnico: “Ótimo! Diga que ele é o Pelé e que volte para o campo imediatamente”.
(Ferreira Gullar. Jogos de azar. Em: Folha de S. Paulo, 24/06/2007.)
Qual dos advérbios terminados em -mente incide sobre o conteúdo de toda a frase?
A)fantasticamente (linha 24).
B)abertamente (linha 32).
C)independentemente (linha 39).
D)psicologicamente (linha 43).
E)imediatamente (linha 47).
ITA20081a faseQuestao 32PortuguêsGramática e Norma CultaMedia
Os excertos abaixo foram extraídos de uma etiqueta de roupa. Assinale a opção que NÃO apresenta erro quanto ao emprego da vírgula.
A)Para a secagem, as peças confeccionadas com cores claras e escuras, devem ser estendidas sempre com a cor clara para cima para evitar manchas.
B)Cuidado com produtos como esmalte, acetona, água oxigenada, tintura para cabelo, produtos para o rosto entre outros, pois, podem manchar as peças.
C)Produtos à base de cloro como água sanitária e água de lavadeira, atacam o corante desbotando o tecido.
D)Peças 100% algodão, não devem ser lavadas com peças que contêm poliéster, pois podem soltar bolinhas e estas se depositam sobre as fibras naturais.
E)Na lavagem, não misturar peças de cor clara com as de cor escura.
No Presarium Militares, você resolve essas questões com correção na hora, comentário e um painel que cruza a incidência com o seu desempenho — e monta sua lista de prioridade automaticamente.