Uma amostra das questões. Crie uma conta para resolver todas com correção e comentário.
EsPCEx (AMAN)2026Dia 1Questao 1PortuguêsInterpretação de textoMedia**MACHADO E ABEL**
*Manuel Bandeira*
O *Almanaque Garnier* de 1906 trazia o conto de Machado de Assis “O Incêndio”, postumamente recolhido no 2º volume de *Páginas recolhidas* da edição Jackson. O conto principia assim:
> Não inventei o que vou contar, nem o inventou o meu amigo Abel. Ele ouviu o fato com todas as circunstâncias, e um dia, em conversa, fez resumidamente a narração que me ficou na memória e aqui vai tal qual. Não lhe acharás o pico, a alma própria que este Abel põe a tudo o que exprime, seja uma ideia dele, seja, como no caso, uma história de outro.
Este Abel era o engenheiro civil Abel Ferreira de Matos, de que falei em minha crônica passada, na verdade o homem mais espirituoso que já vi na minha vida. Na conversa, fosse com quem fosse – homem, senhora ou menino –, na correspondência – era um correspondente pontual – punha sempre aquele pico e alma própria a que aludiu Machado de Assis e que a tudo comunicava logo extraordinário interesse.
O caso do conto “O Incêndio” ouviu-o Abel de mim, que por minha vez o ouvi da boca do próprio protagonista, oficial da marinha inglesa, que acabava de curar a sua “perna mal ferida” no Hospital dos Estrangeiros, onde eu então me achava também internado morre não morre. A história pode contar-se em poucas linhas: um navio de guerra inglês andava em cruzeiro pelo sul do Atlântico; no porto de Montevidéu desceu o oficial a terra e passeando na cidade viu um ajuntamento de gente diante de um sobrado envolvido em fogo e fumarada; no segundo andar, a uma janela, parecia ver-se a figura de uma mulher como que hesitante entre a morte pelo fogo e a morte pela queda; o oficial é que não hesitou: abriu caminho entre a multidão, meteu-se casa adentro para salvar a moça; quando chegou ao segundo andar, verificou que a moça da janela não era uma moça, era um manequim; tratou de descer, mas precisamente ao galgar a porta de entrada do sobrado foi atingido por uma trave, que lhe pegou uma das pernas.
Casos como esse, em que parece haver uma injustiça ou pelo menos indiferença da parte da Divina Providência, punham o nosso bom Abel, que era um crente e um espiritista, completamente desnorteado e infeliz. Foi o que sucedeu quando lhe narrei a história do inglês. Primeiro sacudiu a cabeça entre as mãos ambas. Em seguida comentou: “É um conto para Machado de Assis”.
E era mesmo. E Machado de Assis não deixou de agravar o caso inventando por sua conta que os bombeiros iam prendendo o oficial na suposição de que fosse um ladrão; era acrescentar à iniquidade divina a iniquidade humana. E Machado acaba o conto instalando o seu desencanto dos homens na alma do oficial, com dizer que ele “foi mandado a Calcutá, onde descansou da perna quebrada e do desejo de salvar ninguém”.
Abel tinha a Machado na conta de materialista. Convencera-se disso pela leitura de seus grandes romances. Ficou, pois, espantadíssimo quando um dia, no meio de uma conversa, dizendo tranquilamente a Machado: “Vocês, materialistas…”, foi vivamente interrompido pelo outro, que começou a gaguejar protestando: “Eu, ma… materialista? Absolutamente!”
(*Fonte*: BANDEIRA, Manuel. Flauta de papel. 2. Ed. São Paulo: Global, 2014, p. 63-64 – Adaptada)
De acordo com o texto, assinale a alternativa correta:
- A)Abel era amigo comum de Machado de Assis, de Manuel Bandeira e do oficial da marinha inglesa que contou a história.
- B)O oficial da marinha inglesa, que conhecia Manuel Bandeira, passeava pela cidade de Calcutá quando viu o incêndio.
- C)Manuel Bandeira conheceu o oficial da marinha inglesa, que não conhecia Abel. Este, por sua vez, conhecia Machado de Assis.
- D)Abel, que era crente e espiritualista, conheceu Manuel Bandeira, que era materialista e amigo de Machado de Assis.
- E)Manuel Bandeira estava internado no hospital quando contou essa história para Abel, que conhecia Machado de Assis.
EsPCEx (AMAN)2026Dia 1Questao 2PortuguêsInterpretação de textoDificilAnuladaDa leitura de “foi mandado a Calcutá, onde descansou da perna quebrada e do desejo de salvar ninguém.”, trecho escrito por Machado de Assis e transcrito por Manuel Bandeira, escolha a alternativa que traz a interpretação mais completa.
- A)Calcutá era um lugar aonde Abel ia para se curar do desencanto e da iniquidade humana, conhecido por oficiais da marinha inglesa à época da crônica, quando faziam viagens em navios de guerra pelo sul do Atlântico.
- B)A falta de paralelismo semântico, observado na escolha das palavras “perna” e “desejo” em complemento ao verbo “descansou”, leva o leitor a tratar o resultado do heroísmo desastrado do protagonista como apenas uma perna ferida, de que também precisa se recuperar.
- C)Usar a palavra “ninguém” no lugar de “alguém” remete à empreitada de um salvamento dirigido a um ser inanimado, “o manequim”. Interpreta-se o sarcasmo ao ligar esse salvamento ao vocábulo “desejo”, como se o oficial desejasse realmente “salvar ninguém”, o que obviamente está fora de cogitação.
- D)Descansar da perna é uma metáfora para o merecido descanso do heroico oficial, que, mesmo sem conhecer as circunstâncias da situação presenciada, mostrou-se pronto para o serviço, com a coragem e a determinação intrínsecas à profissão.
- E)Machado surpreende o leitor tanto pela quebra de paralelismo semântico – que consiste em colocar lado a lado elementos de significados díspares, como “perna” e “desejo” – quanto pelo uso do advérbio “ninguém”, que leva a uma série de interpretações sarcásticas em relação à história do oficial.
EsPCEx (AMAN)2026Dia 1Questao 4PortuguêsInterpretação de textoDificil“... fez resumidamente a narração que me ficou na memória e aqui vai tal qual.” No trecho destacado, Machado omite o elemento comparativo. Com base na leitura do texto, marque a alternativa que completa e explica corretamente a comparação: *e vai tal qual* _________ .
- A)a narração aconteceu. [*Machado exime-se da responsabilidade quanto aos fatos ou ao compromisso com a verdade da história.*]
- B)a narração feita resumidamente por Abel. [*Machado mostra que deve ser fiel ao que o amigo contou, mas sem o brilho narrativo que Abel colocava em tudo o que exprimia.*]
- C)ele [Abel] ouviu o fato. [*Machado mostra que o amigo Abel foi fiel ao que ouviu, sem fazer nenhum adendo ou exclusão.*]
- D)a narração que me ficou na memória. [*Machado mostra-se um autor fiel aos detalhes de que se lembra, reverenciando sua capacidade de contar, mas reconhece que o amigo faria melhor.*]
- E)os fatos sucederam-se. [*Machado mostra que a história foi contada sem acréscimos ou decréscimos.*]
EsPCEx (AMAN)2026Dia 1Questao 17PortuguêsInterpretação de textoMediaReleia o seguinte parágrafo do texto:
*Casos como esse, em que parece haver uma injustiça ou pelo menos indiferença da parte da Divina Providência, punham o nosso bom Abel, que era um crente e um espiritista, completamente desnorteado e infeliz. Foi o que sucedeu quando lhe narrei a história do inglês. Primeiro sacudiu a cabeça entre as mãos ambas. Em seguida comentou: “É um conto para Machado de Assis”.*
Podemos depreender que o comentário de Abel baseia-se na seguinte característica de Machado de Assis:
- A)sarcasmo.
- B)ciúmes.
- C)denúncia da hipocrisia e do egoísmo.
- D)análise psicológica do personagem.
- E)pessimismo.
EsPCEx (AMAN)2025Dia 1Questao 1PortuguêsInterpretação de textoMediaNo princípio eram as árvores
Os livros são filhos das árvores, que foram o primeiro lar da nossa espécie e, talvez, o mais antigo receptáculo das palavras escritas. A etimologia da palavra contém um velho relato sobre os primórdios. Em latim, liber, que significa “livro”, originariamente dava nome à casca da árvore ou, mais exatamente, à película fibrosa que separa a casca da madeira do tronco. Plínio, o Velho, afirma que os romanos escreviam em cascas de árvore antes de conhecer os rolos egípcios. Durante muitos séculos, diversos materiais – o papiro, o pergaminho – ocuparam o lugar daquelas antigas páginas de madeira, mas, numa viagem de ida e volta, com adoção do papel, os livros voltaram a nascer das árvores.
Como eu já expliquei, os gregos chamavam o livro de biblíon, rememorando a cidade fenícia de Biblos, famosa pela exportação de papiro. Atualmente o emprego dessa palavra, em sua evolução, ficou reduzido ao título de uma única obra, a Bíblia. Para os romanos, liber não evocava cidades nem rotas comerciais, mas o mistério do bosque onde seus antepassados começaram a escrever, em meio aos sussurros do vento nas folhas. Os nomes germânicos – book, Buch, boek – também descendem de uma palavra arbórea: a faia de tronco esbranquiçado.
Em latim, o termo que significa “livro” tem quase o mesmo som que o adjetivo que significa “livre”, embora as raízes indo-europeias de ambos os vocábulos tenham origens diferentes. Muitas línguas neolatinas, como o espanhol, o francês, o italiano e o português, herdaram a coincidência dessa semelhança fonética, que convida ao jogo de palavras, identificando leitura e liberdade. Para os iluministas de todas as épocas, são duas paixões que sempre acabam confluindo.
Hoje aprendemos a escrever com luz sobre telas de cristal líquido ou de plasma, mas ainda ouvimos o chamado originário das árvores. Em suas cascas redigimos um disperso inventário amoroso da humanidade. Antonio Machado, em seus passeios pelos Campos de Castela, costumava parar junto ao rio para ler algumas linhas desse livro dos amantes:
Voltei a ver os álamos dourados,
álamos do caminho na ribeira
do Douro, entre San Polo e San Saturio,
atrás das muralhas velhas de Soria […].
Estes choupos do rio, que acompanham
com o som de suas folhas secas
o som da água, quando o vento sopra,
têm em suas cascas
gravadas iniciais que são nomes
de apaixonados, números que são datas.
Quando um adolescente risca duas iniciais com a ponta do canivete na casca prateada de um álamo, reproduz, sem saber, um gesto muito antigo. Calímaco, o bibliotecário de Alexandria, já menciona no século III a.C. uma mensagem amorosa numa árvore. Não é o único. Um personagem de Virgílio imagina como a casca, com o passar dos anos, irá se alargar e corroer seu nome e o dela: “E gravar meus amores nas jovens árvores; crescerão as árvores e com elas crescerão vocês, amores meus.” Talvez o costume, ainda vivo, de tatuar letras na pele de uma árvore para conservar a lembrança de alguém que viveu e amou tenha sido um dos episódios mais antigos de escrita na Europa. Talvez, à beira de um rio que corre e passa e sonha, como dizia Machado, os antigos gregos e romanos tenham escrito os primeiros pensamentos e as primeiras palavras de amor. Sabe-se lá quantas dessas árvores acabaram se transformando em livros.
GLOSSÁRIO:
Álamo – árvore ornamental de flores pequenas e casca rugosa, o mesmo que choupo;
Papiro – folha para escrever feita das hastes dos juncos provenientes das margens do rio Nilo;
Pergaminho – pele de cabra ou de ovelha preparada para a escrita ou encadernação;
Choupos – o mesmo que álamo;
Junco – nome comum a várias plantas herbáceas;
Faia – espécie de árvore; e
Indo-europeu – origem comum das línguas europeias.
Fonte: VALLEJO, Irene. O Infinito em um Junco: A Invenção dos Livros no Mundo Antigo. Tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman. 1ª ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022.
De acordo com o texto, assinale a alternativa com a interpretação mais adequada para a frase “A etimologia da palavra contém um velho relato sobre os primórdios.”, localizada no primeiro parágrafo:
- A)O conhecimento do significado original da palavra latina liber, que originou a palavra “livro” em português, possibilita desvendar a relação do homem com a escrita nas cascas das árvores.
- B)Os primórdios da vida humana encontram-se nas árvores que, como receptáculos da palavra escrita, tornaram-se a verdadeira origem do conhecimento civilizatório.
- C)O velho relato sobre os primórdios dos livros é revelado pelo uso dos papiros egípcios, obtidos do junco que cresce no Rio Nilo, segundo a etimologia da palavra liber.
- D)A etimologia da palavra receptáculo conta a história da busca da humanidade por um material que recebesse a palavra escrita e a preservasse no tempo.
- E)A afirmação é genérica, pois refere-se à etimologia como uma ciência que nos leva a conhecer a história das palavras bem como sua origem.
EsPCEx (AMAN)2025Dia 1Questao 2PortuguêsInterpretação de textoDificilNo princípio eram as árvores
Os livros são filhos das árvores, que foram o primeiro lar da nossa espécie e, talvez, o mais antigo receptáculo das palavras escritas. A etimologia da palavra contém um velho relato sobre os primórdios. Em latim, liber, que significa “livro”, originariamente dava nome à casca da árvore ou, mais exatamente, à película fibrosa que separa a casca da madeira do tronco. Plínio, o Velho, afirma que os romanos escreviam em cascas de árvore antes de conhecer os rolos egípcios. Durante muitos séculos, diversos materiais – o papiro, o pergaminho – ocuparam o lugar daquelas antigas páginas de madeira, mas, numa viagem de ida e volta, com adoção do papel, os livros voltaram a nascer das árvores.
Como eu já expliquei, os gregos chamavam o livro de biblíon, rememorando a cidade fenícia de Biblos, famosa pela exportação de papiro. Atualmente o emprego dessa palavra, em sua evolução, ficou reduzido ao título de uma única obra, a Bíblia. Para os romanos, liber não evocava cidades nem rotas comerciais, mas o mistério do bosque onde seus antepassados começaram a escrever, em meio aos sussurros do vento nas folhas. Os nomes germânicos – book, Buch, boek – também descendem de uma palavra arbórea: a faia de tronco esbranquiçado.
Em latim, o termo que significa “livro” tem quase o mesmo som que o adjetivo que significa “livre”, embora as raízes indo-europeias de ambos os vocábulos tenham origens diferentes. Muitas línguas neolatinas, como o espanhol, o francês, o italiano e o português, herdaram a coincidência dessa semelhança fonética, que convida ao jogo de palavras, identificando leitura e liberdade. Para os iluministas de todas as épocas, são duas paixões que sempre acabam confluindo.
Hoje aprendemos a escrever com luz sobre telas de cristal líquido ou de plasma, mas ainda ouvimos o chamado originário das árvores. Em suas cascas redigimos um disperso inventário amoroso da humanidade. Antonio Machado, em seus passeios pelos Campos de Castela, costumava parar junto ao rio para ler algumas linhas desse livro dos amantes:
Voltei a ver os álamos dourados,
álamos do caminho na ribeira
do Douro, entre San Polo e San Saturio,
atrás das muralhas velhas de Soria […].
Estes choupos do rio, que acompanham
com o som de suas folhas secas
o som da água, quando o vento sopra,
têm em suas cascas
gravadas iniciais que são nomes
de apaixonados, números que são datas.
Quando um adolescente risca duas iniciais com a ponta do canivete na casca prateada de um álamo, reproduz, sem saber, um gesto muito antigo. Calímaco, o bibliotecário de Alexandria, já menciona no século III a.C. uma mensagem amorosa numa árvore. Não é o único. Um personagem de Virgílio imagina como a casca, com o passar dos anos, irá se alargar e corroer seu nome e o dela: “E gravar meus amores nas jovens árvores; crescerão as árvores e com elas crescerão vocês, amores meus.” Talvez o costume, ainda vivo, de tatuar letras na pele de uma árvore para conservar a lembrança de alguém que viveu e amou tenha sido um dos episódios mais antigos de escrita na Europa. Talvez, à beira de um rio que corre e passa e sonha, como dizia Machado, os antigos gregos e romanos tenham escrito os primeiros pensamentos e as primeiras palavras de amor. Sabe-se lá quantas dessas árvores acabaram se transformando em livros.
GLOSSÁRIO:
Álamo – árvore ornamental de flores pequenas e casca rugosa, o mesmo que choupo;
Papiro – folha para escrever feita das hastes dos juncos provenientes das margens do rio Nilo;
Pergaminho – pele de cabra ou de ovelha preparada para a escrita ou encadernação;
Choupos – o mesmo que álamo;
Junco – nome comum a várias plantas herbáceas;
Faia – espécie de árvore; e
Indo-europeu – origem comum das línguas europeias.
Fonte: VALLEJO, Irene. O Infinito em um Junco: A Invenção dos Livros no Mundo Antigo. Tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman. 1ª ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022.
No título: “No princípio eram as árvores”, Irene Vallejo coloca o leitor imediatamente a par da sua tese de que a escrita nas árvores é a forma mais antiga de escrita na Europa. Ao longo do texto, traz argumentos que contribuem para essa conclusão:
I – A etimologia da palavra latina liber.
II – A afirmação de Plínio, o Velho.
III – A etimologia da palavra biblíon.
IV – O poema de Antonio Machado.
V – O registro de Calímaco, bibliotecário de Alexandria.
VI – Um personagem de Virgílio.
Das afirmativas feitas acima, marque apenas as que apresentam os argumentos favoráveis à tese da autora:
- A)I, II, III e IV.
- B)II, IV, V e VI.
- C)I, III, IV e VI.
- D)I, II, IV, V e VI.
- E)I, II, III, IV, V e VI.
EsPCEx (AMAN)2025Dia 1Questao 3PortuguêsInterpretação de textoMediaNo princípio eram as árvores
Os livros são filhos das árvores, que foram o primeiro lar da nossa espécie e, talvez, o mais antigo receptáculo das palavras escritas. A etimologia da palavra contém um velho relato sobre os primórdios. Em latim, liber, que significa “livro”, originariamente dava nome à casca da árvore ou, mais exatamente, à película fibrosa que separa a casca da madeira do tronco. Plínio, o Velho, afirma que os romanos escreviam em cascas de árvore antes de conhecer os rolos egípcios. Durante muitos séculos, diversos materiais – o papiro, o pergaminho – ocuparam o lugar daquelas antigas páginas de madeira, mas, numa viagem de ida e volta, com adoção do papel, os livros voltaram a nascer das árvores.
Como eu já expliquei, os gregos chamavam o livro de biblíon, rememorando a cidade fenícia de Biblos, famosa pela exportação de papiro. Atualmente o emprego dessa palavra, em sua evolução, ficou reduzido ao título de uma única obra, a Bíblia. Para os romanos, liber não evocava cidades nem rotas comerciais, mas o mistério do bosque onde seus antepassados começaram a escrever, em meio aos sussurros do vento nas folhas. Os nomes germânicos – book, Buch, boek – também descendem de uma palavra arbórea: a faia de tronco esbranquiçado.
Em latim, o termo que significa “livro” tem quase o mesmo som que o adjetivo que significa “livre”, embora as raízes indo-europeias de ambos os vocábulos tenham origens diferentes. Muitas línguas neolatinas, como o espanhol, o francês, o italiano e o português, herdaram a coincidência dessa semelhança fonética, que convida ao jogo de palavras, identificando leitura e liberdade. Para os iluministas de todas as épocas, são duas paixões que sempre acabam confluindo.
Hoje aprendemos a escrever com luz sobre telas de cristal líquido ou de plasma, mas ainda ouvimos o chamado originário das árvores. Em suas cascas redigimos um disperso inventário amoroso da humanidade. Antonio Machado, em seus passeios pelos Campos de Castela, costumava parar junto ao rio para ler algumas linhas desse livro dos amantes:
Voltei a ver os álamos dourados,
álamos do caminho na ribeira
do Douro, entre San Polo e San Saturio,
atrás das muralhas velhas de Soria […].
Estes choupos do rio, que acompanham
com o som de suas folhas secas
o som da água, quando o vento sopra,
têm em suas cascas
gravadas iniciais que são nomes
de apaixonados, números que são datas.
Quando um adolescente risca duas iniciais com a ponta do canivete na casca prateada de um álamo, reproduz, sem saber, um gesto muito antigo. Calímaco, o bibliotecário de Alexandria, já menciona no século III a.C. uma mensagem amorosa numa árvore. Não é o único. Um personagem de Virgílio imagina como a casca, com o passar dos anos, irá se alargar e corroer seu nome e o dela: “E gravar meus amores nas jovens árvores; crescerão as árvores e com elas crescerão vocês, amores meus.” Talvez o costume, ainda vivo, de tatuar letras na pele de uma árvore para conservar a lembrança de alguém que viveu e amou tenha sido um dos episódios mais antigos de escrita na Europa. Talvez, à beira de um rio que corre e passa e sonha, como dizia Machado, os antigos gregos e romanos tenham escrito os primeiros pensamentos e as primeiras palavras de amor. Sabe-se lá quantas dessas árvores acabaram se transformando em livros.
GLOSSÁRIO:
Álamo – árvore ornamental de flores pequenas e casca rugosa, o mesmo que choupo;
Papiro – folha para escrever feita das hastes dos juncos provenientes das margens do rio Nilo;
Pergaminho – pele de cabra ou de ovelha preparada para a escrita ou encadernação;
Choupos – o mesmo que álamo;
Junco – nome comum a várias plantas herbáceas;
Faia – espécie de árvore; e
Indo-europeu – origem comum das línguas europeias.
Fonte: VALLEJO, Irene. O Infinito em um Junco: A Invenção dos Livros no Mundo Antigo. Tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman. 1ª ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022.
Ao final do texto, a autora cria algumas hipóteses. Uma delas, a partir de uma fabulação especulativa, pode ser assim descrita:
- A)O crescimento das árvores poderá fazer crescer os nomes nelas inscritos com o passar dos anos.
- B)Uma mensagem amorosa em uma árvore pode ser um gesto muito antigo, já mencionado no séc. III a.C.
- C)Os primeiros pensamentos podem ter sido escritos em árvores que talvez tenham se transformado em livros.
- D)Os gregos e os romanos escreviam em árvores seus pensamentos e depois os transformavam em livros.
- E)Um dos episódios mais antigos de escrita na Europa pode ter sido tatuar letras na pele das árvores que cresciam na beira dos rios.
EsPCEx (AMAN)2025Dia 1Questao 4PortuguêsInterpretação de textoDificilNo princípio eram as árvores
Os livros são filhos das árvores, que foram o primeiro lar da nossa espécie e, talvez, o mais antigo receptáculo das palavras escritas. A etimologia da palavra contém um velho relato sobre os primórdios. Em latim, liber, que significa “livro”, originariamente dava nome à casca da árvore ou, mais exatamente, à película fibrosa que separa a casca da madeira do tronco. Plínio, o Velho, afirma que os romanos escreviam em cascas de árvore antes de conhecer os rolos egípcios. Durante muitos séculos, diversos materiais – o papiro, o pergaminho – ocuparam o lugar daquelas antigas páginas de madeira, mas, numa viagem de ida e volta, com adoção do papel, os livros voltaram a nascer das árvores.
Como eu já expliquei, os gregos chamavam o livro de biblíon, rememorando a cidade fenícia de Biblos, famosa pela exportação de papiro. Atualmente o emprego dessa palavra, em sua evolução, ficou reduzido ao título de uma única obra, a Bíblia. Para os romanos, liber não evocava cidades nem rotas comerciais, mas o mistério do bosque onde seus antepassados começaram a escrever, em meio aos sussurros do vento nas folhas. Os nomes germânicos – book, Buch, boek – também descendem de uma palavra arbórea: a faia de tronco esbranquiçado.
Em latim, o termo que significa “livro” tem quase o mesmo som que o adjetivo que significa “livre”, embora as raízes indo-europeias de ambos os vocábulos tenham origens diferentes. Muitas línguas neolatinas, como o espanhol, o francês, o italiano e o português, herdaram a coincidência dessa semelhança fonética, que convida ao jogo de palavras, identificando leitura e liberdade. Para os iluministas de todas as épocas, são duas paixões que sempre acabam confluindo.
Hoje aprendemos a escrever com luz sobre telas de cristal líquido ou de plasma, mas ainda ouvimos o chamado originário das árvores. Em suas cascas redigimos um disperso inventário amoroso da humanidade. Antonio Machado, em seus passeios pelos Campos de Castela, costumava parar junto ao rio para ler algumas linhas desse livro dos amantes:
Voltei a ver os álamos dourados,
álamos do caminho na ribeira
do Douro, entre San Polo e San Saturio,
atrás das muralhas velhas de Soria […].
Estes choupos do rio, que acompanham
com o som de suas folhas secas
o som da água, quando o vento sopra,
têm em suas cascas
gravadas iniciais que são nomes
de apaixonados, números que são datas.
Quando um adolescente risca duas iniciais com a ponta do canivete na casca prateada de um álamo, reproduz, sem saber, um gesto muito antigo. Calímaco, o bibliotecário de Alexandria, já menciona no século III a.C. uma mensagem amorosa numa árvore. Não é o único. Um personagem de Virgílio imagina como a casca, com o passar dos anos, irá se alargar e corroer seu nome e o dela: “E gravar meus amores nas jovens árvores; crescerão as árvores e com elas crescerão vocês, amores meus.” Talvez o costume, ainda vivo, de tatuar letras na pele de uma árvore para conservar a lembrança de alguém que viveu e amou tenha sido um dos episódios mais antigos de escrita na Europa. Talvez, à beira de um rio que corre e passa e sonha, como dizia Machado, os antigos gregos e romanos tenham escrito os primeiros pensamentos e as primeiras palavras de amor. Sabe-se lá quantas dessas árvores acabaram se transformando em livros.
GLOSSÁRIO:
Álamo – árvore ornamental de flores pequenas e casca rugosa, o mesmo que choupo;
Papiro – folha para escrever feita das hastes dos juncos provenientes das margens do rio Nilo;
Pergaminho – pele de cabra ou de ovelha preparada para a escrita ou encadernação;
Choupos – o mesmo que álamo;
Junco – nome comum a várias plantas herbáceas;
Faia – espécie de árvore; e
Indo-europeu – origem comum das línguas europeias.
Fonte: VALLEJO, Irene. O Infinito em um Junco: A Invenção dos Livros no Mundo Antigo. Tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman. 1ª ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022.
Segundo o texto, é correto afirmar que:
I – as duas paixões dos iluministas de todas as épocas são os jogos de palavras e a semelhança fonética entre as palavras.
II – as “antigas páginas de madeira” são as cascas das árvores.
III – a etimologia da palavra “livro” é grega.
IV – conotativamente, a origem da folha de papel é mais remota que a do papiro.
Dentre as afirmativas feitas acima, estão corretas apenas:
- A)I, II e III.
- B)I e IV.
- C)I e III.
- D)II e IV.
- E)II, III e IV.
EsPCEx (AMAN)2024Dia 1Questao 1PortuguêsInterpretação de textoMediaHOMEM NO MAR
Rubem Braga
De minha varanda vejo, entre árvores e telhados, o mar. Não há ninguém na praia, que resplende ao sol. O vento é nordeste, e vai tangendo, aqui e ali, no belo azul das águas, pequenas espumas que marcham alguns segundos e morrem, como bichos alegres e humildes; perto da terra a onda é verde.
Mas percebo um movimento em um ponto do mar; é um homem nadando. Ele nada a uma certa distância da praia, em braçadas pausadas e fortes; nada a favor das águas e do vento, e as pequenas espumas que nascem e somem parecem ir mais depressa do que ele. Justo: espumas são leves, não são feitas de nada, toda sua substância é água e vento e luz, e o homem tem sua carne, seus ossos, seu coração, todo seu corpo a transportar na água.
Ele usa os músculos com uma calma energia; avança. Certamente não suspeita de que um desconhecido o vê e o admira porque ele está nadando na praia deserta. Não sei de onde vem essa admiração, mas encontro nesse homem uma nobreza calma, sinto-me solidário com ele, acompanho o seu esforço solitário como se ele estivesse cumprindo uma bela missão. Já nadou em minha presença uns trezentos metros; antes, não sei; duas vezes o perdi de vista, quando ele passou atrás das árvores, mas esperei com toda confiança que reaparecesse sua cabeça, e o movimento alternado de seus braços. Mais uns cinquenta metros, e o perderei de vista, pois um telhado o esconderá. Que ele nade bem esses cinquenta ou sessenta metros; isto me parece importante; é preciso que conserve a mesma batida de sua braçada, e que eu o veja desaparecer assim como o vi aparecer, no mesmo rumo, no mesmo ritmo, forte, lento, sereno. Será perfeito; a imagem desse homem me faz bem.
É apenas a imagem de um homem, e eu não poderia saber sua idade, nem sua cor, nem os traços de sua cara. Estou solidário com ele, e espero que ele esteja comigo. Que ele atinja o telhado vermelho, e então eu poderei sair da varanda tranquilo, pensando "vi um homem sozinho, nadando no mar; quando o vi ele já estava nadando; acompanhei-o com atenção durante todo o tempo, e testemunho que ele nadou sempre com firmeza e correção; esperei que ele atingisse um telhado vermelho, e ele o atingiu".
Agora não sou mais responsável por ele; cumpri o meu dever, e ele cumpriu o seu. Admiro-o. Não consigo saber em que reside, para mim, a grandeza de sua tarefa; ele não estava fazendo nenhum gesto a favor de alguém, nem construindo algo de útil; mas certamente fazia uma coisa bela, e a fazia de um modo puro e viril. Não desço para ir esperá-lo na praia e lhe apertar a mão; mas dou meu silencioso apoio, minha atenção e minha estima a esse desconhecido, a esse nobre animal, a esse homem, a esse correto irmão.
(ANDRADE, Carlos Drummond de; et al. Elenco de cronistas modernos. 8. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1984. p. 128-129)
Com a leitura do texto, depreende-se que o narrador:
I - Sente-se solitário e deprimido em sua residência.
II - Contempla a beleza de um evento comum.
III - Preocupa-se com o tempo despendido na observação.
IV - Sensibiliza-se com o nadar de um desconhecido.
Estão corretas as afirmativas:
- A)I, II e III.
- B)II, III e IV.
- C)I e III.
- D)II e IV.
- E)I e IV.
EsPCEx (AMAN)2024Dia 1Questao 2PortuguêsInterpretação de textoMediaNo segundo parágrafo, a palavra "justo" é usada para:
- A)Informar que as espumas são feitas de água, vento e luz.
- B)Explicar o motivo pelo qual o homem precisa dar braçadas fortes.
- C)Legitimar o fato de as espumas irem mais depressa do que o nadador.
- D)Justificar a necessidade de mais força para transportar seu corpo na água.
- E)Introduzir a ideia de que o homem é feito de carne e osso.
EsPCEx (AMAN)2024Dia 1Questao 3PortuguêsInterpretação de textoMediaEm determinando momento, o narrador afirma: "Agora não sou mais responsável por ele; cumpri o meu dever, e ele cumpriu o seu." De acordo com o texto, pode-se afirmar que o dever cumprido pelo narrador foi:
- A)Conseguir a ideia para escrever uma crônica para o jornal.
- B)Exercer a solidariedade em relação ao homem que nadava com dificuldade.
- C)Não perder de vista o nadador, depois que este passou por trás das árvores.
- D)Testemunhar que o homem nadou sempre com firmeza e correção.
- E)Acompanhar o nadador até que ele atingisse o telhado vermelho.
EsPCEx (AMAN)2024Dia 1Questao 4PortuguêsInterpretação de textoMediaO encadeamento de palavras ao final do texto: "...a esse desconhecido, a esse nobre animal, a esse homem, a esse correto irmão." indica a seguinte relação entre narrador e nadador:
- A)Comparação.
- B)Distanciamento.
- C)Paralelo.
- D)Aproximação.
- E)Reconciliação.