Questões de Interpretação de texto no Escola Naval
21 no total
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Escola Naval2026Dia 2Questao 24PortuguêsInterpretação de textoMedia
Texto: A Máquina Extraviada, de José J. Veiga (VEIGA, José J. A Máquina Extraviada. 10ª ed. Rio: Bertrand Brasil, 1997. Texto adaptado). Leia o texto reproduzido na imagem e responda à questão.
Pode-se identificar como representação da racionalidade naquela cidade do sertão:
Imagens anexadas
A)as famílias.
B)os políticos.
C)o povo.
D)o vigário.
E)as velhinhas da igreja.
Escola Naval2026Dia 2Questao 28PortuguêsInterpretação de textoDificil
Texto: A Máquina Extraviada, de José J. Veiga (VEIGA, José J. A Máquina Extraviada. 10ª ed. Rio: Bertrand Brasil, 1997. Texto adaptado). Leia o texto reproduzido na imagem e responda à questão.
Analise o trecho a seguir:
"O meu receio é que, quando menos esperarmos, desembarque aqui um moço de fora [...] e sem ligar a nossos protestos se meta por baixo da máquina e desande a apertar, martelar, engatar, e a máquina comece a trabalhar. Se isso acontecer, estará quebrado o encanto e não existirá mais máquina." (15º§)
O narrador assegura que não haverá mais aquela máquina se ela for consertada porque:
Imagens anexadas
A)seria utilizada para a geração de lucro privado e não estaria mais disponível para o uso coletivo.
B)deixaria de gerar tanto mistério com relação às inúmeras possibilidades de função que eram idealizadas pelos moradores da cidade.
C)não mais perduraria, já que, ao colocá-la em funcionamento, certamente sofreria avarias e em breve seria destruída.
D)ao se descobrir sua função exata, ela seria levada embora pelo técnico que a consertou e nunca mais seria vista pelo restante da população.
E)o prefeito a venderia para algum comprador de fora, já que apareceram tantos interessados nela anteriormente.
Escola Naval2026Dia 2Questao 29PortuguêsInterpretação de textoDificil
Texto: A Máquina Extraviada, de José J. Veiga (VEIGA, José J. A Máquina Extraviada. 10ª ed. Rio: Bertrand Brasil, 1997. Texto adaptado). Leia o texto reproduzido na imagem e responda à questão.
A partir da leitura do texto, NÃO se pode afirmar que a máquina:
Imagens anexadas
A)estusiamava a população, pois representava a chegada da modernidade à cidade, embora não fosse capaz de produzir qualquer coisa por não estar em funcionamento.
B)transformou-se em um monumento de valor religioso para alguns moradores, fazendo-os inventar histórias mirabolantes a seu respeito e ter certos comportamentos quando estavam próximos a ela.
C)não só instigava disputas de ego entre os habitantes locais, mas também era cobiçada pelos que viviam além dos arredores da cidade, representando um símbolo de status desejado.
D)desempenhava o papel de cenário para diversas atividades cotidianas e oficiais da cidade, como um adorno que exaltava o ambiente progressista daquele lugar interiorano.
E)era vista como inofensiva pela população e as crianças eram autorizadas a brincar no local, pois havia uma pessoa designada pelo prefeito para zelar por ela.
Escola Naval2025Dia 2Questao 27PortuguêsInterpretação de textoMedia
Assinale a opção que, de acordo com o texto, justifica corretamente o aparente paradoxo no uso do termo destacado em "Agora, que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça,[...]" (1º§).
Imagens anexadas
A)O autor assinala a grande diferença de idade entre ele e a jovem adolescente.
B)Ocorre uma explícita ironia para depreciar a idade de Maria da Graça.
C)Subentende-se uma compreensão solidária das inquietações inerentes à adolescência.
D)Há uma concepção de que aos quinze anos uma pessoa já se pode considerar adulta.
E)O autor espera chamar a atenção da adolescente para os conselhos que lhe irá apresentar.
Escola Naval2025Dia 2Questao 31PortuguêsInterpretação de textoFacil
A partir da análise da vertente emocional implícita nos trechos abaixo, assinale a opção que apresenta corretamente os sentimentos transmitidos pelos pontos de exclamação.
Imagens anexadas
A)"Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" (6º§) - espanto e raiva.
B)"A porta do poço!" (6º§) - surpresa e alívio.
C)"A corrida terminou! [...]" (10º§) - dúvida e orgulho.
D)"A minha história é longa e triste!" (11º§) - tristeza e admiração.
E)"Minha vida daria um romance!" (11º§) - alegria e presunção.
Escola Naval2025Dia 2Questao 35PortuguêsInterpretação de textoFacil
A partir da leitura do texto, qual é o sentido da expressão destacada no trecho "Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso" (8º§)?
Imagens anexadas
A)Sabedoria que efetivamente resolve todos os problemas humanos.
B)Pensamentos sem importância, mas que podem ser úteis em certas ocasiões.
C)Sugestões que possibilitam corrigir uma realidade que se mostra inóspita para os jovens.
D)Conhecimentos para serem colocados em prática em situações simples do cotidiano.
E)Noções para serem guardadas no bolso como lembretes imediatos para a solução de problemas.
Escola Naval2025Dia 2Questao 36PortuguêsInterpretação de textoMedia
Assinale a opção que apresenta a tese implicitamente defendida pelo autor do texto.
Imagens anexadas
A)Jogos de palavras e situações absurdas criam uma atmosfera onírica de desconstrução da lógica tradicional, orientando Maria da Graça para a escolha dos seus sonhos.
B)O autor destaca diferentes figuras de linguagem que possibilitam uma apresentação dos devaneios humanos na fase adolescente da vida, em busca de realizações impossíveis.
C)Considerando a simbólica metamorfose da adolescência, sugere-se uma reflexão ética sobre o mundo em que vivemos, e como poderíamos ensaiar alternativas para driblar o que nos é imposto cotidianamente.
D)Paulo Mendes Campos aconselha a jovem adolescente a deixar para trás toda a lógica convencional e a aceitar que há certa dose de insanidade em todas as pessoas com as quais convive e conviverá ao longo de sua vida.
E)Os conselhos do autor à jovem Maria da Graça representam uma crítica à sociedade moderna, bem como à educação moralista concedida a crianças e jovens adolescentes, influenciadas, ainda, pelo acesso indiscriminado ao mundo tecnológico.
Escola Naval2024Dia 2Questao 26PortuguêsInterpretação de textoMedia
Texto 1
O DONO DO LIVRO
Martha Medeiros
Li outro dia um fato real narrado pelo escritor moçambicano Mia Couto. Ele disse que certa vez chegou em casa no fim do dia, já havia anoitecido, quando um garoto humilde de 16 anos o esperava sentado no muro. O garoto estava com um dos braços para trás, o que perturbou o escritor, que imaginou que pudesse ser assaltado.
Mas logo o menino mostrou o que tinha em mãos: um livro do próprio Mia Couto.
Esse livro é seu? perguntou o menino. Sim, respondeu o escritor. Vim devolver. O garoto explicou que horas antes estava na rua quando viu uma moça com aquele livro nas mãos, cuja capa trazia a foto do autor.
O garoto reconheceu Mia Couto pelas fotos que já havia visto em jornais. Então perguntou para a moça: Esse livro é do Mia Couto? Ela respondeu: É. E o garoto mais que ligeiro tirou o livro das mãos dela e correu para a casa do escritor para fazer a boa ação de devolver a obra ao verdadeiro dono.
Uma história assim pode acontecer em qualquer país habitado por pessoas que ainda não estejam familiarizadas com os livros - aqui no Brasil, inclusive. De quem é o livro? A resposta não é a mesma de quando se pergunta: “Quem escreveu o livro?”.
O autor é quem escreve, mas o livro é de quem lê, e isso de uma forma muito mais abrangente do que o conceito de propriedade privada - comprei, é meu. O livro é de quem lê mesmo quando foi retirado de uma biblioteca, mesmo que seja emprestado, mesmo que tenha sido encontrado num banco de praça.
O livro é de quem tem acesso às suas páginas e através delas consegue imaginar os personagens, os cenários, a voz e o jeito com que se movimentam. São do leitor as sensações provocadas, a tristeza, a euforia, o medo, o espanto, tudo o que é transmitido pelo autor, mas que reflete em quem lê de uma forma muito pessoal. É do leitor o prazer. É do leitor a identificação. É do leitor o aprendizado. É do leitor o livro.
Dias atrás gravei um comercial de rádio em prol do Instituto Estadual do Livro em que falo aos leitores exatamente isso: os meus livros são os seus livros. E são, de fato. Não existe livro sem leitor. Não existe. É um objeto fantasma que não serve para nada.
Aquele garoto de Moçambique não vê assim. Para ele, o livro é de quem traz o nome estampado na capa, como se isso sinalizasse o direito de posse. Não tem ideia de como se dá o processo todo, possivelmente nunca entrou numa livraria, nem sabe o que é tiragem.
Mas, em seu desengano, teve a gentileza de tentar colocar as coisas em seu devido lugar, mesmo que para isso tenha roubado o livro de uma garota sem perceber.
Ela era a dona do livro. E deve ter ficado estupefata. Um fã do Mia Couto afanou seu exemplar. Não levou o celular, a carteira, só quis o livro. Um danado de um amante da literatura, deve ter pensado ela. Assim são as histórias escritas também pela vida, interpretadas a seu modo por cada dono.
Revista O Globo, 25 de novembro de 2012. (Texto adaptado)
Assinale a opção que explicita a tese principal de Martha Medeiros no texto.
A)Critica-se, sobretudo, o problema da escassez de leitura em países como o Brasil e Moçambique, nos quais, por questões socioeconômicas, o hábito de ler ainda não foi internalizado.
B)O texto expõe uma ideia falaciosa, observada no fato de o escritor Mia Couto ter se perturbado com o garoto que trazia os braços para trás, pressupondo, com isso, que iria ser assaltado.
C)Apresentam-se algumas reflexões em torno da relação entre escritor e leitor, na qual o primeiro deve admitir, e aceitar, que tem uma propriedade provisória com relação àquilo que escreve.
D)Justifica-se a ação de um humilde jovem de 16 anos que “rouba” um livro, uma vez que a deficitária formação escolar dele impossibilita-o de compreender os critérios que definem a posse de um livro.
E)Destaca-se a importante atuação dos leitores de livros que, mergulhados tão profundamente em suas leituras, tornam-se capazes de elaborar suas próprias histórias, como fez a leitora que fora roubada.
Escola Naval2024Dia 2Questao 27PortuguêsInterpretação de textoDificil
Texto 1
O DONO DO LIVRO
Martha Medeiros
Li outro dia um fato real narrado pelo escritor moçambicano Mia Couto. Ele disse que certa vez chegou em casa no fim do dia, já havia anoitecido, quando um garoto humilde de 16 anos o esperava sentado no muro. O garoto estava com um dos braços para trás, o que perturbou o escritor, que imaginou que pudesse ser assaltado.
Mas logo o menino mostrou o que tinha em mãos: um livro do próprio Mia Couto.
Esse livro é seu? perguntou o menino. Sim, respondeu o escritor. Vim devolver. O garoto explicou que horas antes estava na rua quando viu uma moça com aquele livro nas mãos, cuja capa trazia a foto do autor.
O garoto reconheceu Mia Couto pelas fotos que já havia visto em jornais. Então perguntou para a moça: Esse livro é do Mia Couto? Ela respondeu: É. E o garoto mais que ligeiro tirou o livro das mãos dela e correu para a casa do escritor para fazer a boa ação de devolver a obra ao verdadeiro dono.
Uma história assim pode acontecer em qualquer país habitado por pessoas que ainda não estejam familiarizadas com os livros - aqui no Brasil, inclusive. De quem é o livro? A resposta não é a mesma de quando se pergunta: “Quem escreveu o livro?”.
O autor é quem escreve, mas o livro é de quem lê, e isso de uma forma muito mais abrangente do que o conceito de propriedade privada - comprei, é meu. O livro é de quem lê mesmo quando foi retirado de uma biblioteca, mesmo que seja emprestado, mesmo que tenha sido encontrado num banco de praça.
O livro é de quem tem acesso às suas páginas e através delas consegue imaginar os personagens, os cenários, a voz e o jeito com que se movimentam. São do leitor as sensações provocadas, a tristeza, a euforia, o medo, o espanto, tudo o que é transmitido pelo autor, mas que reflete em quem lê de uma forma muito pessoal. É do leitor o prazer. É do leitor a identificação. É do leitor o aprendizado. É do leitor o livro.
Dias atrás gravei um comercial de rádio em prol do Instituto Estadual do Livro em que falo aos leitores exatamente isso: os meus livros são os seus livros. E são, de fato. Não existe livro sem leitor. Não existe. É um objeto fantasma que não serve para nada.
Aquele garoto de Moçambique não vê assim. Para ele, o livro é de quem traz o nome estampado na capa, como se isso sinalizasse o direito de posse. Não tem ideia de como se dá o processo todo, possivelmente nunca entrou numa livraria, nem sabe o que é tiragem.
Mas, em seu desengano, teve a gentileza de tentar colocar as coisas em seu devido lugar, mesmo que para isso tenha roubado o livro de uma garota sem perceber.
Ela era a dona do livro. E deve ter ficado estupefata. Um fã do Mia Couto afanou seu exemplar. Não levou o celular, a carteira, só quis o livro. Um danado de um amante da literatura, deve ter pensado ela. Assim são as histórias escritas também pela vida, interpretadas a seu modo por cada dono.
Revista O Globo, 25 de novembro de 2012. (Texto adaptado)
Segundo Martha Medeiros, no Texto 1, “O autor é quem escreve, mas o livro é de quem lê, e isso de uma forma muito mais abrangente do que o conceito de propriedade privada [...]” (6º§).
Assinale a opção em que o escritor Mia Couto (poeta e ficcionista moçambicano) explica, implicitamente, a ideia de Martha Medeiros destacada acima.
A)“O segredo do escritor é anterior à escrita. Está na vida, na forma como ele está disponível a deixar-se tomar pelos pequenos detalhes do cotidiano.”
B)“O livro e o escritor não mudam a realidade, mas convidam, induzem o desejo de mudar essa realidade, de forma a saber que o sonho é uma outra maneira de escapar a esse aprisionamento.”
C)“[...] quando ficar sem mim/ não terei escrito/ senão por vós/ irmãos de sonho/ [...] hei de inventar/ um verso que vos faça justiça.”
D)“A ciência vive de inquietação, do desejo de conhecer para além dos limites. A escrita é uma falsa quietude, a capacidade de sentir sem limites. Ambas resultam da recusa das fronteiras, ambas são um passo sonhado para lá do horizonte.”
E)“O leitor constrói a voz de quem conta a história, e eu preciso esclarecer que quem está ali naquele momento não é a pessoa que escreveu.”
Escola Naval2023Dia 2Questao 23PortuguêsInterpretação de textoMedia
SER AUTOR
Escrever é difícil? Parece que sim, a julgar pelo que ouço de pessoas muito diversas, até mesmo de escritores. Imagine para os pobres mortais! E, sobretudo, acrescentaria, numa sociedade que se julga e é julgada por não saber, em geral, escrever. Até mestrandos e doutorandos, vejam só, recorrem a colegas, selecionados da área de Letras, que supõem "saber portugues", para uma boa revisão do que rascunharam em seus trabalhos acadêmicos.
No meu tempo de docência universitária, ouvia, frequentemente, alunos comentarem que concluiriam o curso sem saberem escrever, que o português era difícil, com muitas regras e exceções! Tomava fôlego, quando este comentário era feito em sala de aula e, como quem não quer nada, indagava informalmente a um aluno: Por que você acha que não sabe português e que nossa(!) língua é difícil? Resposta invariável: Não domino bem estas classificações gramaticais e tenho também meus vacilos quanto ao uso da norma culta! Veja a gramática do inglês! Bem mais simples, não? Então, você escreve bem textos em inglês? E, mais ou menos...
Respiro fundo. Me lembro logo do Mário Quintana em situação semelhante: "Um dia de espantos, hoje. Conversando com uma rapariga em flor, estudante, queixa-se ela da dificuldade da língua portuguesa, espanto-me: Mas como pode ser difícil uma língua em que você está falando comigo há dez minutos com toda a facilidade? Ela ficou espantada."
Meus espantos eram frequentes... Ainda são! A escola, embora queiram alguns tampar o sol com a peneira, estimula a cultura do erro, contribuindo muito, e desde cedo, para perpetuar esta avaliação de que a língua é difícil, de que escrever "um texto correto" então nem se falal Basta uma concordância, uma regência, "as sintaxes de exceção"...
Passava para os meus alunos testemunhos de alguns escritores, valorizados como tais, o de Rachel de Queiroz, por exemplo: Se eu dependesse, afirmava, para escrever, do domínio dos nomes tão complicados presentes no ensino da língua (ela se divertia), eu não poderia ser escritora. Como é mesmo? Oração reduzida de gerúndio? Sujeito inexistente? Substantivo epiceno?, caçoava. E ela, acrescento, mesmo pela fala da narradora, nem sempre se vale da língua bem comportada.
Escrever, na verdade, ainda que adotado certinho o português que é ensinado, exige bem mais da gente: o conhecimento do real, a ordenação das ideias, o domínio do gênero textual, a intenção comunicativa... Muitos outros conhecimentos, enfim! A vivência dos bancos escolares prossegue atuante pela vida afora, qual uma corrente. Nos tornamos adultos, com curso superior, e carentes ainda de um professor, por perto, para nos corrigir! Não dá para entender, dá? Só os escritores (e, atualmente, nem todos, nem todos...) e os que se arvoram em conhecedores da língua escapam de uma avaliação severa. Eta lingua difícil! Eta sociedade que fica então a afrontar o uso da língua legitimado pelas autor(idades)! Prova: Azul 2º DIA - PROVA DE FÍSICA E PORTUGUES es el is al nE fa es es pr ge qu pr E in fu ex CC er a es m el ac (P "il br ur SE CE es al pe es qu ex a SE -, m pa in CC er pa na ar CC lo de 0, da a, m uS e. e, a, Je A se eS le le ra a, 10 OS le ra S, la la la
Como ficar seguro de se assumir como autor, na escola e na vida, com tanto isto não pode, isto deve ser evitado, isto afronta as leis da língua, isto é de emprego não referendado pelos escritores (quais, na verdade?), isto, tenham paciência, é lá português? Perguntinha tola que me fica incomodando (gosto de me complicar - neurose? - com indagações perturbadoras): que língua falam todos os brasileiros (e são tantos.) sem escolaridade?
Fui a uma boa papelaria comprar um cartão para escrever a uma amiga, que aniversariava. Em minha procura, fui me dando conta de que eu só selecionava cartões com ilustrações de gosto duvidoso para mim: em geral, multicoloridas, florezinhas que estressavam cartão, com variedade nas partes externa e interna deles, borboletas estilizadas então, em quase todos... E as mensagens? Sem erros gramaticais, diga-se logo! Mas que mensagens tolas, com palavras ou expressões mais que gastas, ou, ao contrário, meio solenes, com a pretensão, talvez, de darem ao texto certo sabor literário. Estas mensagens pouco variavam. Pudera., eram impessoais. Onde o autor?
Sempre considerei que a vida, asseguradas certas igualdades, está na diferença. Uma palavra diferente pode nos proporcionar uma esperança nova. Indaguei a um funcionário da papelaria se não havia cartão, desses duplos, sem mensagem, e que a ilustração, caso existente, fosse sóbria (empreguei outra palavra, mais corrente, na ocasião). Não tinha, me respondeu. Coube, então, ao atendente me perguntar: Por que quer escrever a mensagem? Que trabalho! Já estão prontas em todos estes cartões daqui!
Capitulei. A sociedade, de modo geral, quer mesmo textos prontos e quase iguais. Reflexo mais evidente de gente que não está habituada a pensar, que acha que não pode ser autora nem de uma frasezinha (para que se expor assim à avaliação de um professor por al?). Pego um destes cartões: "os primeiros raios de sol", seu coração", "fazer seus pensamentos brilharem"... Positivamente não imagino uma criança ou um jovem como autor destas expressões. Para um adulto ser o destinatário, iriam pensar, iriam sim!, que ele as copiou justamente de um cartão destes, que já gozam de
No fundo mesmo, continuidade de uma rotina escolar antiga, em que o estudante, raramente, se sente autor do que escreve. Ouvi ou li outro dia o comentário pertinente que na escola se faz muita redação, mas se escreve pouco. Diria, que, sobretudo, quando se espera que, no texto, se crie um clima afetivo, com reticências, exclamações, interrogações. A escola se apresenta como a escola do ponto, fundamentalmente. Afinal, quase sempre, o interlocutor do aluno, - um interlocutor potente! -, é o professor. Todo cuidado é pouco... não é? Por isso, muitas vezes, a presença, em textos escolares, de palavras com paletó e gravata, ainda que empregadas inadequadamente.
O Manoel de Barros tem razão: Língua solene é coisa de políticos e advogados. E preciso ir ao encriançamento das palavras, palavras-brinquedo, palavras bolhas-de-sabão.. Em certas situações, naturalmente. Com crianças então! Para festejar o aniversário de uma amiga, por que, num cartão, não começar a ser autor com um singelo, mas carinhoso CPAEN/2022 Página: 12/17 "Gosto de você" ou num torpedo com um sempre bem recebido "Um beijo, minha amiga". Garantia assegurada de autoria textual! E de afetividade...
Fonte: UCHÔA, Carlos Eduardo Falcão. A vida e o tempo em tom de conversa: crônicas de um professor de linguagem. 1ª ed. Rio de Janeiro: Odisseia, 2013, p. 141-145. (Texto adaptado)
Assinale a opção que destaca o cuidado do locutor em adequar seu vocabulário aos conhecimentos linguísticos de seu interlocutor.
A)"Eta língua difícil! Eta sociedade que fica então a afrontar o uso da língua legitimado pelas autor(idades)!" (6º§)
B)"Estas mensagens pouco variavam. Pudera!, eram impessoais. Onde o autor?" (8º§)
C)"Indaguei a um funcionário da papelaria se não havia cartão [...] sem mensagem, e que a ilustração [...] fosse sóbria (empreguei outra palavra, mais corrente, na ocasião)." (9º§)
D)"Pego um destes cartões: 'os primeiros raios de sol', 'iluminem seu coração', 'fazer seus pensamentos brilharem'... Positivamente não imagino uma criança ou um jovem como autor destas expressões." (10º§)
E)"Em certas situações, naturalmente. Com crianças então!" (12º§)
Escola Naval2023Dia 2Questao 32PortuguêsInterpretação de textoMedia
SER AUTOR
Escrever é difícil? Parece que sim, a julgar pelo que ouço de pessoas muito diversas, até mesmo de escritores. Imagine para os pobres mortais! E, sobretudo, acrescentaria, numa sociedade que se julga e é julgada por não saber, em geral, escrever. Até mestrandos e doutorandos, vejam só, recorrem a colegas, selecionados da área de Letras, que supõem "saber portugues", para uma boa revisão do que rascunharam em seus trabalhos acadêmicos.
No meu tempo de docência universitária, ouvia, frequentemente, alunos comentarem que concluiriam o curso sem saberem escrever, que o português era difícil, com muitas regras e exceções! Tomava fôlego, quando este comentário era feito em sala de aula e, como quem não quer nada, indagava informalmente a um aluno: Por que você acha que não sabe português e que nossa(!) língua é difícil? Resposta invariável: Não domino bem estas classificações gramaticais e tenho também meus vacilos quanto ao uso da norma culta! Veja a gramática do inglês! Bem mais simples, não? Então, você escreve bem textos em inglês? E, mais ou menos...
Respiro fundo. Me lembro logo do Mário Quintana em situação semelhante: "Um dia de espantos, hoje. Conversando com uma rapariga em flor, estudante, queixa-se ela da dificuldade da língua portuguesa, espanto-me: Mas como pode ser difícil uma língua em que você está falando comigo há dez minutos com toda a facilidade? Ela ficou espantada."
Meus espantos eram frequentes... Ainda são! A escola, embora queiram alguns tampar o sol com a peneira, estimula a cultura do erro, contribuindo muito, e desde cedo, para perpetuar esta avaliação de que a língua é difícil, de que escrever "um texto correto" então nem se falal Basta uma concordância, uma regência, "as sintaxes de exceção"...
Passava para os meus alunos testemunhos de alguns escritores, valorizados como tais, o de Rachel de Queiroz, por exemplo: Se eu dependesse, afirmava, para escrever, do domínio dos nomes tão complicados presentes no ensino da língua (ela se divertia), eu não poderia ser escritora. Como é mesmo? Oração reduzida de gerúndio? Sujeito inexistente? Substantivo epiceno?, caçoava. E ela, acrescento, mesmo pela fala da narradora, nem sempre se vale da língua bem comportada.
Escrever, na verdade, ainda que adotado certinho o português que é ensinado, exige bem mais da gente: o conhecimento do real, a ordenação das ideias, o domínio do gênero textual, a intenção comunicativa... Muitos outros conhecimentos, enfim! A vivência dos bancos escolares prossegue atuante pela vida afora, qual uma corrente. Nos tornamos adultos, com curso superior, e carentes ainda de um professor, por perto, para nos corrigir! Não dá para entender, dá? Só os escritores (e, atualmente, nem todos, nem todos...) e os que se arvoram em conhecedores da língua escapam de uma avaliação severa. Eta lingua difícil! Eta sociedade que fica então a afrontar o uso da língua legitimado pelas autor(idades)! Prova: Azul 2º DIA - PROVA DE FÍSICA E PORTUGUES es el is al nE fa es es pr ge qu pr E in fu ex CC er a es m el ac (P "il br ur SE CE es al pe es qu ex a SE -, m pa in CC er pa na ar CC lo de 0, da a, m uS e. e, a, Je A se eS le le ra a, 10 OS le ra S, la la la
Como ficar seguro de se assumir como autor, na escola e na vida, com tanto isto não pode, isto deve ser evitado, isto afronta as leis da língua, isto é de emprego não referendado pelos escritores (quais, na verdade?), isto, tenham paciência, é lá português? Perguntinha tola que me fica incomodando (gosto de me complicar - neurose? - com indagações perturbadoras): que língua falam todos os brasileiros (e são tantos.) sem escolaridade?
Fui a uma boa papelaria comprar um cartão para escrever a uma amiga, que aniversariava. Em minha procura, fui me dando conta de que eu só selecionava cartões com ilustrações de gosto duvidoso para mim: em geral, multicoloridas, florezinhas que estressavam cartão, com variedade nas partes externa e interna deles, borboletas estilizadas então, em quase todos... E as mensagens? Sem erros gramaticais, diga-se logo! Mas que mensagens tolas, com palavras ou expressões mais que gastas, ou, ao contrário, meio solenes, com a pretensão, talvez, de darem ao texto certo sabor literário. Estas mensagens pouco variavam. Pudera., eram impessoais. Onde o autor?
Sempre considerei que a vida, asseguradas certas igualdades, está na diferença. Uma palavra diferente pode nos proporcionar uma esperança nova. Indaguei a um funcionário da papelaria se não havia cartão, desses duplos, sem mensagem, e que a ilustração, caso existente, fosse sóbria (empreguei outra palavra, mais corrente, na ocasião). Não tinha, me respondeu. Coube, então, ao atendente me perguntar: Por que quer escrever a mensagem? Que trabalho! Já estão prontas em todos estes cartões daqui!
Capitulei. A sociedade, de modo geral, quer mesmo textos prontos e quase iguais. Reflexo mais evidente de gente que não está habituada a pensar, que acha que não pode ser autora nem de uma frasezinha (para que se expor assim à avaliação de um professor por al?). Pego um destes cartões: "os primeiros raios de sol", seu coração", "fazer seus pensamentos brilharem"... Positivamente não imagino uma criança ou um jovem como autor destas expressões. Para um adulto ser o destinatário, iriam pensar, iriam sim!, que ele as copiou justamente de um cartão destes, que já gozam de
No fundo mesmo, continuidade de uma rotina escolar antiga, em que o estudante, raramente, se sente autor do que escreve. Ouvi ou li outro dia o comentário pertinente que na escola se faz muita redação, mas se escreve pouco. Diria, que, sobretudo, quando se espera que, no texto, se crie um clima afetivo, com reticências, exclamações, interrogações. A escola se apresenta como a escola do ponto, fundamentalmente. Afinal, quase sempre, o interlocutor do aluno, - um interlocutor potente! -, é o professor. Todo cuidado é pouco... não é? Por isso, muitas vezes, a presença, em textos escolares, de palavras com paletó e gravata, ainda que empregadas inadequadamente.
O Manoel de Barros tem razão: Língua solene é coisa de políticos e advogados. E preciso ir ao encriançamento das palavras, palavras-brinquedo, palavras bolhas-de-sabão.. Em certas situações, naturalmente. Com crianças então! Para festejar o aniversário de uma amiga, por que, num cartão, não começar a ser autor com um singelo, mas carinhoso CPAEN/2022 Página: 12/17 "Gosto de você" ou num torpedo com um sempre bem recebido "Um beijo, minha amiga". Garantia assegurada de autoria textual! E de afetividade...
Fonte: UCHÔA, Carlos Eduardo Falcão. A vida e o tempo em tom de conversa: crônicas de um professor de linguagem. 1ª ed. Rio de Janeiro: Odisseia, 2013, p. 141-145. (Texto adaptado)
Em "Ouvi ou li outro dia o comentário pertinente que na escola se faz muita redação, mas se escreve pouco." (11º§), o autor estabelece uma diferença entre "fazer redação" e "escrever".
Assinale a opção em que o autor explica, implicitamente, a diferença entre os dois processos: "fazer redação" e "escrever".
A)"Escrever é difícil? Parece que sim, [...]. Imagine para os pobres mortais! E, sobretudo, acrescentaria, numa sociedade que se julga e é julgada por não saber, em geral, escrever". (1º§)
B)"[...] A escola, embora queiram alguns tampar o sol com a peneira, estimula a cultura do erro, contribuindo muito, e desde cedo, para perpetuar esta avaliação de que a língua é difícil, de que escrever 'um texto correto' então nem se fala!" (4º§)
C)"Escrever, na verdade, ainda que adotado certinho o português que é ensinado, exige bem mais da gente: o conhecimento do real, a ordenação das ideias, o domínio do gênero textual, a intenção comunicativa... Muitos outros conhecimentos, enfim!" (6º§)
D)"Como ficar seguro de se assumir como autor, na escola e na vida, com tanto isto não pode, isto deve ser evitado, isto afronta as leis da língua, isto é de emprego não referendado pelos escritores [...]" (7º§)
E)"A sociedade, de modo geral, quer mesmo textos prontos e quase iguais. Reflexo mais evidente de gente que não está habituada a pensar, que acha que não pode ser autora nem de uma frasezinha (para que se expor assim à avaliação de um professor por aí?)". (10º§)
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TEXTO 1
A CADEIRINHA
Naquele fundo de sacristia, escondida ou arredada como se fora uma imagem quebrada cuja ausência do altar o decoro do culto exige, encontrei a cadeirinha azul, forrada de damasco cor de ouro velho. Na frente e no fundo, dois pequenos painéis pintados em madeira com traços finos e expressivos. Representava cada qual uma dama do antigo regime. A da frente, vestida de seda branca, contrastava a alvura do vestido e o tênue colorido da pele com o negrume dos cabelos repuxados em trunfa alta e o vivo carmim dos lábios; tinha um ar desdenhoso e fatigado de fidalga elegante para quem os requintes da etiqueta e galanteios dos salões são já coisas velhas e comezinhas. A outra, mais antiga ainda, trazia as melenas em cachos artísticos sobre as fontes e as pequeninas orelhas; um leque de marfim semiaberto comprimia-lhe os lábios rebeldes que queriam expandir-se num riso franco; os olhos grandes e negros tinham mais paixão e mais alma. Esta contemporânea de La Vallière, que o artista anônimo perpetuou na madeira da cadeirinha, não se parecia muito com aquela meiga vítima da régia concupiscência: ao contrário, um certo arregaçado das narinas, uma ponta de ironia que lhe voejava na comissura da boca breve e enérgica — tudo isso mostrava estar ali naquele painel: representada uma mulher meridional, ardente e vivaz, pronta ao amor apaixonado ou à luta odienta. [...] " Sem querer“acrescentar mais ao já dito sobre as damas, perguntava de mim para mim se o pintor do'século passado, ao traçar com tanta correção e finura os dois retratos de mulher, transmitindo-lhes em cada'cabelo do pincel uma chama de vida, não estaria realmente diante de dois espécimens raros de filhas de Eva, de duas heroínas que por serem de comédia ou de ópera nem por isso deixam de o ser da vida real? o
— Quem sabe se a Fontagens e a Montespan?
— Qual! Impossível!
— Impossível, não! Porque a cadeirinha podia perfeitamente ter sido pintada em França e era até mais natural crê-lo; porquanto a finura das tintas e a correção dos traços pareciam indicar um artista das grandes cortes da época.
E assim, em tais conjeturas, pus-me a examinar mais detidamente o velhó e delicado veículo, relíquia do século passado, sobrevivendo não sei por que na sacristia da igreja de um modesto arraial mineiro. Os varais, conformes à moda bizarra do tempo, terminavam em cabeças de dragões com as faces abertas e sanguentas e os olhos com uma expressão de ferocidade estúpida. O forro de cima formava um pequeno dossel de torno senhorial; e o ouro velho do damasco que alcatifava também os dois assentos fronteiriços não tem igual nas casas de modas de agora.
Qual das matronas de Ouro Preto, ou das cidades que como esta alcançam mais de um século, não terá visto, ou pelo menos ouvido falar com insistência, quando meninas, nas cadeirinhas conduzidas por lacaios de libre, onde as moçoilas e as damas de outrora se faziam delicadamente transportar?.
Quem não fará reviver na imaginação uma das cenas galantes da cortesia antiga em que, através da portinhola cortada de caprichosos lavores de talha, passava um rostozinho enrubescido e dois olhos de veludo a pousarem de leve sobre o cavalheiro de espadim com quem a misteriosa dama cruzava na passagem?
Também, ó pobre cadeirinha, lá terias o teu dia de caiporismo: havia de chegar a hora em que, em vez dos saltos vermelhos de um sapatinho de cetim calçando um pezinho delicado, teu fundo fosse calcado pela chanca esparramada de alguma cetácea obesa e tabaquista. [...]
Nem foram desses os teus piores dias, ó saudosa cadeirinha! Já pelos anos de tua velhice, quando, como agora, sobrevivias ao teu belo tempo passado, quando, perdidos teus antigos donos, alguém se lembrou de carregar-te para a sacristia da igreja, não te davam outro serviço que não o de transportares, como esquife, cadáveres de anjinhos pobres ao cemitério, ou semelhante às macas das ambulâncias militares, o de conduzires ao hospital feridos ou enfermos desvalidos.
Que cruel vingança não toma aquela época longínqua por lhe teres sobrevivido! Coisa inteiramente fora da moda, o contraste flagrante que formas com o mundo circundante é uma prova evidente de tua próxima eliminação, ó velha cadeirinha dos tempos mortos!
Mas é assim a vida: as espécies, como os indivíduos, vão desaparecendo ou se transformando em outras espécies e em outros indivíduos mais perfeitos, mais complicados, mais aptos para o meio atual, porém muito menos grandiosos que os passados. Que figura faria o elefante de hoje, resto exótico da fauna terciária, ao lado do megatério? A de um filhote deste. E no entanto, bem cedo, talvez nos nossos dias, desaparecerá o elefante, por já estar em desarmonia com a fauna atual, por constituir já aquele doloroso contraste de que falamos acima e que é o primeiro sintoma da próxima eliminação do grande paquiderme. Parece que o progresso marcha para a dispersão, a desagregação e o formigamento. Um grande organismo tomba e se decompõe e vai formar uma inumerável quantidade de seres ávidos de vida. A morte, essa grande ilusão humana, é o início daquela dispersão, ou antes a fonte de muitas vidas. E que grande consoladora!
Lembra-me ter visto, há tempos, um octogenário de passo ôpego e cara rapada passeando em trajes domingueiros a pedir uma carícia ao sol. Dirigi-lhe a palavra e detivemo-nos largo espaço a falar dos costumes, das coisas e dos homens de outro tempo. Nisso surpreendeu-nos um magote de garotos que escaramuçou o velho a vaias. O pobre do ancião já ia seguindo seu caminho quando o abordou a meninada, não apressou o passo nem perdeu aquela serenidade de quem já tinha domado as fúrias das paixões com o vencer os anos. Vi-o ainda voltar-se com o rosto engelhado numa risada tristíssima, a comprida japona abanando ao vento e dizer, em tom de convicção profunda: “Ai dos velhos, se não “fosse a morte!” Parecia uma banalidade, mas não era senão o apelo supremo, a prece fervente que esse exilado fazia a Deus para que pusesse termo ao seu exílio, onde ele estava fora dos seus amigos, dos seus costumes, de tudo quanto lhe podia falar ao coração. [...].
Por que, pois, a pobre cadeirinha, esse mimo de graça, esse traste casquilho, essa fiel companheira da vida de sociedade, da vida palaciana, da vida de corte com seus apuros e suas intrigas, suas vinganças pequeninas, seus amores, todavia sobrevive e por que a não pôs em pedaços um braço robusto empunhando um machado benfazejo? Ao menos evitaria esse dolorosíssimo ridículo, essa exposição indecorosa de nudez de velha!
Já tiveste dias de glória, cadeirinha de outros tempos! Pois bem: desaparece agora, vai ao fogo e pede que te reduza a cinzas! É mil vezes preferível a essa decadência em que te achas e até mesmo à hipótese mais lisonjeira de te perpetuarem num museu. Deves preferir a paz do aniquilamento à glória de figurares numa coleção de objetos antigos, exposta à curiosidade dos papalvos e às lorpas considerações dos burgueses, mofada e tristonha. Morre, desaparece, que talvez — por que não? — a tua dona mais gentil, aquela para quem tuas alcatifas tinham mais delicada carícia ao receber-lhe o corpinho mimoso, aquela que recendia um perfume longínquo de roseira do Chiraz te conduza para alguma região ideal, dourada e fugidia, inacessível aos homens... [...]. ARINOS, Affonso. Pelo Sertão. Minas Gerais: Itatiaia, 1981.
ARINOS, Affonso. Pelo Sertão. Minas Gerais: Itatiaia, 1981. (Texto adaptado)
Marque a opção que apresenta, de acordo com o texto, a visão do narrador sobre a cadeirinha.
A)De acordo com o narrador, a cadeirinha, por já estar ultrapassada em relação à época de então, deve ser aniquilada, assim como os seres vivos, que também desaparecem ou se transformam em seres mais aptos ao ambiente atual.
B)Para o narrador, a cadeirinha, por ser um objeto sem valor para o mundo atual, pode ser exterminada, já que não tem mais serventia para a vida palaciana e nem para a exposição nos museus.
C)Para o narrador, o tempo se vingou da cadeirinha por ela ter sobrevivido a ele. Dessa forma, ela deveria receber um castigo, ser punida com o aniquilamento e viver em outro mundo, longe da sacristia e dos museus.
D)Segundo o narrador, os seres vivos evoluem para seres mais aptos ao novo ambiente que os cerca, e a cadeirinha, por apresentar formas antiquadas, não estava mais apta ao ambiente da sacristia e da corte.
E)O narrador não demonstra seu afeto pela cadeirinha de outrora e nega a sua grandeza ao compará-la aos seres vivos e ao narrar as memórias dos tempos em que ela era companheira dos integrantes da corte.
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